Dark Souls 2: Scholar of the First Sin | Desprezado e ainda assim maravilhoso

Não é incomum em franquias em geral aparecerem certas obras que acabam sendo absurdamente odiadas e pegam muito mal. Algumas ficam com esse karma eterno, outras não. E, embora eu ache que Dark Souls 2 seja um jogo que ficou com esse karma, creio que é uma obra maravilhosa que precisa ser compreendida ao invés de apenas julgada, fazendo um ótimo adicional à franquia, especialmente depois do Scholar of the First Sin, que é a versão que irei usar nesse texto.

Uma coisa que percebi é, assim que você começa a se interessar por Dark Souls e publica isso na internet, muito provavelmente vai aparecer um fã imediatamente com um texto do tipo: "Maravilhoso! Amo, adoro! Jogue o primeiro, esqueça o segundo, vá pro terceiro!". E sempre fiquei pensando sobre o segundo ser horroroso demais. Já tivemos muitas obras que foram assim em tudo quanto é tipo de mídia né?

Homem Aranha 3, por exemplo é um filme muito mal falado, embora o primeiro e segundo sejam amados. E temos isso em séries, filmes, animes, o que for... É só ver a segunda animação de Berserk e a fúria dos fãs em cima. Obviamente é preciso de uma base para certas obras serem extremamente mal faladas.

No entanto, às vezes essas obras apenas são mal compreendidas ou não recebem uma segunda chance eternamente porque já erraram de primeira. Vejamos Silent Hill 2, que em seu lançamento teve gente que desce o cacete por ser completamente diferente, novos personagens, nova história. Cadê o James? Cadê o deus antigo? O que tem a ver com Silent Hill?

Mas o tempo passou, novos Silent Hill vieram e cada um mostrando sua própria história. Isso se revelou ser o padrão da franquia, e isso fez a beleza do segundo jogo se desabrochar tanto que grande parte dos fãs o consideram o melhor da franquia. O mesmo vemos em American Horror Story Freakshow, uma temporada que foi a primeira a focar pouco no sobrenatural e por isso incompreendida, já que todas as outras tinham foco forte, mas depois a série mostrou que isso não era obrigatório e amenizou a coisa pra essa temporada.

E também tivemos o Silent Hill 4, que é um jogo que não foi feito inicialmente pra ser um Silent Hill, mas que acabou mudando de nome. Porém os fãs sentiram, até porque o apartamento do protagonista nem em Silent Hill é. No fim desceram o cacete loucamente, mas ignoraram a mecânica e narrativa tão boa, mas o passar dos anos e vendo os rumos da franquia acabou fazendo com que vissem que não era "tão ruim assim".

Temos ainda as obras que começam uma desgraça, mas que com o passar do tempo se consertam. Nem todos os tipos de mídia podem se dar esse luxo, mas felizmente o mundo dos jogos sim. No man's sky é um exemplo de jogo que foi lançado só o bagaço e que tem uma má fama cabulosa, mas se você for olhar a base de fãs, verá pessoas apaixonadas e fieis à desenvolvedora, que continuou lançando atualizações até tornar o jogo algo semelhante ao prometido (as opiniões variam, alguns dizem que ficou melhor, outros dizem que ficou bom o bastante).

A minha história com Dark Souls 2 foi um pouco bagunçada. Meu primeiro contato com a franquia foi com ele. No entanto eu desisti de jogar, não por ser ruim, mas porque gostei tanto que percebi que precisava mesmo jogar o primeiro antes. A verdade é que não precisava... Descobri isso muito tempo depois, ao ver que era algo meio Silent Hill, obras no mesmo mundo, mas em lugares diferentes, com personagens diferentes e uma história completamente diferente. Ou seja, parei à toa.

Mas sempre tive uma mente aberta às coisas e não sou do tipo que lê uma pessoa na internet dizendo "Tal coisa é ruim" e não assisto/jogo/leio... São poucos os amigos que tenho que levo em consideração a opinião desse jeito. Sendo assim, quando decidi jogar Dark Souls Prepare to Die Edition e fui vendo pessoas dizendo "Não jogue o 2, NÃO JOGUE O 2 CARA!", não liguei, pois eu definitivamente iria jogar.

Quando finalmente fui para o segundo, pude ficar em mais contato com o ódio. Pessoas descendo o cacete, muita gente não jogou, muitos jogaram só o começo, muitos zeraram e não gostaram. Um ódio imenso. Algumas pessoas extremamente dramáticas, dizendo que não conseguiram jogar nem cinco minutos de tão ruim que era, o que acho uma baita de uma injustiça já que não é o tipo de jogo que você julga em poucas horas, imagina em minutos?

Porém, acabei descobrindo também algo inusitado, pessoas dizendo "É o melhor da franquia!" e "É o meu favorito". Isso sim era bem bizarro, pois por mais que eu já esperasse que fosse achar pessoas que gostassem do jogo, ver ele como o favorito parecia um baita de um exagero. Não julgando que ele não mereça, mas sim pelo fato de que em meio a tanto ódio, ver o oposto era completamente inesperado.

