A Lenda do Cavaleiro Verde | Dark Fantasy com extrema elegância


Esse é um filme que me foi sugerido em live e que me atraiu imediatamente por ser da A24, estúdio que costuma fazer filmes elegantes focados no público adulto como "A Bruxa", "Hereditário" e "O Farol", e dessa vez em um ambiente que na maioria das vezes é focado em adolescentes, que é um mundo medieval e apesar de não ser citado diretamente, é uma das obras do Ciclo Arturiano. Ou seja, não é qualquer ambiente medieval, é Camelot, no Reino de Artur, mas em algo muito mais sombrio.

A história apresenta Sir Gawain, um dos cavaleiros da tábula redonda que aproveita tudo que se tem de melhor na vida, abusando de festas, mulheres e bebidas. No entanto um ser misterioso semelhante a vegetação entra em uma confraternização de natal do rei e faz um desafio. Ele quer um combate com algum cavaleiro que tenha habilidade o suficiente para fazer um único ferimento nele. Mas um ano depois, esse guerreiro deve partir em uma jornada até uma Capela e encontrá-lo novamente, onde um ferimento igual lhe será feito. Gawain vê isso como uma oportunidade de finalmente mostrar sua honra e se oferece pra enfrentar a criatura.
No entanto, assim que o combate começa, o Cavaleiro Verde se rende, fica de joelhos e abaixa a cabeça. E o ferimento que lhe é dado é a cabeça arrancada. Mas a surpresa é que pouco depois o corpo da criatura se levanta, pega a cabeça e vai embora. E o que resta é o fardo e o dever de continuar o que foi prometido, com o peso de um ano depois, partir para receber o mesmo ferimento.

Quando assisti, não sabia nada sobre, pois procuro evitar ficar lendo sinopses e outras coisas. Dessa maneira, não tinha ideia de que ali era Camelot. E dá pra ver que isso é muito proposital, pois nos próprios créditos não aparecem coisas como Morgana, Merlim, Artur, Guinevere, mas apenas Mãe, Mago, Rei, Rainha e etc.
Na verdade, acredito que até mesmo aqueles que são fãs desse ambiente, podem simplesmente não ter ideia, já que o único personagem a ter nome é o próprio Gawain. E o visual tão peculiar dessa universo, com um mundo sombrio e detalhes diferenciados, como as coroas do rei e rainha, acabam fazendo se pensar em um universo próprio.

Aliás, que universo mais gostoso! Essa não é a Camelot que conhecemos no seriado "Merlin", é um ambiente diferente, mais sombrio. Não é uma adaptação brutal e pesadona dessa universo como vimos em obras como no jogo "Sword Legacy Omen" ou na maravilhosa série "Camelot", mas é um ambiente sombrio gostoso, aconchegante. Você nota que é perigoso, mas ao mesmo tempo é encantador, algo bem único mesmo.
Sempre fui apaixonado pelo gênero Dark Fantasy, e aqui foi apresentado um meio termo realmente fantástico. Normalmente filmes medievais tentem a ser épicos com personagens super estilosos, fazendo movimentos radicais e nunca morrendo nas situações mais absurdas. Isso dificulta que façam obras no gênero, especialmente filmadas.
 
Quando finalmente surgem, podemos ver maravilhas como "Black Angel" e "O Caçador de Cabeças", que contam com um ambiente bem ameaçador, mas com um certo toque de beleza. Já o que temos aqui é algo que foca mais na beleza sombria. Um reino cinza e quieto, silencioso demais, mas às vezes exuberante em suas cores. Notavelmente perigoso com bandidos, campos de batalha com corpos apodrecendo e seres gigantescos. Mas que não foca no medo disso.
É maravilhosa a sensação de aconchego gerada, com algo que faz dar vontade de andar por essas terras, mesmo sabendo que coisas horríveis podem acontecer por ali. Além do mais esse filme tem uma das mais belas fotografias que já vi. É difícil não notar a beleza visual da coisa, com um uso de cores como simbologia que vimos em poucos filmes como "Suspiria" e "Drive".

Inclusive esse mundo grandioso e magnífico é exatamente uma das coisas que fazem o reino ser uma criação original e não Camelot. Parece muito mais o universo de "Fear & Hunger" ou "Salt & Sanctuary", mas não macabro como eles. Algo mais pacífico, suave, como uma viagem por meio da neblina.
Aliás, já que citei jogos, acho que não teria equipe melhor para fazer uma adaptação do que a Ninja Theory em algo semelhante a Hellblade: Senua's Sacrifice. Isso porque me passou uma sensação muito semelhante. Com algo focado na narrativa e não no combate ou qualquer coisa com muita ação. Algo bem parado, mas que dá pra sentir.

Inclusive, se o que você procura é algo como uma jornada épica tipo "O Senhor dos Anéis", esquece! Aqui a essência é bem diferente, é um filme pra você assistir em um dia chuvoso e ter uma experiência calma. Aliás, uma curiosidade é que J.R.R. Tolkien, autor da trilogia do anel e do Hobbit foi um dos tradutores em 1925, o poema original foi escrito em inglês medieval no século século XIV, por um ator desconhecido. O manuscrito original sobreviveu até 1839 com uma única cópia, o que faz imaginar o tanto de obras magníficas que não se perderam com o tempo.
A atuação de Dev Patel é sensacional por passar muito bem uma sensação através de seus atos. E essa sensação é de medo, preocupação e a pressão por mostrar a honra. Ele não é um cavaleiro estiloso e completamente preso à sua honra e dever. Você vê que o que está ali é um ser humano com seus desejos, vontades, seus erros. Ficou simplesmente maravilhosa a forma como isso é deixado claro.

A trilha sonora com cantos é um show à parte. Colocar o personagem vagando por essas terras de uma maneira solitária e de repente começam aquelas vozes a cantar. A sensação que a cena como um todo passa é simplesmente maravilhosa e a escolha da música ficou perfeita demais. Isso não é algo de uma ou duas cenas, frequentemente a trilha sonora é um elemento chave pra cena ficar ainda mais robusta.
Os efeitos especiais tem seus altos e baixos. Combinado com a fotografia e uso de cores de maneira incrível, cria um ótimo ambiente surreal e na maioria das vezes fica muito bem. Algumas vezes extremamente realistas. No entanto de vez em quando a coisa fica notavelmente um CGI que você vê que poderia ter ficado mais em harmonia. Mas no geral é algo que não chegou a me incomodar, acho que vai depender da pessoa.

Enfim, dirigido e roteirizado por David Lowery, o cara fez um belo de um trabalho. Não é um filme para todos os públicos e se encaixa como cult, mas The Green Knight consegue com certeza se destacar. Pode ser uma experiência horrorosa pelo ritmo para alguns, mas para quem gosta de algo com um toque mais artístico, certamente vai cair de amores por esse aqui.

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