Blasphemous | Mais para Castlevania do que para Dark Souls

Tá aí um jogo que me empolgou automaticamente quando lançaram a campanha do kickstarter, e isso por dois motivos. O primeiro foi o visual maravilhoso, o segundo foi o fato de ser uma empresa que adoro, a espanhola The Game Kitchen, responsável pelo maravilhoso The Last Door e com uma tendência natural para obras lovecraftianas. Não foi uma surpresa quando vi conseguirem bater a meta, e aguardei ansioso. E pra quem gosta da atmosfera sombria da era da Inquisição, certamente vai adorar.


A história se passa no reino de Cvstodia, um universo de fantasia sombria baseado no cristianismo e que a população tem que lidar com algo conhecido como "Milagre", bênção para alguns, maldição para outros. Ele se manifesta das formas mais variadas, podendo fazer algo maravilhoso ou algo completamente horrendo. Você assume o papel de "Penitente", o sobrevivente de um massacre que precisa fazer uma jornada por esse mundo de sofrimento em um ciclo que não para de se repetir.

A ideia em si é extremamente maravilhosa, diferente. Você vê elementos do cristianismo, o visual dos inimigos, certas palavras, os costumes. No entanto não é algo realmente cristão, não é em nosso universo, mas tem muito dele, muito de épocas antigas quando a igreja tinha mais poder. Foi fantástico terem pego essa essência e transformado em um reino medieval de Dark Fantasy. Afinal de contas essa ideia de que tudo é heresia, de morrer fácil por nada e de fanatismo é algo que tem tudo a ver com universo macabro.

Agora acho que um erro que cometi, e que muitos cometeram é em pensar que o jogo estava próximo da experiência que é Dark Souls, porém no fim das contas a coisa se aproxima muito mais de um Castlevania, em especial Symphony of the Night graças ao seu visual gótico tão marcante. Apesar de não ser tão robusto na jogabilidade. Então não é que seja ruim, porém é aquela sensação de você estar louco pra comer cachorro quente, preparado pra isso e te darem uma pizza. É legal também, mas você esperava outra coisa.

Muito provavelmente o que gera essa ilusão é o visual maravilhosamente sombrio com design exótico de inimigos. Infelizmente jogos medievais tendem a fazer visuais bem clichê, coisas que já vimos um milhão de vezes, mesmo sendo obras de fantasia, dando apenas um retoque, mas na essência sendo a mesma coisa. Porém aqui vemos inimigos com design próprio, alguns comuns, como visuais de cardeais e bispos, outros completamente bizarros, indicando sofrimento.

Por exemplo tem a moça que arrasta uma cruz de pedra nas costas, o cara que no geral é normal, mas se chicoteia, e os chefes são extremamente bizarros, um bebê gigante vendado que é protegido por cipós espinhosos, um esqueleto carregado por mãos enormes que precisam ser machucadas para soltá-lo e você poder atingi-lo, uma versão blasfema de Pietà em que ao invés de Jesus estar deitado nos braços de Maria, está algo parecido com Baphomet, etc...

O visual é muito impressionante, muito maravilhoso, e pra quem ama obras pixelizadas, vai ficar realmente encantado. O mundo em si também é horrivelmente lindo. Uma terra devastada, indo desde uma vila toda seca até uma montanha gelada com um monastério ou as profundezas de um sino gigantesco de cabeça pra baixo.

O que eu sinceramente esperava era uma experiência como Hollow Knight e Salt and Sanctuary, ou seja um ambiente que usa sim o gênero Metroidvania em sua essência, mas que é um Soulslike como gênero principal. No entanto aqui a coisa acaba parecendo mesmo mais uma  Metroidvania comum mesmo, o que achei bem chato.

Inclusive acho esquisito no steam ter a tag "Soulslike", afinal de contas o jogo não é difícil, no MÁXIMO três chefes me deram algum trabalho, e os inimigos então, você não precisa se esforçar, você é poderoso demais pra eles. Até existe parry, mas não é um sistema elegante que você tem que saber usá-lo bem e se concentrar pra progredir. E não acho que o jogo pune de verdade o jogador por morrer, o que acontece é você ter menos barra de soltar magia (Que sinceramente dá pra passar o jogo inteiro sem usar)  e você ganha menos dinheiro, que tem tão pouca coisa pra gastar que também não serve muito (Terminei o jogo com mais de 50 mil acumulado sem ter com o que gastar).

