Beyond: Two Souls | Poderes psíquicos e clima de filme dos anos 80

Tá aí um jogo que eu só não quis jogar mais, porque a vontade era completamente concentrada em querer experimentar primeiro o jogo anterior da Quantic Dream, Heavy Rain, que após zerar, parti logo para Beyond: Two Souls, que segue o mesmo estilo, dando sequência à série de jogos narrativos da desenvolvedora, que se iniciaram em Fahrenheit: Indigo Prophecy.
 
Aqui você assume o controle de Jodie Holmes, uma garota que nasceu com um dom, pois está conectada a uma entidade invisível chamada Aiden. Ela pode conversar com ele e ver através de seus olhos, o mandando mover objetos ou observar locais nos arredores. No entanto Jodie é uma cobaia de uma instalação militar e a falta de controle total e compreensão de seus poderes fazem com que ao longo de sua vida, muita coisa errada aconteça.
Não preciso nem dizer que esse jogo é claramente um fruto de clássicos da ficção científica como Firestarter, né? Essa ideia de cobaia com poderes sendo estudada por laboratório já foi usada muitas vezes e diversas obras como Eli e Midnight Special beberam dessa fonte. Nos video games isso também já foi usado como o clássico Second Sight.

Sendo assim, não dá pra dizer que não é uma ideia clichê. Apesar de tudo, sempre digo que não é porque algo é clichê que é ruim. Basta saber conduzir da forma adequada e é por isso que temos ideias batidas que fizeram grande sucesso. Um exemplo é Invocação do Mal, que usou a história da casa mal assombrada em que uma família se mudou, ou mesmo American Horror Story, que foi mais além, colocando em seu próprio título a proposta do clichê. Ainda assim foi um estouro. Dessa maneira, não dá pra diminuir meramente pelo clichê, ainda mais com uma desenvolvedora que já se provou bem capaz de fazer uma narrativa interessante.
Nesse caso aqui, a história se passa em várias fases da história da personagem, infância, adolescência e vida adulta. E você pode escolher como ver a coisa, tendo a opção original a de serem capítulos bagunçados em que você vai ligando os fatos e montando, o que é bem interessante. Mas para quem não tem paciência ou já zerou e quer ver na ordem certa, a opção cronológica.

O formato original me agradou bastante, especialmente porque torna possível causar momentos intrigantes, já que o jogador simplesmente não têm ideia do que algumas coisas significam. E assim, só vai descobrindo com as coisa que acontecem depois. Especialmente em coisas relacionadas aos poderes da protagonista.
Eu sei que a história foi feita para ser um tipo de homenagem a obras de ficção científica dos anos 80, no entanto infelizmente acho que não foi tão bem conduzida. Embora tenham coincidências extremamente altas que parecem descaradamente terem sido copiadas por Stranger Things, a obra da Netflix parece ter usado a coisa de uma maneira muito mais elegante, colocando as partes simplórias de um jeito mais sólido.

Em "Beyond: Two Souls", as cenas com bullies por exemplo são absurdamente exageradas e do nada, parecem não se encaixar... É como se a pessoa só tivesse um surto de psicopata. Como o garotinho que tenta sufocar a protagonista com neve, ou o grupo de adolescentes que repentinamente se levanta, cercam ela e falam que tem que acabar com a bruxa. 
Os bullies mais realistas, são os adultos, que usaram aquela fórmula que vimos em Gantz, com assassinos de mendigos. Mas ainda assim, forçam tanto com os outros, que não passa despercebidos que escolheram os piores tipos de pessoas realistas para tacarem na versão adulta da personagem. Daí fica aquela forçação de que todo mundo é psicopata e quer machucar ela.

Outra coisa que eu simplesmente odiei, foi o amoreco forçado. Eu fiz de TUDO para que o romancezinho não acontecesse, mas o jogo implora pra você namorar o homenzarrão alto e bonitão, sarado, que não tem nada a ver com a protagonista e já conhece ela a xingando, mas do nada ela tá caindo de amores. E o jogo enrola, enrola, enrola, enrola, enrola, nessa forçação que chegou em um momento que eu disse JÁ CHEGA DESSE CARA! E todo capítulo lá ele de novo "Veja como eu sou gostoso, veja como eu sou o príncipe dos sonhos". Fala sério...
Inclusive, acho que a trama é infinitamente inferior ao de Heavy Rain e Fahrenheit. Eu não sei se a limitação de uma única personagem acabou complicando para os roteiristas da Quantic Dream. Talvez o fato de precisar se manter em algo meio anos 80 também tenha deixado a imaginação ficar um pouquinho menos solta.

