Sintonia | Série brasileira com toque de GTA

Essa é uma série que só olhando a capa, eu não assistiria, com uma galera de funkeiros e tal. Nada contra funk em si, só que não é algo que desperta aquela vontade de ir assistir uma série sobre. Na real eu nem pensaria muito, ia achar que podia ser qualquer coisa, tipo um reallity show de funk ou algo assim. Mas acidentalmente assisti o trailer e achei a narrativa encantadora, procurei ir correndo pra dar uma conferida e realmente gostei bastante.



Antes de tudo já digo, se você for assistir com nariz torto, é exatamente isso que vai ver nessa série, algo horrível pra caramba. Mas acho que se a pessoa abrir um pouco a mente, pode ser algo bem divertido, ainda mais sendo apenas seis episódios.  Apesar de tudo, me enganei também com o conteúdo apresentado, pensei que seria semelhante a Cidade de Deus, ou a história de três jovens sofrendo para tentar virar funkeiros em um local lotado de bandidos e tentando lidar com isso.

A real é que no fim das contas eu vi muito de GTA nessa série, desde a fotografia com cores vibrantes que faz a favela parecer uma baita área de passeio tropical, até a narrativa focada em três personagens com histórias completamente diferentes e problemas próprios, mas que vez ou outra se cruzam por aí.

Uma das coisas que mais me fez gostar da série, é que a forma com que tratam os personagens é bem mais realista do que imaginei. Pensei que seriam todos bonzinhos de coração puro e apenas tentando sobreviver nesse mundo cruel. Mas a real é que colocaram pessoas com maldade e bondade, erros e acertos. Inclusive me surpreendeu um dos protagonistas ser bandidão mesmo, assassino e tal.

A história se passa em uma favela de São Paulo e apresenta Doni, que luta para tentar uma carreira como funkeiro, Rita, que tenta alcançar o caminho de Deus para reconstruir sua vida e Nando, que cada vez mais se afunda no mundo do crime, tentando crescer em sua área. Os três são amigos de infância, mas vivem em mundos completamente opostos.

Eu achei bacana como mostram vários processos ao mesmo tempo, o foco não é meramente o funk. E cada uma das histórias vai mostrando a coisa evoluindo e como funciona. São os problemas enfrentados para se destacar como funkeiro, a conversão de Rita e como ela vai ficando cada vez mais encantada pela proposta religiosa, e a estressante vida de Nando e como tem que lidar com bandidões extremamente barra pesada em um caminho sem volta.

Mas cada um deles tem outro lado, Doni é um cara meio inocente, só que super afobado e sem paciência para lidar com injustiças que sofre, e assim entra em confusão rápido. Rita tem um passado não tão bonito, e ferrou com uma amiga, e Nando, apesar de ser barra pesada, é um cara com família e carinho pelos amigos.

Algo curioso é que achei essa uma série com um clima meio cyberpunk. Isso porque primeiro que funkeiro é uma das coisas mais cyberpunks que conheço. Esses visuais espalhafatosos com músicas super sacanas me parece muito de um personagem de filme futurístico dos anos 80, e isso só fica ainda mais forte com alguém que mora na periferia e tem ligação com o submundo.

Somando isso com a fotografia cheia de cores fortes em um lugar todo detonado e com os personagens usando smartphones pra se comunicar o tempo todo, inclusive enviando vídeos e áudios, a coisa fica muito mais parecida com o gênero, e só aumenta com o fato de frequentemente ser mostrado o contraste, com a área da favela e prédios bonitos de São Paulo. Há frequentes usos de drones.

Outra coisa é que também frequentemente há cenas em ambientes super psicodélicos como boates. Aquele ambientinho escuro com luzes verdes passando enquanto personagens conversam do lado do balcão e bebem. Daí em outra cena você já vê uma penca de bandidos fazendo o julgamento de alguém no em um ambiente todo ferrado kkkkk.

Foi dito em uma entrevista que SP e RJ foram lugares que inspiraram Cyberpunk 2077, e definitivamente essa é uma série que mostra bem isso. Esse contraste enorme de ambientes belos e tecnológicos e ambientes caóticos, ao mesmo tempo que vemos contrastes sociais e tecnologia até pra quem é ferrado.

Enfim, é uma série rápida, com uma quantidade enorme de acontecimentos a cada episódio e acho que pode ser um bom passatempo. Ela não é impecável, porém acho que dá pra causar um bom entretenimento. Vi algumas críticas sobre não dar pra entender as gírias que os bandidos falam, mas na real só achei que eles não deixarem mastigado com bandidos falando um português impecável só deixa a coisa mais robusta.

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