E nesse ponto eu percebi algo. A maioria das pessoas que amou Dark Souls 2 como  o melhor da franquia, é porque jogou ele primeiro. Então teve toda aquela experiência da coisa por ali e quando chegou no original, acabou não parecendo tão impressionante assim e o primeiro é que ficou com a cara de "ser mais do mesmo".

Mas antes de tudo, vamos voltar um pouco, vamos falar da produção. Tá aí algo que também parece ser cheio de "papo de internet" e informações imprecisas. Antes de jogar e também enquanto jogava, as pessoas falavam o seguinte "O primeiro é uma obra prima porque foi feito pelo Hidetaka Miyazaki, o segundo é uma bosta porque foi feito por outra equipe e só as DLC's que são boas porque foi o Miyazaki que fez". E eu pensei que era exatamente isso, mas ao pesquisar, vi que a coisa é um pouco mais complicada e nem tudo foi tão explícito assim, sendo que boa parte das coisas foram especulações, mas sem uma certeza.

Pelas minhas pesquisas, o que as coisas indicam é que o Miyazaki estava fazendo Bloodborne na época do desenvolvimento de Dark Souls 2. Algumas pessoas dizem que a Bandai obrigou a FromSoftware a criar um novo jogo e por isso teve que se virar, mas o estúdio estava a serviço da Sony naquele momento e o resultado disso foi a criação de algo que chamam de B-Team, uma equipe formada exclusivamente pra criar Dark Souls 2.

Essas pessoas foram profissionais antes envolvidos de alguma forma com criações da From Software no passado (sendo ou não Dark Souls), e assim tinham uma certa familiaridade com a empresa, no entanto não tinham sido os criadores originais e não tinham a presença da mente criativa por trás da coisa.

Por outro lado, eles não estavam completamente abandonados no escuro, já que Miyazaki trabalhou como supervisor da coisa. Sendo assim ele dava uns retoques, dicas, via coisas que davam ou não certo. Ou seja, aparecia pra dar uma olhadinha em como é que tava e fazer explicações. Já quem tava criando se baseava mesmo no que tinham visto no primeiro.

O resultado foi algo que, na minha opinião, não parece Dark Souls 2, mas sim uma expansão do primeiro jogo, já que é um visual super parecido com alguns aperfeiçoamentos, pequenos elementos novos na mecânica, ambientes e personagens novos. Mas a sensação é que poderia ter sido feito como expansão gigantesca.

Porém as maiores críticas em cima não eram sobre o visual, mas sim a sensação de ser mais do mesmo e ter alguns aspectos inferiores. Por exemplo os chefes que simplesmente não conseguem marcar como no primeiro. Em Dark Souls 1 temos cada criatura exótica que enfrentamos, enquanto em Dark Souls 2, a maioria dos chefes é bastante esquecível.

Em geral parece que os criadores não tiveram saco pra pensar em algo muito bem bolado e marcante, daí boa parte dos chefes são caras de armaduras que poderiam ser só inimigos normais mesmo, o que é bastante decepcionante após se jogar o primeiro. Além disso tem algo que torna a coisa ainda mais feia, que é reciclar inimigos do primeiro jogo, o que acaba passando ainda mais a sensação de expansão ou mod pra Dark Souls 1, já que é bem esculhambado pegar um chefe do 1, mudar o nome dele e transformar em chefe do 2 né?

Daí temos a história, que muda e, embora seja no mesmo universo, apresenta uma trama toda própria, não sendo uma continuação do primeiro, como se é padrão, mas sim algo ligado, porém em seu próprio ambiente. Isso é algo que incomodou muita gente, especialmente porque tem aqueles que consideram uma descaracterização da coisa.

O novo design do mapa, que frustrou muita gente porque abandonou aquele estilo maravilhoso em que você se surpreende ao voltar para o começo através de atalhos exatamente quando você pensa que estava extremamente longe. Em DS2 a coisa é em geral em linha reta e é acusado de design preguiçoso, como o elevador de um moinho que sobe e você para em um castelo das trevas lotado de magma no chão.

Há ainda uma série de elementos, como por exemplo a facilidade em se teletransportar desde o começo entre todas as bonfires, a nova mecânica com múltiplos inimigos, o sistema de cura com joias pra compensar a coisa, o downgrade que ele recebeu e uma penca de problemas técnicos que precisaram de patchs.

Sim, é só a bagaceira! No entanto quando se tem um pouco de calma pra analisar o que é Dark Souls 2, é possível ver um verdadeiro jogo maravilhoso, que o real grande problema é ser Dark Souls 2, e acabar sendo ocultado pelo brilho do anterior. É um daqueles casos em que o jogo é sim muito bom, o problema foi a expectativa que o anterior fez ele gerar.