Mas a história não é de toda ruim e tem as suas partes boas. Ela muitas vezes consegue pegar um desenvolvimento dramático fantástico e que funciona muito bem. A vida da personagem nas ruas é bastante intensa, assim como o seu desenvolvimento com os cientistas Nathan Dawkins e Cole Freeman, que é bem natural e fazem os personagens virarem importantes de verdade.
Os gráficos do jogo são maravilhosos! Eu não sei como eram em 2013 no PS4, mas a versão lançada para PC ficou realmente elegante e levinha, já que joguei em live e isso costuma pesar que é uma beleza. Os únicos momentos em que dava uma travadeira raramente, era quando a personagem entrava em uma área nova e por mais que a câmera não mostrasse, sei que era o cenário carregando na hora.

Mas a Quantic Dream acertou novamente em colocar muitos pequenos detalhes, a água da chuva descendo pelo vidro do carro, os reflexos maravilhosos, efeitos de luz, ambientes super robustos e cheios de objetos. Realmente você percebe muito bem que fizeram algo para ser cinematográfico e ser possível sentir muito bem que é um cenário de filme.
Os controles são medonhos! Enquanto os de Heavy Rain eram bugados, os desse eu achei simplesmente confusos. Ao invés de aparecer uma indicação do lado que você tem que mover o mouse, aparece um ponto ou não aparece nada e você tem que deduzir baseado na cena. Isso é até interessante e mais natural, porém se torna confuso em diversas partes.

Por exemplo vem um inimigo te dar um chute, você está no chão, ele está vindo da esquerda, mas também está vindo de cima. Se fosse óbvio que é pra esquerda que você tem que apontar, seria ok, mas às vezes é de cima. Em alguns momentos é simplesmente frustrante errar sem parar porque a coisa não foi intuitiva. Vi no fórum da steam que muita gente também sofreu na parte do treinamento da personagem.
Apesar disso, existe uma grande variedade de possibilidades na jogabilidade. Então às vezes você só está andando pelo cenário mexendo nos objetos, mas às vezes está em um ambiente de stealth tentando não ser visto. Além da mecânica de trocar de personagem e entrar no controle de Aiden para explorar o cenário, mover objetos, quebrar coisas e assim salvar a protagonista ou abrir caminhos.

Esse foi o primeiro jogo da Quantic Dream a contar com dublagem em português do Brasil. O anterior tinha dublagem de Portugal. O motivo do investimento foi o fato de que originalmente era um exclusivo da SONY e a japonesa tava começando a investir no mercado nacional. Com a ida para o PC, o jogo herdou essa dublagem.
Me agradou bastante, achei ela em uma boa qualidade. Mas realmente dublagem é aquele tipo de coisa que muita gente nunca vai gostar se não for em inglês. Então é realmente algo que vai depender demais de quem estiver conferindo a coisa. Eu não tenho problema nenhum se for um brasileiro que estiver dublando, então me agradou.

Outro detalhe que não pode passar despercebido, são os atores famosos chamados para atuar. Curiosamente na página da steam aparece Elliot Page como protagonista, mas a Quantic Dream não mudou nos créditos, onde aparece como Ellen Page. Além disso também temos a presença do Willem Dafoe, o Duende Verde da primeira trilogia do Homem-Aranha.
Não cheguei a testar, mas achei curioso o fato de que o jogo oferece a opção de multiplayer! Nela um dos jogadores assume o papel do Aiden (o fantasma que acompanha a personagem), enquanto o outro fica no controle de Jodie. Como no jogo você troca de personagem pra fazer as coisas, imagino que pode gerar um certo grau de discórdia.

Enfim, eu achei os outros dois jogos da Quantic Dream melhores que esse aqui, mas como jogo em si, ele é bem legal para quem gosta de uma história. Tem seus problemas de roteiro com coisas forçadíssimas, mas também tem seus pontos fortes e é capaz de divertir. Recomendo sempre dar uma olhadinha no preço dele na Greenman Gaming antes de comprar na loja direta, algumas vezes os preços deles estão bem abaixo do normal, e sempre lembre de olhar os cupons de desconto que eles espalham pelo site, que deixa a coisa mais barata ainda, dê uma conferida aqui.


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