O Farol | Esquisitíssimo filme sombrio com toque de insanidade

Você é apaixonado por obras psicológicas? Gosta de coisas que dá pra sentir facilmente que existe algo mais do que está sendo mostrado? Felizmente temos diversas opções assim disponíveis. Algumas inesquecíveis, outras nem tanto. O Farol é uma opção e acredito que pode dividir opiniões, podendo ser muito cansativo par alguns e maravilhoso para outros. Pode ainda ser uma obra bem atraente para fãs de conteúdo lovecraftiano, apesar de que não acredito realmente que seja a intenção principal.

A história se passa no final do século XIX e apresenta um faroleiro novato, chamado Ephraim Winslow, que é enviado para uma ilha remota. É a sua primeira vez em um trabalho do tipo e precisa seguir as ordens do veterano Thomas Wake, um velho estranho que por algum motivo não o deixa subir no farol e se prende lá de madrugada. Logo as coisas começam a ficar esquisitas e isolamento passa a mexer com a sanidade de Winslow.

Esse é um filme puramente estranho, uma daquelas obras experimentais que definitivamente não são pra qualquer pessoa. Não chega a ser ultra pesadão igual a Begotten, mas é notável que é o tipo de coisa que espanta uma pessoa que apenas gosta de filmes mais casuais, pois acaba sendo confusa até mesmo para aqueles que gostam de histórias mais complexas.

Quando comecei a ouvir falar desse filme, foi em grupos lovecraftianos, no entanto eu acho meio errado vender como uma obra puramente do gênero. Sim, existem os elementos lá como o mar, tentáculos, bizarrice, a loucura, a ambientação velha. Mas sinceramente, existia vida antes de H.P. Lovecraft né? Então creio que é algo que mais tem a ver com a cultura humana do que horror cósmico.

Se for apontar uma mitologia, penso muito mais na mitologia grega, com referências bem mais claras a figuras conhecidas como Prometeu e a Sereia. Além do mais o mistério e a insanidade também podem se encaixar perfeitamente na Grécia Antiga né? Por outro lado, não é como se fosse uma adaptação moderna do passado grego, é mais pra uma captura de essência.

Sabem aquelas obras com entrelinhas fortíssimas e que ao visitar fóruns de discussão, você descobre que existe toda uma história por trás da coisa? Pois é... É bem o caso desse, e acho que aqui a fonte de inspiração não foram os Mitos de Cthulhu. Porém não dá pra dizer também que apenas mitologia grega está presente, há várias inspirações de vários lugares.

É só ver a forma com que a coisa foi criada. Primeiro é preciso lembrar que é algo feito pelo diretor Robert Eggers, que escreveu e dirigiu também "A Bruxa", filme que se você não ver as entrelinhas ou se jogar em cima da coisa, pode simplesmente não conseguir pegar de verdade a essência, pois é baseado em relatos reais e crenças da época.

Aqui, a construção foi a mesma, rolou uma bela de uma pesquisa sobre a forma que era a vida de um faroleiro e análise de diários e registros. Medos e pensamentos variados sobre o dia a dia e a solidão, a sensação de ficar tanto tempo em  um local isolado em um ambiente sem a tecnologia que temos hoje em dia.

Também foram adicionadas uma série de referências gerais à cultura pop, um exemplo citado pelo diretor é uma cena inspirada por O Iluminado, que se você pensar um pouco, a história por si só tem um certo toque do tipo. Um cara que foi trabalhar em um lugar isolado e as coisas começaram a ficar estranhas, levando ele ao limite da sanidade. Me lembrou também um bocado a atmosfera de Dear Esther com esse climinha isolado e sombrio.

E o resultado é um filme em preto e branco, o que por si só já é bem estranho para algo lançado em 2019, mas vai ficando cada vez mais esquisito com as coisas que vão acontecendo. Chega a um ponto em que você não consegue mais entender o que significam certas coisas. Algumas cenas são simplesmente bizarras.

Além disso, essa mistura de coisas esquisitas te faz acompanhar a paranoia dos personagens. Será que um deles é louco? Será que os dois são? Será que há algo de mágico de verdade ali? Ou será uma histeria que ambos estão vivendo em meio ao isolamento? É o tipo de filme que você normalmente tem que conversar com alguém após terminar e assim compartilhar pensamentos e gerar suas próprias conclusões.

Não creio que no fim das contas seja um longa metragem que contenha uma história certa e fixa. A sensação é de que realmente seja pra ser em duplo sentido e assim simbolizar a loucura que o isolamento pode causar, mas também deixar brechas para vários outros tipos de possibilidade. Sendo assim, é aquela coisa que é mais pra se sentir do que entender.

O visual também pode ser uma surpresa, pois embora seja mais simples em alguns quesitos, como não ser widescreen (é quadrada a tela igual filme antigo) e ser preto e branco, tem uma ótima fotografia e efeitos maravilhosos. A sereia que aparece é ultra realista, não é um CGI vagabundo como temos aos montes e as gaivotas eu nem sei como é que fizeram aquilo, se eram super bem treinadas ou um baita CG. Tem uma cena que o personagem pega uma voando e começa a bater, aquilo parecia algo real, mas depois fui ver a bela ilusão de câmera que fizeram. Acho que o orçamento deve ter sido quase todo pra efeitos visuais.

Enfim, assumo que gostei mais de A Bruxa, mas isso não tira o mérito desse filme. O amigo que assistiu comigo gostou mais desse e sem dúvidas é um filme que conseguiu deixar sua marca. Por outro lado não creio que seja o tipo de coisa que vá entreter qualquer um e só o fato de ser preto e branco já vai espantar uma galera, então imagina quando perceberem que a história é uma verdadeira confusão? Recomendo pra quem não tem problemas com isso, o resto passe longe!

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