Midori Shōjo Tsubaki | Um anime grotesco que se perdeu no tempo

Embora Junji Ito seja o nome mais comum ao se pensar em horror japonês em mangás, existem outros mestres, e um deles é o Suehiro Maruo, criador do magnífico Vampiro que Ri, mas que tem uma penca de obras que usam o seu estilo peculiar visual e narrativo. No entanto, eu nunca tinha ouvido falar de uma adaptação de anime dele, então imaginem a minha surpresa ao descobrir Midori Shōjo Tsubaki, de 1992.



O negócio é que o visual usado pelo autor é extremamente peculiar, extremamente artístico e com narrativas pesadíssimas. No caso do Junji Ito nós vemos o bizarro em obras como Gyo, Tomie e Uzumaki, no entanto existe um certo apelo que se encaixa bem ao gore e bizarro visto na cultura pop. Há algo emocionante, empolgante ali, que você acha horrível, mas quer olhar.

Já Suehiro Maruo ele usa algo mais seco, cru e artístico. Um estilo chamado de Ero guro, o mesmo usado em Fraction, de Shintaro Kago. Porém acho que também existe uma distância entre os dois autores do mesmo gênero e que Maruo é muito mais atraente, indo fundo na mente humana e na podridão, enquanto Kago foca na bizarrice como se fosse um tique nervoso que o faz querer fazer todos sofrerem junto com ele.

Então quando penso na obra de Suehiro Maruo, me vem duas coisas à mente, primeiro um visual peculiar, lindão mesmo, algo rústico, personagens pálidos com olhos marcantes, um traço que lembra o do Junji Ito, porém mais antigo, parecem pinturas de quadros. Segundo é o grotesco extremamente seco misturando sempre erotismo. Pessoas nuas sendo comidas por vermes, cortes horríveis em locais incômodos em uma pessoa transando, essas coisas.

Exatamente esses dois elementos foram o que me fizeram imaginar que não existia uma única adaptação de anime para a obra do cara. Afinal de contas quem é que vai querer investir em um hentai grotesco com um traço absurdamente difícil de se animar por ser complicado de se imitar? Se adaptassem isso, seria uma daquelas adaptações distorcidas que perde a essência inteira de tão modificada que é. 

E bom... De certa forma eu estava certo em partes... Mas acabou que curiosamente a adaptação foi feita de forma tão digna quanto a essência da obra do autor merece. Ou seja, foi adaptada no mundo underground e não no maravilhoso universo das animações padrões do jeito que conhecemos onde tem animes populares.

Mas bom, a coisa começou em 1984 quando foi publicado o mangá Midori Shōjo Tsubaki, mais uma das obras macabras do conceituado mangaká. Pra quem não sabe, lançar mangá pra um público mais popular é mais fácil que lançar anime, pois a editora só vai precisar imprimir, e não vai ter tantos problemas. Sendo assim, quem quiser fazer bizarrice, faz, acha uma editora e é isso aí, pode se dar bem, já anime a coisa muda... É algo passando na TV ou que precisava de um belo investimento nos anos 80 pra lançar em VHS.

Portanto se alguém quisesse lançar um Ero Guru nos anos 80, a pessoa não tinha a internet como alternativa. Mas gente com pensamentos bizarros sempre existiram em qualquer época, não é mesmo? E as pessoas se viravam do jeito que podiam para expressar sua visão de mundo. Apesar disso, ironicamente, uma versão em anime dessa história não surgiu do sonho de Maruo, mas sim de um outro cara...

Hiroshi Harada é um diretor japonês que sofreu bullying durante sua infância e isso o marcou pra sempre, passando a apresentar fortemente a temática em suas obras. E quando ele leu a obra de Suehiro Maruo, pirou com a proposta, o mundo injusto apresentado e como uma criança pode ser submetida aos mais variados tipos de abuso.

