Circle | Ficção científica de um jeito muito diferente

Uma das minhas maiores reclamações em filmes é a facilidade que roteiristas tem em pegarem histórias prontas e só substituírem os cenários e personagens. Sendo assim, um filme já ganha uma credibilidade imensa comigo quando ousa usar uma fórmula nova, e Circle é um desses, usando o gênero ficção científica de um jeito realmente novo.


Na história, cinquenta pessoas despertam em uma sala escura com uma esfera preta no meio, elas não podem sair de onde estão se não morrem, e a esfera é ativada a cada dois minutos, sendo que todos tem que votar em alguém para morrer, o que tiver mais votos é atingido com um raio fatal e então vem a próxima rodada.

Esse é um filme que assisti com um amigo no Netflix Party, ele escolheu e lá fui eu sem saber o que estava me esperando. No fim das contas acabou sendo uma bela de uma surpresa, pois é exatamente o tipo de coisa que quero ver em um filme, independente se eu vou ou não me apaixonar por ele. Isso porque a falta de originalidade em obras já me cansou há muito tempo.

No caso de ficção científica existe uma quantidade imensa de possibilidades, mas mesmo filmes que gostei como Vida, é possível notar que é basicamente uma versão do horrível Morgan, no espaço, e usa o mesmo formato usado vinte anos antes em O Enigma do Horizonte, só que de forma mais simplória, sem uma evolução da história.

Então eu vejo uma penca de filme tosco por aí com orçamento cabuloso. Super produções com cenários inacreditáveis, figurinos que uma pessoa normal teria que trabalhar meses (às vezes até anos) para pagar e efeitos especiais realmente bem feitos, para no fim ser só mais do mesmo. Sempre me revoltou esse esforço em criar universos e tacar uma história genérica neles.

Circle me foi uma surpresa porque apesar de ter atores horrorosos, efeitos especiais toscos, diálogos ridículos, e uma história com clima de barraco do Casos de Família, se destacou pelo bom senso dos criadores em entenderem que eles tinham tudo pra fazer uma bela de uma bosta, mas ao invés de colocarem adolescente correndo pela floresta com um psicopata atrás, decidiram usar o orçamento pra compactar a coisa.

O filme inteiro se passa em uma sala preta com todos os personagens juntos e tem diálogos do começo ao fim. E é aí que a coisa começa a se destacar, pois realmente tacaram cinquenta atores e colocaram falas para cada um deles. Não tem o protagonista, tem pessoas que durante um certo tempo recebem destaque, até serem mortas e outros começarem o falatório, gerando briga atrás de briga.

É um filme com climinha de barraco que fez eu e meu amigo rirmos um bocado de certas bagaceiras que surgem, mas ainda assim é algo que você nota facilmente o potencial da coisa. Ao invés de fazerem uma história manjada, gastaram o orçamento todo na construção de uma sala preta com uam esfera no meio e luzes no chão.

Cinquenta atores é gente demais, e levando em consideração o quanto são atores toscos, fazendo várias caretas e exagerando na hora de falar, me faz acreditar que os caras foram a uma escola de atuação e falaram "Então gente... É o seguinte... Vamos fazer um filme, mas só vai dar pra pagar o valor simbólico de 100 real tá bom?".

Mas não bastando a ideia em si, achei demais como o filme acabou sendo uma crítica social indo para os mais variados argumentos. Então primeiro começam tentando achar os podres uns dos outros "Ei, você é bandido! Bate na mulher!", e depois as coisas vão mudando "Vamos matar a lésbica pra ela parar de transar em toda parte na frente da filha, vamos poupar essa criança de crescer vendo isso!", ou o cara negro que diz "Isso, vamos matar todos os negros primeiro né? Por que não? Sempre nós!".

Chega a um ponto que você consegue identificar facilmente os barracos que rolam em redes sociais e isso é super bacana, porque são pessoas sendo pessoas. Muito provavelmente se isso acontecesse, realmente iriam começar a selecionar quem morre baseado no que acreditam, e os desentendimentos surgem do nada.

Enfim, esse é um filme que eu bato palmas, pois apesar de ter diversos elementos tosquíssimos, cumpriu seu papel em fazer o mínimo que acho que todo roteirista deveria fazer, apresentar algo diferente. Fico imaginando se não tivesse a atmosfera de filmes de grande orçamento como Alien: Convenant, poderia ser um filme impecável.

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