Então é um ambiente pesadão, porém não acho que passa a sensação. Você realmente é o herói! Na verdade a maior dificuldade é o cenário, queda e tal... Provavelmente a forma mais fácil de morrer é por queda, e acho que acaba gerando mais sensação de algo frustrante do que algo desafiador como seria lutar contra um inimigo comunzinho, porém morrer por vacilo. Jogos como Fear & Hunger passam maior sensação de horror medieval, mesmo não sendo bem um soulslike.

O mundo também, apesar de maravilhoso, é meio pequeno demais. Eu esperava muitas áreas secretas com locais completamente novos e chefes alternativos.  Mas a sensação é de se explorar muito rapidamente a coisa. Me pareceu meio compacto demais, não como Metroid Fusion ou jogos de Game Boy Advance, mas ainda assim não parece tão grande quanto eu esperava que fosse. É mais para um jogo de tamanho médio.

As animações, apesar de bonitas, são problemáticas às vezes. Por exemplo, se alguém estiver dando ataque de raio caindo do céu e você recebe um, acabou! Você nunca mais vai conseguir se levantar de novo, pois tem toda a animação do personagem levantando e antes de terminar, vai vir outro e outro até você morrer, e sem poder interromper pra dar um dash e desviar.

Você também não tem sensação de evolução, os itens que pega você não sabe pra que são, tem que ir no inventário e ver em que slot encaixar ele, existem vários tipos de slot, mas a mudança é muito baixa. Como falei, usar magia é facilmente dispensável, não tem muito efeito. Você não sente que mudou seu personagem mesmo, e assim é mais para andar e bater nos inimigos, nada de fazer um personagem personalizado, até porque armas e armaduras também estão de fora, é o mesmo do começo ao fim.

Mas no geral é sim um ótimo jogo, o que acaba prejudicando ele é a expectativa imensa. Infelizmente o seu design visual maravilhoso acaba sendo grandioso demais para oferecer menos do que ele mesmo. Mas se o jogo fosse menos grandioso visualmente, provavelmente alcançaria facilmente notas muito positivas na steam, pois ele é ótimo, realmente divertido.

Se fosse por exemplo um visual mais fofinho, o povo certamente não iria exigir mais dificuldade, desafio, dor... Iria a penas jogar sem cobrança, e aí iria atravessar esses ambientes, vencer os chefes, se divertir e pronto. Pois tem uma mecânica sólida apesar dos problemas. E esses problemas não estragam o jogo com certeza, até porque todo jogo tem seu probleminha.

A dublagem do jogo é incrível, dá um charme ainda maior para o visual dele. Achar personagens e ouvir eles falando apresenta uma seriedade maior à coisa. A história é misteriosa, porém é mais transparente do que a maioria dos universos sombrios. Aqui a narrativa é mais parecida com Sword and Sorcery, você vai descobrindo o mundo junto com o personagem,  e não é super complicado de entender, é meio estranho, mas com o tempo você vai encaixando as coisas sem precisar de fóruns e teorias.

Os objetos que você acha sempre tem uma historinha e são muito bacanas, você vai encaixando as coisas, entendendo. Cada um conta uma parte de uma história, você soma com os diálogos de personagens e ambientes em que está e começa a entender o que aconteceu ali e como determinados lugares ficaram daquele jeito.

Enfim, Blasphemous é um jogo maravilhoso, mas que precisa ser absorvido da maneira correta. Jogadores mais dramáticos podem resolver descer o cacete logo, porém se você for razoável, pode notar que é sim um jogo super elegante, vale a pena! Recomendo sempre dar uma olhadinha no preço dele na Greenman Gaming antes de comprar na steam, algumas vezes os preços deles estão bem abaixo do normal, e sempre lembre de olhar os cupons de desconto que eles espalham pelo site, que deixa a coisa mais barata ainda, dê uma conferida aqui.

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