Blade Runner - Um filme ousado demais para 1982

Hora de finalmente falar sobre o clássico Blade Runner: O Caçador de Androides, um filme que não é pra qualquer um e que certamente é fácil se achar um saco e se decepcionar. Isso porque a pessoa pode até gostar do que ele passa, mas o grande problema é que ele aparenta ser o que não é (um filme de ação cheio de explosões em meio a efeitos especiais), e assim mesmo que seja do agrado uma pessoa, talvez ela ache desagradável porque foi assistir na expectativa de ver outra coisa.


A história se passa no futurístico ano de 2019, o mundo inteiro se tornou uma imensa paisagem urbana e super populosa, fazendo com que a humanidade tivesse que sair da terra para explorar outros mundos. Também foi criada uma tecnologia de inteligência artificial biológica chamada de replicante, que é idêntico a um humano, porém feita exclusivamente pera serviços variados, desde braçais até sexuais.

O problema começou com o modelo Nexus-6 de replicantes, que é o mais avançado e com o passar do tempo, passou a desenvolver emoções, o que gerou problemas. Criaram então uma força especial da polícia chamada de "Blade Runners", com o objetivo de "aposentar" todos esses modelos, tendo que localizar e destruir. Replicantes se tornaram proibidos na terra e ficaram limitados a colônias de exploração espacial.

No entanto, tempos depois da missão ter sido cumprida, a polícia é surpreendida com a chegada de uma nave roubada, a tripulação era de quatro replicantes que mataram humanos e decidiram viajar para a terra por algum motivo. E assim o ex-blade runner Rick Deckard é chamado e ameaçado para que localize, descubra o motivo daquilo e aposente os modelos foragidos.

Antes de tudo saiba que esse é um filme baseado no livro "Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas?" de 1968, e que foi escrito pelo autor americano Philip K. Dick, e que na história original se passa em 1992. Já o filme é de 1982, e modificaram o ano, já que obviamente em apenas uma década, não alcançaríamos aquilo, e assim escolheram o mesmo ano de Akira, 2019.

No entanto, diferente de Akira, que surpreendentemente acertou muita coisa, nos tornamos um futuro retro muito mais cintilante! Pouco evoluídos no quesito inteligência artificial e tecnologias como carros voadores, porém muito mais evoluídos  em relação a outros quesitos como a comunicação entre as pessoas e o design das coisas.

O visual é inovador pra caramba e ao invés do diretor escolher um mundo brilhante e bonito, como o futuro costuma ser retratado, decidiu optar por algo que mistura tecnologia, porém um jeito mais humano de ser. Barracas montadas no meio da rua, ambientes detonados por falta de cuidados, etc... A grande inspiração foram os maravilhosos quadros de Edward Hopper, pintor do início do século passado.

E o resultado foi algo que provavelmente foi a base para a estética Cyberpunk, no entanto é interessante ressaltar algo aqui que deixa algumas pessoas bem confusas. Blade Runner não é cyberpunk. Eu sei que é fácil dizer "Claro que é! Olha que futuro sombrio e detonado, mas ainda assim tecnológico, se isso não é cyberpunk, então o que é?". Bom, ao pensar esteticamente, realmente parece, mas ao vermos de forma mais detalhada, não é bem assim.

Se você for olhar, nem Blade Runner, nem Akira são citados como os inventores do Cyberpunk, mas sim Neuromancer, de 1984. O motivo disso é que a coisa vai além de ser um futuro detonado, é preciso ter forte envolvimento e foco em inteligência artificial e a ligação do cérebro humano com máquinas. Mais especificamente, é o ponto em que humano e máquina se unem, mas o futuro é podre, não é maravilhoso para todos.

Ao olharmos a parte externa do universo de Blade Runner, é cyberpunk puro, mas ao olharmos interiores, parecem casas dos anos 30, e essa é uma forte influência vinda de Edward Hopper, em que seus quadros são de épocas antigas. O design de móveis e mesmo as estruturas dos prédios são de ambientes velhos, coisa que Star Wars de 1977 já tinha mostrado que naquela época eles sabiam pensar em um conceito futurístico, ou seja, foi proposital.

Vemos até mesmo ambientes iluminados por velas! Então se for para encaixar o conceito em algum tipo de "punk", não é apenas o cyber que deve ser elegido, mas também o Dieselpunk acaba elegível, especialmente com o fato de que o filme envelheceu com o passar dos anos e os computadores desse universo são velharias que se encaixariam perfeitamente em Fallout.

