V/H/S/99 | O horror do final do milênio passado

Quando fiquei sabendo do maravilhoso V/H/S/94, foi empolgante demais e o resultado final me encantou a ponto de o colocar diretamente ao lado do primeiro V/H/S. E a recepção grandiosa fez valer o investimento da rede de streaming Shudder em trazer a franquia de volta. E assim anunciaram V/H/S/99, que eu não preciso nem falar que a temática de final do milênio me fez imediatamente viajar nas possibilidades. E vamos ver o que achei...

A história principal dessa vez é bem diferente do que vimos anteriormente nos filmes da saga. Isso porque sempre apresentaram uma trama que ir se revelando aos poucos na medida em que os outros curtas-metragens iam passando. Mas aqui temos a filmagem em stop motion de um garoto brincando com soldadinhos, só que a gravação tá sendo feita por cima de outras gravações bem bizarras.
Quando eu penso no final do milênio, eu penso na paranoia que tinha naquele tempo. O medo do final do mundo, as religiões estranhas surgindo, o pavor das pessoas com o bug do milênio (Y2K), o caos que estava se estabelecendo como o Massacre de Columbine ou a paranoia com produtos da nova era, como o surto que o cardgame illuminati causou ou o desespero dos pais com suas crianças, levando a atitudes bizarras como a grande queima de pokémon.

Ou seja... Meus amigos... Imaginem o que é que não imaginei assim que bati os olhos na data desse filme? Que curiosamente adotou um padrão bem interessante à partir de VHS 94, colocando um número na frente. Não sei vocês, mas acho que ficou bem elegante, fica até meio paia agora olhar pra V/H/S/2, que parece ser o único título sem uma personalidade.
Bom, indo direto ao ponto, esse filme foi uma verdadeira decepção. Vocês não fazem ideia do quanto a minha expectativa era alta, mas eu tenho certeza que não foi apenas isso que fez eu achar ele se tornar o pior da franquia. Ao meu ver, ele conseguiu superar V/H/S Viral, que o maior problema foi a história principal que resolveu querer exagerar demais, já esse aqui o problema são os próprios curtas, a maioria das cinco histórias com potencial incrível e execução extremamente sem graça.
 
Infelizmente os caras tinham um material cabuloso para aproveitar e que só daria certo mesmo com um tiro. A virada do milênio na real era do ano 2000 para 2001, mas acontece que o impacto visual de 2000 era forte demais. Para as pessoas aquela era a virada do milênio e o planeta inteiro tinha vivido até então nos 19XX, então aparecer um 2000 de repente, era algo que causava impacto e gerava uma simbologia enorme. Para muita gente mesmo, aquilo tinha que significar alguma coisa. Algo grande iria acontecer!
Então foi uma tristeza ver a falta de cuidado, que inclusive parece muito que só pegaram algumas ideias descartadas de filmes anteriores e resolveram filmar e falar que aquilo aconteceu em 1999, porque a própria sensação atmosférica absurda que VHS 94 trouxe, simplesmente não tem aqui. Pra vocês terem uma ideia, já no começo do filme, meu amigo e eu ficamos confuso, perguntando "Aí já é 99? Ou é uma introdução e depois que vai?", porque simplesmente não parecia.

A primeira história é Shredding (Trituração), que é de longe a pior de todas! O conceito é de uma banda feminina de punk rock chamada Bitch Cat, que após um problema elétrico no local onde tocavam, com todas as integrantes morrendo pisoteadas pelo próprio público, que saiu em pânico e o lugar pegou fogo. E assim, anos depois uma banda jovem chamada R.A.C.K. (Referência ao nome dos membros Rachel, Ankur, Chris and Kaleb) decide ir ao lugar gravar pra colocar na internet.
Esse é realmente o menos criativo de todos, a história é simples do jeito que parece ser. E como falei, não parece ser 1999. Beleza, até era possível uma banda que colocava vídeos na internet deles fazendo pegadinhas, mas tudo simplesmente não parece causar atmosfera. Parece um monte de youtubers de 2022 com filtro de VHS bem vagabundo.
 
A ideia da bandinha de jovens até que é um bom ponto de início e se encaixa bem com a época, podendo ter uma ótima história. Mas o que temos aqui é só uma história de monstrão mesmo, sem clímax, sem grande revelação, sem nada. É como se uma turma da escola decidisse criar seu próprio curta de terror nos anos 90, mas ninguém fosse criativo e o resultado é um tédio danado.
Já em Suicide Bid (Tentativa de Suicídio), a história é sobre uma garota chamada Lily, que é convidada para entrar para uma irmandade de meninas da universidade, a Beta Sigma Eta. No entanto elas têm um ritual de iniciação bem bizarro, recriando o ato feito por uma caloura chamada Giltine, 20 anos antes. A iniciação é basicamente ficar horas enterrada dentro de um caixão, mas dizem que é possível ver o fantasma da antiga caloura.

