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terça-feira, 31 de outubro de 2017

Edward Hopper e sua inspiradora arte da solidão urbana

Normalmente eu não sou do tipo que admira quadros. Simplesmente não tenho essa sensibilidade... Existe toda aquela explicação de significado profundo e tal, mas muitos quadros só me parecem uma imagem bacana ou até mesmo um monte de rabisco que não parece ter sentido algum. Mas isso com certeza é diferente com a arte de Edward Hopper, que essa sim parece estar em total sintonia comigo.

Sabem, uma vez eu conheci um menino que tentou me descrever algo que ele sentia em relação ao velho oeste, no entanto ele falou de um jeito como se eu sentisse aquilo também, como se todo mundo sentisse. Ele tava tentando me dizer o quanto batia uma estranha sensação de nostalgia daquele lugar, quando via filmes ou jogos, era como se tivesse nascido ali e se sentia super conectado.
Office in a Small City - 1953

Hoje sei que é como o que sinto ao passar em cidadezinhas em Wildlands, já ele tinha isso em obras como Red Dead Revolver, ou o mais do que fenomenal Era Uma Vez No Oeste. Mas também é algo relacionado não somente ao passado e simplicidade, mas que pessoas podem sentir em relação às mais variadas coisas, parques de diversão, boates, o que for.

Mas foi quando descobri a arte de Edward Hopper que notei o quanto certas coisas são complicadas para serem descritas com palavras e é preciso de outra forma para simplesmente demonstrar aquilo. Digo isso porque me senti absurdamente sintonizado com a obra dele e como é esse sentimento que quis passar quando escrevi sobre minha paixão por meios urbanos.
Drugstore - 1927

E o mais interessante de tudo, é que são quadros feitos na primeira metade do século passado, ou seja, é um mundo muito mais simples, sem neon, sem aquele toque cyberpunk, mas com a mesma essência, a simplicidade de coisas pequenas, a solidão em um ambiente imenso artificial, a natureza sendo engolida pela urbanização.

Eu olho os quadros de Hopper e são tão simples, não existe toda aquela coisa que artistas costumam colocar, algo grandioso, super lotado de elementos e tal. Aquela essência de elegância que quadros clássicos sempre passam. Ao invés disso parecem fotografias de coisas comuns, é tipo "Olha, um posto de gasolina, vou tirar uma foto".

Gas - 1940
Aliás, tenho a sensação de que esse é um artista que parece ter nascido na época errada, é como se ele não pertencesse a aquele lugar. Falo isso porque o cara parece demaiiis com alguém que nasceu pra participar de um ambiente com alta tecnologia. Sinto que ele precisava loucamente de uma câmera digital, mas não tinha nos anos 20.

Aliás, acabei não falando sobre o pintor em si né? Ele nasceu em 1882 em Nova Iorque e morreu com 84 anos em 1967 na mesma cidade. É bem notável que foi um verdadeiro filho da urbanização né? E em sua arte conseguiu transmitir bem demais essa essência tão concentrada de algo que tem a ver com solidão, urbanização e contraste com a natureza.
Blue Night - 1914

Em praticamente todos os quadros dele, as pessoas estão sozinhas, e mesmo as que estão com outras pessoas, se você observar, na maioria das obras é normal elas não estarem interagindo. Passa muito aquela sensação de estar em um grande grupo, mas você não conhecer ninguém ali e no fim estar sozinho de qualquer forma, assim como todos os outros.

Outro elemento frequente são as janelas, elas aparecem direto, e com destaque. São janelas grandes e que mostram bem o ambiente lá fora. As vezes mostrando a vida privada das pessoas, em muitos momentos com nudez, e lá fora uma paisagem urbana ou uma imensa natureza. Tem inclusive quadros em que as janelas nem ao menos precisariam estar lá, mas estão, mostrando o contrário, a visão de quem olha de fora.
Morning Sun - 1952

O impacto entre a natureza e urbanização é outra coisa muito constante, tem quadros que mostram uma pequena área natural e muitas construções, já outros mostram uma natureza distante e apenas uma pequena construção em outro ponto. Em um dos quadros ele apresenta uma casa antiga e na frente dela uma rodovia que cobre até a porta, como se falasse "Aqui já existiu uma bela vista para um campo".

Essa mesma separação é usada em alguns de seus quadros que colocam um único ponto luminoso e escuridão ao redor, como o fenomenal Nighthawks, seu quadro mais famoso, que tem uma simples lanchonete dos anos 40 com poucas pessoas e ao redor uma cidade vazia e escura. Ou em Summer Evening, onde há uma varanda com dois jovens e ao redor uma área escura com mato.
Summer Evening - 1947

Coisinhas pequenas do cotidiano estão pra todo lado nos quadros dele, um homem varrendo a rua, uma mulher sentada na cama, dois artistas em um palco e assim vai. São coisas que no geral envolvem cidades, mas também tem arte envolvendo a natureza, porém é frequente ter elementos urbanos ali.

Algo curioso é que Hopper no fim das contas pode ter sido uma das maiores inspirações para futuros distópicos que não mostram apenas coisas exageradas e perfeitinhas. Um bom exemplo é Blade Runner, que uma das maiores inspirações para a estética do filme foi exatamente o quadro Nighthawks. Aliás, é fácil ter a sensação de que Hopper estava mostrando a essência de algo cyberpunk só que isso ainda não existia, quero dizer, olha a pintura Blue Night com esse palhaço fumando em um lugar de baita contraste, ou a farmácia iluminada em Drugstore, localizada em uma rua escura dando ainda pra ver um pequeno painel luminoso em cima, isso é muito sei lá... Atmosférico.
Pennsylvania coal town - 1947

Então essa essência de coisas comuns em um meio urbano é extremamente inspirador. E usar elementos antigos com o novo cria futuros charmosos e muito mais realistas do que aqueles onde tudo é extremamente avançado. Convenhamos né? Tem muita coisa que usamos que não tem nem um pouco cara de tecnológico ou futurístico, um bom exemplo são tomadas. Nem tudo fica extremamente avançado ou o é branco e perfeito, as coisas ficam velhas e desgastadas além de as vezes simplesmente terem cara de antigas mesmo.

Enfim, tá aí um artista fenomenal que olho os quadros dele e simplesmente nem sei o que fazer, é só notável que transmite algo muito próprio e gera uma sensação bem complicada de se descrever exatamente o que é. Fiquem agora com dois vídeos muito bacanas que vão te fazer entender melhor o cara:

50 fatos sobre Edward Hopper


Nighthawks (Ativem a legenda, esse vale a pena demais)


Fenomenal, não acham?

2 comentários:

Edu disse...

Em São Paulo tem uma lanchonete que tinha uma "paródia" do quadro "Nighthawk", onde se tinha uns patos dentro da lanchonete e um jacaré na calçada olhando para eles. Desde criança eu sempre gostei desse quadro, não por causa dos patos ou do jacaré. Mas ver essa lanchonete a noite com essa luz me traz uma calmaria, uma sensação de conforto. Eu não conhecia a versão original do quadro, obrigado por apresentar essa maravilha

Edu disse...

PS: Esse é o quadro na qual me referia: https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcR3wWTcouS--O-_WbjGnylTeq_xTJWaQdnvzHjryWE0pno4bcZa4ulrCApGRA