A história que parece se passar mais ou menos na época da revolução industrial, mostrando uma menina, chamada Midori, que vende flores pra poder cuidar da mãe doente, no entanto certo dia sua mãe morre de uma forma extremamente horrível e ela vira sem-teto, porém decide ir até o dono de um circo que disse que ia mudar sua vida. Mas acaba sendo capturada e escravizada, passando a viajar junto com o espetáculo e sofrendo todo tipo de abuso.

A coisa é bem pesada, envolvendo tortura animal, abusos sexuais, deformação corporal, horror gráfico, e tudo quanto é bagaceira. Normalmente quando obras querem personagens mais realistas, mostram os dois lados de um ser humano, como heróis que têm seus lados podres (Tipo em Watchmen). Porém aqui a coisa é feita de forma inversa, não são pessoas boas que tem seus lados malvados, são pessoas malvadas que vez ou outra mostram ter alguma bondade.

Harada foi procurar patrocinadores pra bancarem uma adaptação para filme animado de algo assim, ele precisava fazer. Mas, como era de se esperar, ninguém queria investir em um treco desses. Era muuuuuita complicação, e por mais que antigamente tivéssemos obras com elementos grotescos como Akira, Genocyber, Zeorymer, Wicked City, etc... Esse passava dos limites, pois exigia erotismo explícito com gore.

Então não importava se tinha uma história fenomenal por trás, a base dela era explorar o lado podre da alma humana e a injustiça do mundo. Sem essa essência, a história se perdia, porém com os elementos necessários, era complicado passar isso em algum cinema, pois por mais que colocassem que era para maiores, seria complicado, e colocar HENTAI no nome seria fim de carreira haha.

Não que não existam animações com investimento e erotismo cabuloso, Kite tá aí pra provar, mas alguns dão sorte, outros não, e bom... Harada não teve sorte. Além do mais o lance dos traços e animar um visual como o de Maruo mantendo aquele toque de beleza ia ser um inferno. Acho que causa um medo semelhante a animadores de Berserk, quando veem o traço do Kentaro Miura, com a diferença que o Kentaro foca nos detalhes e Maruo foca em uma beleza um tanto pura.

Em 1987 Hiroshi Harada notou que bom... Não ia rolar, ninguém queria fazer isso. Mas o Japão é o país da animação né? Está no sangue deles e tem um monte de profissionais undergrouns. Assim como existem animes de super qualidade, chove animes e mangás vindos das mãos de autores independentes. A maioria morre no mundo underground, mas tem alguns que quando saem à luz, brilham pra valer, é só ver One Punch Man que começou com o traço sendo só o bagaço, mas o cara criou uma obra que virou fenômeno.

E assim, Harada usou todos os recursos que ele tinha pra fazer esse anime sozinho, contratando o mínimo possível, pessoas pra dublar e uma mistura entre animação tradicional e técnicas de ilusão como por exemplo um cenário grande que a câmera vai passando por ele e mostrando aos poucos, mas está tudo parado.

Por anos ele focou em criar esse filme, até que em 1992 finalmente trouxe ao mundo a sua obra prima. Aquele que talvez fosse o único anime Ero Guro existente. Algo notavelmente travado e com animação fraca, mas ainda assim com técnicas de ilusão o suficiente para parecer que é um anime com mais qualidade do que realmente é.

O traço de Suehiro Maruo conseguiu ser imitado e ficou bem legal, no entanto na maioria das vezes com uma limitação enorme de frames. A versão original do filme tinha mais ou menos 5000 telas. O que se você pensar é bem pouco porque se tiver 3 por segundo, já são 180 em um minuto, 1800 em 10 minutos. Mas a maioria dos animes é feito em 8fps, ou seja, quase o triplo do que citei e isso sendo episódios de apenas 20 minutos (Falo sobre isso na matéria sobre a má qualidade da animação japonesa). Daí já dá pra notar o quão travada a animação filme é na maioria do tempo né?

