Jogos com elementos gigantes
Uma coisa curiosa nos videogames é que existem muitos jogos gigantes, mas poucos realmente conseguem fazer o jogador se sentir pequeno. Ter um mapa enorme, dezenas de horas de conteúdo ou gráficos realistas não garante essa sensação. Ela costuma aparecer quando existe uma diferença absurda de escala entre você e aquilo que está explorando. É o tipo de momento em que você para por alguns segundos apenas para olhar ao redor e pensar no tamanho daquele lugar.
Shadow of the Colossus continua sendo um dos maiores exemplos disso justamente porque toda sua proposta gira em torno da grandiosidade. Escalar um colosso não parece apenas uma mecânica de gameplay. É quase como subir em uma montanha viva. Cada movimento faz o jogador perceber o quanto aquele gigante é enorme, e quando finalmente chega ao ponto mais alto, basta olhar para baixo para entender a distância que percorreu.
O curioso é que, mesmo depois de tantos anos, poucos jogos tentaram seguir esse caminho. Praey for the Gods talvez seja um dos casos mais conhecidos, já que sua inspiração em Shadow of the Colossus é bastante evidente. As batalhas também envolvem criaturas gigantescas que precisam ser escaladas, transformando cada confronto em um enorme quebra-cabeça vertical.
Dragon's Dogma também transmite uma sensação parecida, mesmo sendo um RPG de ação. Em vez de apenas atacar monstros enormes pelos pés, o jogador pode subir em ciclopes, quimeras, grifos e outras criaturas para alcançar pontos fracos. A diferença de tamanho entre o personagem e os inimigos faz cada batalha parecer muito mais épica do que um combate comum.
Na série Monster Hunter acontece algo semelhante. Rathalos, Lagiacrus, Gore Magala, Zinogre, Fatalis e diversos outros monstros dominam completamente o cenário quando aparecem. O foco não é apenas derrotá-los, mas entender seus movimentos e sobreviver diante de criaturas que parecem fazer parte daquele ecossistema muito antes da chegada do caçador.
Mesmo jogos que não envolvem monstros conseguem provocar esse sentimento. The Legend of Zelda: Breath of the Wild e Tears of the Kingdom fazem isso através da exploração. Escalar uma montanha durante vários minutos e finalmente alcançar o topo para enxergar Hyrule inteira cria uma recompensa difícil de explicar. Elden Ring segue uma ideia parecida, revelando castelos enormes, árvores gigantescas, cidades subterrâneas como Nokron e chefes colossais que fazem o jogador parecer insignificante diante daquele mundo.
Alguns jogos preferem trocar a altura pela profundidade. Subnautica é um excelente exemplo. Conforme o jogador mergulha cada vez mais fundo, a luz desaparece, o ambiente fica silencioso e criaturas como os Leviathans mostram que aquele oceano não pertence aos seres humanos. É uma sensação de pequenez diferente, mas igualmente marcante.
Existem ainda jogos que impressionam pela arquitetura. ICO e The Last Guardian, ambos ligados ao trabalho de Fumito Ueda, colocam o jogador em castelos, torres e ruínas gigantescas, construídas em uma escala que parece destinada a criaturas muito maiores do que pessoas. Bleak Faith: Forsaken também chama atenção por seus cenários monumentais, onde prédios, pontes e estruturas parecem desafiar qualquer lógica.
Nem sempre são os gráficos que criam essa sensação. Death's Gambit, por exemplo, utiliza um visual em 2D, mas coloca o jogador diante de chefes enormes que ocupam praticamente toda a tela. Jotun segue uma proposta parecida ao apresentar gigantes inspirados na mitologia nórdica. Titan Souls também aposta em confrontos contra criaturas muito maiores do que o protagonista, provando que a sensação de escala pode existir mesmo sem gráficos realistas.
Até jogos aparentemente tranquilos conseguem surpreender. Grow Up amplia bastante a ideia de exploração vertical ao permitir alcançar alturas enormes enquanto o planeta vai ficando cada vez menor abaixo do jogador. Valheim cria uma sensação parecida ao mostrar a gigantesca Yggdrasil cruzando o céu, enquanto Sable utiliza ruínas, destroços e monumentos para fazer o personagem parecer apenas um pequeno viajante em um mundo antigo.
Outer Wilds segue um caminho completamente diferente. Em vez de apostar em monstros ou montanhas, ele utiliza a própria escala do espaço. Viajar entre planetas, observar estrelas, buracos negros e fenômenos cósmicos desperta uma sensação constante de que o universo continua existindo independentemente da presença do jogador. É um tipo de grandiosidade muito mais contemplativa.
Talvez seja justamente por isso que tantos jogadores continuem lembrando de experiências como Shadow of the Colossus anos depois de terminá-las. Não é apenas uma questão de nostalgia. É porque esse sentimento ainda é raro. Existem incontáveis jogos de mundo aberto, centenas de aventuras de ação e milhares de indies criativos, mas poucos conseguem fazer o jogador simplesmente parar, olhar para cima ou para baixo e sentir que está diante de algo verdadeiramente gigantesco. Quando um jogo consegue despertar essa emoção, ele acaba ocupando um espaço especial na memória de quem jogou.