Nesse aqui, até existe clímax. Tem aquele momentinho que te chama a atenção e faz querer saber o que vai vir depois. No entanto, infelizmente parece que a história só foi abandonada mesmo. Na hora que isso acontece, colocam o final mais previsível possível, se tornando novamente só mais uma história de monstrão que vai pegar você. Parece que o diretor só disse "Ai gente, cansei!" e pediu pra geral falar alguma coisa rapidinho e terminou.

No terceiro, Ozzy's Dungeon (A Masmorra de Ozzy), temos algo que o final é fabuloso e digno de uma história de VHS. É misterioso pra caramba e te faz ficar pensando sobre o que era aquilo que aconteceu. Provavelmente é a história que foi mais cara, já que precisaram montar cenários personalizados, mas o que ele peca é no quanto é arrastado.

Aqui é apresentado um programa de TV infantil chamado Ozzy's Dungeon, que mostrava várias atividades onde crianças precisavam competir entre si para ganhar um prêmio. No entanto em um episódio onde a jovem Donna participava, o rival dela quebrou sua perna e o apresentador não parou de filmar pra dar auxílio. Isso fez com que a menina passasse a depender de uma cadeira de rodas e o programa foi cancelado.
A história é sobre a vingança da família de Donna, que sequestra Ozzy para obrigá-lo a refazer as provas, porém de um jeito bem brutal. E até aí tudo ok, o problema desse é o quanto é arrastado. Por exemplo a parte do programa de TV é bacana terem feito, mas seria mais agradável irem direto ao ponto nas partes importantes.
 
Mas o que temos aqui são quase 10 minutos mostrando a coisa toda, incluindo entrevistas com crianças, explicações sobre de onde é cada uma, etc... Talvez alguém goste e ache atmosférico terem mostrado a coisa toda, mas eu achei bem chato. E a parte da vingança é quase tão arrastada quanto, só não é tão ruim porque ao menos a família é sádica, diferente da parte do programa que é só um monte de gente animada e crianças inocentes falando. Metade do tempo ajudaria muito ao curta ficar melhor.
Uma coisa curiosa sobre esse curta, é que conta com a presença de Steven Ogg, que se popularizou demais na cultura pop depois que fez o papel de Trevor em GTA 5, mas que está em vários programas de TV, tendo sido um vilão notável em The Walking Dead, e um dos coadjuvantes que mais se destacaram em Westworld.

O quarto curta, The Gawkers (Os bisbilhoteiros), é sem sombra de dúvidas o meu favorito! O único que realmente acho que passa um pouco da sensação real de 1999 e que notavelmente tenta criar uma atmosfera. No caso, usando a tecnologia da época para brincar com os amigos, pois sempre era uma festa quando um amigo aparecia com um "brinquedinho novo".
E no caso, temos um grupo de adolescentes com uma câmera de um garoto chamado Dylan, e assim passam a filmar coisas aleatórias, mas também rir das situações, até que veem uma vizinha nova que eles acham extremamente gostosona. O resultado é filmarem ela o tempo todo, até descobrirem que Brady , o irmão mais velho de Dylan, conhece a vizinha e a ajuda com seu novo PC. Os garotos então convencem o caçula a instalar um spyware no PC dela que liga sua webcam sem saber e logo descobrem algo tenebroso.

Essa história no geral é realmente bacana em recriar algo mais realista da época, só é um pouco mal executada em alguns aspectos. Por exemplo, ao invés de apresentarem uma looooooooonga parte dos moleques filmando coisas aleatórias até finalmente instalarem o spyware e correrem para terminar rapidão depois disso, seria muito mais legal se instalassem no começo e fossem variando entre mostrar a vizinha na webcam e o dia a dia deles, iria ser mais legal ir vendo as coisas acontecerem ao invés de uma enrolação monstra pra acontecer tudo de uma vez.
Porém estaria ok se o problema fosse só esse mesmo. Mas o maior problema é como os criadores decidiram esfregar na cara da pessoa a explicação. Lembra do primeiro curta do primeiro VHS que tem aquela garota e que geral acha que é uma vampira, mas que no fim das contas ficou aquele "Será que é mesmo?" já que o visual era muito bizarro e o mistério dela ser tão estranha. Aquele gostinho de algo sinistro exatamente por você não ter uma clareza do que exatamente é. Bom... Aqui não tem nada disso!