Dark Souls 2: Scholar of the First Sin foi a segunda versão do jogo, e não é apenas como se fosse uma edição Game of the Year, ela é uma versão modificada. Objetos em locais diferentes, reelaboração dos inimigos, gráficos aperfeiçoados, bugs arrumados, reclamações da comunidade ouvidas, as DLC's inclusas. Até mesmo textos foram modificados em itens e a história recebeu mais detalhes.

Infelizmente, a versão original dele foi tão xingada, que muita gente não tá nem aí e simplesmente não tem a mínima vontade de dar uma conferida, o que é uma pena. O próprio Dark Souls 2 original recebeu tantas atualizações, que por mais que você veja o povo descendo o pau em todo lugar, ao olhar na steam, as notas são muito positivas. Então quem se dedicou, sentiu o quanto é gostoso o negócio.

Então imagina a edição SOTFS? Acaba sendo realmente a versão definitiva atraente para diversos públicos, tanto quem jogou o original e quer uma experiência diferente, quanto para quem não jogou e assim já vai ter a oportunidade de pegar a edição definitiva da coisa. Não é como Dark Souls Remastered, que a diferença foi em polir a coisa. É uma experiência diferente.

Apesar das críticas à história, continua sendo algo encantador e para uma obra de Dark Fantasy, a coisa é super misteriosa e intrigante. Você também tem que ler itens e prestar atenção nas falas de NPC's para conseguir entender o que aconteceu com aquele mundo em ruínas e existe uma saga épica sombria por trás dessa terra e há ligações com a primeira história também.

Apesar de ser belíssimo o design de níveis do primeiro jogo e nesse a coisa ser com caminhos que você segue até chegar ao fim. Existe uma beleza aqui também. Majula é o vilarejo principal onde estão os NPC's e é o centro de tudo onde você sempre volta. E vi que tem pessoas que gostam dessa ideia, pois dá uma variada.

Em Dark Souls 3 nós vemos ambientes novamente se conectando após você dar uma bela volta por outros cenários, no entanto o fato de DS 2 optar por um lugar ser o centro onde caminhos se cruzam, acaba dando uma variada. Torna ele especial por fazer algo novo e oferecer uma experiência nova, ao invés de ser só a mesma. Sim, é mágico o lance do primeiro jogo, mas não é porque é diferente que seja de fato horroroso né?

Sinceramente, achei bem gostosa a sensação de viagem por outras terras que isso causa e acho que combina perfeitamente com a atmosfera Sword and Sorcery que Dark Souls carrega. O que eu realmente não gostei, foi o lance de você poder viajar por todas as bonfires desde o início. No primeiro você destravava isso só lá na frente e quando fazia era para algumas bonfires principais. A ideia de vagar por uma terra sombria combinaria muito e esses teletransportes fáceis quebram o clima Sword and Sorcery que citei.

Os chefes humanoides de fato são uma tristeza em muitos casos, mas é preciso lembrar que também tem os que se destacam, aquele feito de espelhos, o perseguidor e como ele chega com um pássaro gigante o trazendo, e também tem os que não são humanoides, a aranha gigante com um enorme dragão preso em sua teia, a montanha de corpos que usa braços humanos como se fossem pequenas pernas e o gigantesco dragão que é um chefe alternativo.

O mesmo quanto ao ambiente, acho sacanagem dizer que é tudo lixo, especialmente porque acho que segue bem o estilo do primeiro. Só não é algo novo, mas desprezar tão rapidamente por já ter aparecido acaba também desmerecendo o primeiro jogo, até porque há pontos surreais em Dark Souls 2 também. A visão de centenas de dragões voando enquanto se está no topo de uma montanha e no horizonte um castelo gigante que o diga.


Uma série de pequenos elementos interessantes também foram introduzidos, como as portas de pharros, que você só abre se tiver uma pedra, mas existe uma quantidade limitada e você não sabe que portas tem coisas boas ou só armadilhas e as lembranças, que você tem uma quantidade limitada de tempo pra ficar nelas e pode reviver coisas do passado do reino.

Uma coisa que vi  falarem é que as DLC's foram feitos pelo Hidetaka Miyazaki e por isso apresentam coisas muito mais robustas, como chefes mais marcantes e ambientes bem mais "concentrados" de elementos. No entanto ao pesquisar, não achei nada que comprove que o B-Team não foram os responsáveis pela criação e que o A-Team assumiu.


Achei foi treta de gente dizendo que as pessoas são tão preconceituosas com Dark Souls 2 que não conseguem aceitar que o B-Team lançou, observou o que as pessoas gostavam e aprendeu, aplicando nas três DLC's do jogo, que são realmente bem fantásticas, com atmosferas bastante peculiares e lutas mais épicas.

Enfim, apesar de não ser um jogo genial, acho que é uma bela de uma obra que vale a pena se dar uma chance de verdade e que o que ela precisa mesmo é ser compreendida. Se Dark Souls 1 não existisse, acho que as pessoas ficariam maravilhadas e não teriam esse nojo tão grande. Com calma e apenas querendo aproveitar uma experiência de fantasia sombria, a coisa pode realmente ser marcante.

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