Mas esses frames não são divididos perfeitamente entre os segundos e graças a isso terão momentos em que a animação vai estar parada em uma imagem, e terão momentos que vão realmente sugar muitos frames e você vai ver algo belo se movendo. Inclusive sinto que a coisa vai melhorando na medida em que você assiste, ou talvez eu apenas me acostumei, porque no começo incomodou um pouco, mas no fim parecia suave demais e muito empolgante.

A condução da história é fenomenal, ela não para e inclusive acho que se pegassem esse filme e transformassem em um anime de 12 episódios, ele ainda assim estaria super robusto, pois a sensação é de que você realmente parte em uma jornada. Existem vários personagens, cada um com suas características peculiares e avanços na trama, coisas mudando na vida da personagem. Acontece tudo tão rápido, mas ainda assim de maneira fantástica.

O espetáculo é um Circo dos Horrores, então se você gostou de coisas como American Horror Story Freak Show, certamente vai gostar da atmosfera aqui apresentada. A maioria dos personagens tem alguma deformação física, e todos tem suas peculiaridades que acabam sendo usadas para o lado do horror e bizarro.

Gostei muito de como os personagens são trabalhados e como você consegue sentir bem a pressão que todos eles passam. Apesar de Midoria ser o foco e a grande vítima, por ser sequestrada e arrastada por esse mundo, logo você começa a notar os outros personagens e como todos eles estão tão ferrados quanto.

Você tem aquele sentimento de pessoas diferentes que estão tão ferradas e vivem em um outro mundo, não podendo se misturar com as pessoas "normais", mas que querem sobreviver e assim se viram no meio do desespero. Precisam ganhar dinheiro e fazer o que for necessário. A sensação que tive é que são pessoas que se tornaram cruéis por viverem de forma difícil demais, achei bem trabalhada essa ideia do preconceito.

Também é uma obra super psicológica, algumas partes são sonhos, e outras são apresentadas imagens bizarras que não estão realmente acontecendo, mas que transmitem de forma visual o sentimento da protagonista em relação ao horror que está passando. Algumas das sequencias de telas passadas de forma super rápida acabam caindo extremamente bem em passar a sensação de pressão.

Bom... Ele conseguiu lançar o filme, conseguiu exibir em alguns cinemas, mas teve um probleminha... Mesmo sendo um trabalho independente, a coisa foi considerada bizarra demais e o trabalho foi perseguido. Versão original destruída e se tornou uma obra parcialmente perdida (Tipo o que aconteceu com Metropolis), o que sobrou foi uma versão de mais ou menos 40 minutos.

Por toda a década de 90 e metade da década de 2000 ele só sobreviveu no mundo underground mesmo, com fitas de vídeo pirata que circulavam pelo Japão nas mãos de gente estranha. Não foi um trabalho nada reconhecido e o fato de não ter a versão completa da coisa acabava piorando muito. Até que em 2006 quando se popularizou um pouco mais com o surgimento de uma cópia em DVD (Em melhor qualidade, mas sem ser a versão completa).

Apesar de tudo ele não ganhou popularidade, continuou sendo um anime underground, mas abriu as portas para o ocidente, essa versão em DVD. Algo curioso é que essa versão não foi lançada no Japão, mas sim na França. Inicialmente o filme foi banido no resto do mundo devido ao seu conteúdo ultra grotesco.
Enfim, achei uma obra maravilhosa, o autor sem dúvidas não me decepcionou. Não é algo que recomendo para todos é claro, é um filme adulto e para quem estiver preparado para ver coisas bem nojentas. Mesmo com o conteúdo pesado, achei uma trama muito bem construída e que consegue passar uma sensação extremamente intensa. Em 2016 recebeu uma adaptação em live action que também não foi nada falada, mas mostrou que é uma obra que tem força o suficiente para gerar um investimento assim, mesmo sendo tão pouco conhecida.

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