O diretor não se contentou em apenas dar dicas para o público descobrir do que se trata, ele teve que fazer o monstrão ir lá pessoalmente pegar a câmera. Sério... Só faltou a imagem parar e aparecer o diretor na frente da câmera dizendo: "Olá pessoal, eu sou Tyler MacIntyre e estou aqui para explicar detalhadamente o que vocês acabaram de ver! Eu sei.. Já estava claro o suficiente, mas quero garantir que não reste dúvida a alguma, ok?".
Enquanto o final extremamente misterioso de Ozzy's Dungeon faz algo belo em te deixar intrigado, que é exatamente a essência de VHS, nesse aqui é bem o contrário. Isso sem contar que a apresentação final da criatura só mostrou o CGI da coisa, deixando bem falso, coisa que poderiam evitar apenas não mostrando com todos os detalhes o que já era óbvio.

Apesar de tudo, esse curta ficou mais pra mais do que pra menos, sendo assim, gostei dele e o colocaria como uma das histórias mais bacanas da franquia, apenas muito mal executada. Mas a o climinha de fim dos anos 90 ficou bem forte aqui, me senti em casa lembrando de meu próprio grupo de amigos da época. Curiosamente Brady é o garoto que faz o stop motion que é a "história principal" do filme.

Por fim temos To Hell And Back (O inferno e o retorno), que acredito que seja o mais ousado em fazer algo diferente que normalmente requer um orçamento muito maior. Além disso é também um dos curtas que tenta colocar algo relacionado a 1999, que é o crescimento de cultos e seitas que teve naquele ano.
 
Infelizmente na prática a coisa acabou sendo mais um curta que usa apenas o começo para fazer parecer que vão fazer algo relacionado, mas no fim das contas não seguem nem um pouco uma atmosfera que mantenha a sensação de virada do milênio. O foco da história vai para literalmente um outro lugar e por lá se mantém sem explorar a temática de finalização de milênio.
No caso, a história é sobre um grupo de cultistas que vão fazer um ritual na virada do ano. E assim contratam Nate e Troy, que são dois especialistas em filmagens. No ritual, uma mulher chamada Kirsten é colocada em uma mesa para ser usada como receptáculo  para um demônio conhecido como Ukabon, porém um demônio chamado Ferkus surge durante o ritual e os cultistas o banem para o inferno. No entanto, antes de ir, o espírito segura os dois câmeras e todos os três são enviados.
 
Como podem ver, o conceito é super interessante, e a ideia de recriar o inferno é caríssima só de imaginar. Fica fácil se tornar um filme trash absurdo. E imagino que muita gente não vai gostar do que vai ver, mas sinceramente, eu acho que nesse quesito os caras fizeram algo muito bom, levando em consideração o baixo orçamento.
A escolha foi o que parece se uma caverna, cheio de rochas e estalagmites. Talvez seja cenário, mas acho que ficaria mais barato uma caverna que já vem pronta. Então lotaram de demônios usando efeitos práticos, que dá pra notar que é uma galera com fantasia, mas ainda assim creio que no geral ficou algo bom, que é temperado com alguns efeitos de pós produção para o clima ficar mais infernal, tipo adicionar relâmpagos no "céu" com um demônio gigante lá.
 
Mas infelizmente foi mais uma ideia boa e problemática, porque enquanto gostei de The Gawkers, mesmo com os problemas. Nesse aqui ficou complicado... Primeiro que acham um demônio que age e fala de forma idêntica ao Gollum. É interpretado por uma moça e parece que a produção só pediu pra ela imitar o Gollum e pronto, o que ficou ridículo.
Porém o que realmente faz virar uma DESGRAÇA é que decidiram que era uma boa ideia fazer a coisa ser uma situação engraçada... Com os personagens sendo no estilo bobalhões que se meteram em muita confusão! Dando gritos fininhos, falando "OHHH DUUUDE" a cada dois segundos, e até mesmo rindo e fazendo piadinhas. No inferno... E um deles usa até um chapéu engraçado o tempo todo. Pensa na bagaceira...

No fim, foi mais uma ideia que abandonou o lance de virada do milênio e foi contar uma história sobre outra coisa e ainda decidiu que era uma boa ideia tirar todo o peso macabro do universo de VHS para adicionar momentos cômicos e divertidos, com uma pintada de ação e aventura! É tipo um filme de Sessão da Tarde.
Enfim... V/H/S/99 é um filme que foi uma verdadeira decepção monstruosa pra mim! Eu queria mesmo ter amado esse filme... Consigo ver o potencial em cada uma das histórias, mas parece que cada uma teve problemas feios. Os filmes dessa franquia sempre tem uma história ou outra que não dá muito certo, mas esse aqui a coisa foi feia viu. 
 
Então se você gosta de filme de terror pra só passar o tempo, pode ser legal, mas agora se faz questão que o filme seja bom, passe longe. Agora vejam esse trailer mentiroso que usa a música "Larger Than Life" do álbum Millennium dos Backstreet Boys, lançado em 1999 e que dá a entender que eles tiveram algum comprometimento em usar a temática:

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