Ainda assim não se encaixa em dieselpunk porque falta a parte "diesel" da coisa. E aí entra um conceito que acaba sendo bem mais adequado, mas que muita gente pode acabar deixando passar batido por não prestar atenção na história e estar muito preso à frase "O caçador de androides". Estou falando do conceito Biopunk.

Biopunk é um gênero que tem foco na evolução baseada em biologia. A ideia não é criar máquinas e se fundir a elas, mas sim manipular estruturas biológicas. Os replicantes de Blade Runner são humanos perfeitos, não tem apenas o mesmo visual, tem carne e osso também. A única forma de identificar um é aplicando algo chamado "Teste Voight-Kampff", que é uma série de perguntas que atingem o subconsciente, e chega um momento em que o androide simplesmente "buga" enquanto é emergido nas perguntas.

Eles não são máquinas que podem ter partes substituídas, eles nascem, envelhecem e morrem. E durante o filme são apresentados outros conceitos biopunk como uma cobra e uma coruja artificial. Então se você parar pra pensar, o design geral interno é retro (o que até pode se encaixar em cyberpunk, mas não é comum), e a tecnologia é focada em biologia ao invés de algo cibernético. No fim das contas acaba não se encaixando como cyberpunk, apenas na estética geral de locais abertos. Dessa forma, assim como akira, Biopunk parece bem mais próximo.

Esse conceito de um futuro misturado com velharia é algo que parece ter surgido à partir do filme anterior do diretor Ridley Scott, o magnífico Alien, que apesar de ter um design bem mais futurístico, também apresentava personagens mais humanos e um clima mais "Cowboys do espaço", do que humanos impecáveis. Porém, diferente do anterior, esse foi um verdadeiro fracasso nas bilheterias, e não é surpresa.

Ao assistir, você facilmente nota que o cara cagou dinheiro pra fazer algo tão cabuloso naquela época. É um mundo gigante, detalhadíssimo, impecável. Cada cenário lotado de pessoas com visuais excêntricos e detalhes que só vão aparecer uma vez. Cada visão aérea de um universo fantástico com efeitos especiais de cair o queixo. Aquilo foi um verdadeiro milagre do cinema!

E quando você vê um filme caro desses, tanto efeito especial, um nome estiloso assim e uma temática de um cara que caça androides, é fácil imagina explosões, ação e aventura! No entanto o que é entregue é um filme psicológico que você tem que prestar muita atenção e também entender as entrelinhas. No fim das contas pode ser absurdamente cansativo, e na primeira vez que assisti despreparado, eu fiquei intrigado, pois achei chatão, mas tinha algo de especial. E assim com o passar dos anos voltava a assistir.

Acabei notando que essa é uma daquelas obras como Serial Experiments Lain, que a cada vez que assistia, percebia algo que não tinha pego antes. Aquela delicadeza por trás das cenas, e a direção tão maravilhosa. O clima dramático na morte de alguns dos vilões. Algo tão diferente de filmes da época, dando um destaque no "Também estamos vivos". Convenhamos né? Não tinha como um filme caro desses com uma proposta assim conseguir um retorno decente em 1982. Isso sim seria um milagre! kkkkk.

Existem alguns detalhes inclusive, que são dicas para o público, e não exatamente algo que acontece no mundo do filme. Por exemplo os olhos vermelhos em algumas cenas discretas em que replicantes aparecem. Se os olhos deles ficassem vermelhos no universo, não seria necessário fazer o teste, porém o público consegue ver vez ou outra. Mais um detalhe são os origamis deixados ao longo do filme e que também tem toda uma simbologia.

Apesar de tudo o filme tem perseguições, tem tiroteios, osso sendo quebrado, pancadaria. No entanto ao invés de ser tudo tão coreografado com o herói se dando bem, é algo bem mais artístico. Como disse, tem mortes dramáticas de vilões, tem elementos. Uma em especial acho muito linda, que é em meio a uma multidão e aquele jazz meio de fim de noite passando, algo tranquilo. É uma cena sei lá... Gostosa de ver, é estranho.

Mas é o que falei, Blade Runner é um filme que você tem que estar no clima certo, preparado para a coisa certa. Se você esperar algo agitado, até vai encontrar, mas sem passar aquele climinha que se espera, o que no fim das contas é a mesma coisa que não ter. A coisa é passada de uma maneira bem discreta, sem exageros.
Enfim, obra maravilhosa. Completamente compreensivo de se achar chatíssima, mas que vale a pena dar uma conferida com os olhos de que é pra ser parado. E vale ainda mais depois dar uma pesquisada sobre a simbologia de Blade Runner para compreender o que algumas cenas estavam escondendo.

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