Cujo | Um baita filme tosco vindo da mente de Stephen King

Vocês conhecem o maravilhoso acervo de obras de Stephen King, né? E se você vê as adaptações, deve ter notado que as coisas variam muitíssimo! E dependendo da visão artística, a coisa pode virar só o bagaço! É só comparar O Cemitério Maldito dos anos 80 com a versão de 2019 ou vê o sombrio Filme do Nevoeiro e fazer uma comparação com a correria e gritaria da série do Nevoeiro. E talvez tenha sido isso que aconteceu com Cujo, um filme que parece que rolou um esforço da produção para ser UMA DESGRAÇA.

A história apresenta duas famílias, uma delas é dona de uma oficina de carros e com um marido abusivo e controlador. São também donos de um cachorro chamado Cujo, que era muito dócil, mas foi mordido por um morcego, pegou raiva e ficou descontrolado, tornando-se um cão assassino. A outra família sofre problemas no relacionamento por causa do caso que a esposa, Donna, teve com o vizinho, levando o marido a fazer uma viagem para pensar sobre isso e resolver uns problemas. Sozinha, Donna e seu filho pequeno Tad vão até a oficina e é aí que a bagaceira começa.

Esse é um filme de 1983 e durante minha infância nos anos 90 eu sempre via na locadora, mas nunca tive vontade de assistir mesmo naquela época. Quero dizer... Era a história de um cachorro... Cachorro não tinha graça, eu queria monstrengão. Os anos foram passando e sempre via Cujo aqui e ali, mas sempre me pareceu sem graça demais, sendo que eu só notava mesmo porque tinha o nome de Stephen King no meio.

Então esses dias, enquanto vasculhávamos a biblioteca do Amazon Prime Video, um amigo meu e eu começamos a rir descontroladamente ao ver a capa de Cujo, com um cachorro louco em uma foto tremida que era só o bagaço. Algo super exagerado e que mostrava bem a essência de um cachorro completamente descontrolado e claro que entrou na lista de tosqueiras para assistirmos. Após alguns dias imitando o que o Cujo supostamente estava "falando" naquela foto, acabamos indo assistir.

Eu sabia muito pouco sobre esse filme, mas imaginava que seria algo super previsível, algo na mesma fórmula de "Max: Fidelidade Assassina", um clássico da tosqueira, porém que me traz lembranças da infância. Antes de assistir, comecei a recordar que vi alguma coisa sobre ser um cachorro vampiro ou algo assim, mas ao menos no filme não é bem isso, é só um cachorro com raiva mesmo.

Bom, a verdade é que Cujo tem potencial para ser um bom filme, no entanto história e roteiro são coisas diferentes né? E pelo o que vi, a culpa não foi do King em si, mas sim do roteirista da bagaça. Isso porque fui assistir algumas reviews do livro, que foi lançado em 1981 e as críticas são apaixonadas. Parece ser uma história super focada em narrativa e sentimentos, o que parece ser algo interessante, foi inclusive lançado no Brasil em edição de luxo. Mas não adianta ter um conceito bom e adaptar em forma de filme trash né?

A coisa é realmente diferente do que eu esperava, pois se passa quase que completamente em um carro que não funciona, bem aos moldes de The Monster, porém é diurno ao invés de noturno e foca bastante no calor que os personagens estão sentindo. No sol, no garoto passando mal e em desespero. É uma ideia interessante o de uma mãe sem saber o que fazer com um cachorro enorme descontrolado lá fora.

Você nota que a fotografia do filme é elegante e não é como se fosse um daqueles filmes mal feitos e descuidados que você enjoa só de olhar e sente que alguém gravou com o celular. É uma baita de uma produção bem feita e você vê que é criado bem o universo ali. Aliás, uma curiosidade é que a cidadezinha em que se passa é Castle Rock, sim a mesma da série!

Os atores também são decentes e você percebe um esforço para fazer o que colocaram eles pra fazer. Em especial o ator mirim Billy Jayne se destacou ao meu ver, pois é muito comum ver atores infantis ficarem com aquela cara de bobo falando só "aham" e balançando a cabeça, e que você percebe que só falaram a fala dele rapidão pra ele repetir. É um ator que é expressivo pra caramba, chora, berra, é uma criança meio irritante, mas que é adequada a irritação, levando em consideração o que tá rolando.

Mas de que adianta isso tudo se o roteirista parece ter vindo direto do universo dos filmes trash né? E olha, eu assisto MUITO filme tosco. A maioria eu nem me dou o trabalho de fazer análise, é só ver no meu twitter a quantidade de filme tosco que cito lá, mas que não dá vontade de escrever sobre, de tão ruim que é. Porém aqui eu vi a verdadeira deusa da burrice, uma personagem que supera qualquer grupo de adolescentes de filme de terror genérico.

Sabe quando bate aquela raiva das atitudes mais burras que os personagens desse filme sombrio tomam? "Ah... Eu ouvi Satanás me chamando ali na floresta da escuridão, estou sozinho e acho que vou lá ver pra descobrir se é ele mesmo...", pois é... Donna Trenton consegue fazer pior! Essa desgraçada faz de TUDO pra tirar quem assiste do sério. Não tem nem sentido o que diabos a mulher tá fazendo.

Por exemplo, quando o carro da infeliz para de pegar, ela fica tentando, mas não vai. Depois de horas, o carro finalmente pega e ela sai, e o que a desgraçada faz? Dá uma paradinha do lado do cachorro e fala "Vai pro inferno!", e depois adivinha? Isso mesmo... O carro não volta a andar! Genial ein? Outra hora ela fala "Ai querido, vou abrir a janela, mas só um pouquinho tá? E abre quase METADE da janela com o cachorro assassino lá fora. O bicho trincou completamente o lado da janela do moleque e o resto do filme todo ela não se dá o trabalho de fechar a brecha gigante do lado dela.

A sensação que tive o tempo todo é que a Donna tava louca pra sentir os dentões do Cujo atravessando aquele pescocinho, ou que falaria algo do tipo "Então querido, eu tenho um plano, eu vou tacar você no Cujo, aí eu vou fugir, pedir ajuda e aí eu volto pra te salvar, tá bom?", porque eita mulher que faz bagaceira viu?

Enfim, Stephen King  diz que ele usava tanta cocaína na época que escreveu, que nem lembra direito, mas se baseou em um dia que foi a uma oficina de moto e apareceu um cachorro da raça São Bernardo e ficou latindo com ele, até o dono chegar e ele pensou "E se fosse minha esposa aqui". Um filme com um conceito interessante e que nas mãos do roteirista certo tinha potencial pra ser até um horror psicológico. É uma história menos previsível do que imaginei, com diversos pontos elegantes, mas que até o fim (que vi que no livro tem um baita impacto), decidiram mudar no filme pra garantirem que fosse o mais trash possível. Dá pra assistir pelo Amazon Prime Video.

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