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quarta-feira, 1 de março de 2017

Ghost in the Shell - Um mangá cyberpunk revolucionário

Especialmente em tempos modernos nós estamos expostos a uma chuva de entretenimento que nos sufoca, e graças a isso as obras maravilhosas cada vez ficam mais difíceis de se encontrar. No entanto nem sempre essas obras são modernas e as vezes foram lançadas há muitos anos. Hoje vou finalmente falar sobre uma dessas obras o mangá de Ghost in the Shell, que eu já tinha falado aqui no blog sobre o meu primeiro contato com o filme de 1995.



A história tem foco em um departamento criado pelo governo japonês para fazer os mais variados tipos de trabalhos envolvendo terrorismo, mas sem que ninguém fique sabendo. Sendo assim os membros dessa equipe podem fazer de tudo para cumprir seus objetivos, inclusive coisas pesadas como assassinato e chantagem.

A protagonista do mangá é a Major Motoko Kusanagi, que não é a típica heroína boazinha que todo mundo tanto conhece em obras variadas. Ela é uma mulher com seu lado sombrio, portanto faz coisas como se vingar e usar software ilegal. Apesar de em essência ser uma pessoa boa, o autor não poupa esforços em mostrar ela tomando atitudes bem humanas, sem ter um coração puro. Diferencia o certo do errado mas não recua na hora de matar pessoas para evitar coisas ainda piores. Ou seja aqui não tem aquela frescura de heróis com "Ai, se eu fizer isso apenas vou estar me tornando igual a ele!". 

Me agrada o quanto os personagens tem rancor, passa uma sensação bem humana. Por exemplo tem uma parte em que Kusanagi finalmente consegue matar um bandido que tava infernizando ela e na hora de meter vários tiros nele no chão aparece o rosto dela super rancoroso dizendo para ele não retornar mais do inferno.

Esse mangá foi lançado em 1989 pelo mangaká Masamune Shirow (Que é um nome artístico, o verdadeiro é Masanori Ota), na época com 28 anos de idade. E a coisa foi revolucionária por usar um cuidado imenso na criação de um universo cyberpunk com forte base no mundo real, gerando vários produtos baseados na coisa. As inspirações foram fortes de diversas obras, mas sendo sempre muito cuidadoso ao pensar em coisas que funcionariam de verdade.

Ou seja, a grandiosidade de Ghost in the Shell está no seu jeito sério de ser. Uma coisa que vemos constantemente na ficção científica são obras onde os autores escolhem um monte de coisas aleatórias sem se preocupar com nada, afinal de contas é o futuro e tudo pode acontecer, certo? No fim isso é o que acaba diferenciando ficção científica barata de algo realmente luxuoso.

Então o que o cara imaginou foram quarenta anos no futuro, uma época distante o suficiente dos anos 80 e deixando assim a possibilidade de se tornar uma obra capaz de prever o futuro, afinal de contas se em dez anos os saltos são cabulosos, imagina em quase meio século não é? Portanto ele fez um ano de 2029 muito robusto.

Essa é uma obra do gênero cyberpunk bem pura, e assim nós temos aqui os principais elementos da coisa, um mundo cheio de corrupção, injustiças sociais e alta tecnologia. Porém não é um mundo escuro como é normal nesse tipo de gênero, mas sim algo muito mais parecido com nosso mundo, o que deixa a coisa bem mais realista. Não é um futuro todo branco e bonito, mas também não é completamente podre, é mais voltado para o lado hipócrita da coisa.

O autor bebe de obras poderosas como Neuromancer, mas tem seu próprio estilo e você nota bem que o universo de Ghost in the Shell tem um foco muito maior em parecer o nosso mundo do que um ambiente futurístico sombrio. Essa parte obscura presente é usada de coisas que já estão no próprio mundo real como as conspirações e corrupção de políticos. 
O mundo parece feio porque o ângulo mostrado é exatamente na parte de dentro dessa corrupção, aí chega a parecer fantasioso, mas quando você para pra pensar, rapidamente percebe que aquilo é apenas o que não vemos. Faz com que percebamos o quanto nosso mundo parece ilusório já que sabemos bem que assassinato e grupos fazendo coisas acima da lei são comuns.

Você nota bem que o autor sabe do que está falando, as tecnologias apresentadas são baseadas em coisas que já caminhavam para aquele lado nos anos 80. Então ele apenas pesquisou mais sobre o assunto e o futuro para desenvolver algo que imaginou ser possível, não há aquilo que falei onde o autor inventa qualquer coisa e tanto faz.

O mesmo serve para a ciência, como é um mundo onde as pessoas passaram a modificar os seus corpos, não é apenas a tecnologia de máquinas que importa, mas também aspectos do corpo humano. Por exemplo há uma cena de uma cirurgia no cérebro de um homem. Há toda uma explicação sobre como funciona a coisa de forma real, é algo bonito de se ver.

Não bastando isso tudo, o autor ainda foi cuidadoso o bastante para se preocupar com elementos realistas em outros aspectos onde não era necessário. Um bom exemplo disso é quando há um sniper mirando em um dos agentes e atira, a onomatopeia do BAM só aparece depois que o cara leva o tiro, o motivo disso é que a velocidade daquela bala ultrapassa a velocidade do som. Sinceramente eu não perceberia isso, mas soube graças a uma nota do autor.

Agora juntando tudo isso, imagina o quanto o mangá não fica robusto. Essa é uma daquelas obras que eu acho que define bem ficção científica japonesa de luxo. É algo que você nota que foi muito bem trabalhado, algo sem preguiça e que com certeza funcionou, já que se tornou um daqueles ícones que, embora não tão populares, virou fonte para muitas outras obras beberem. Um verdadeiro oásis no mundo do entretenimento.

Quanto aos desenhos, tenho que assumir que achei ele um mangaká mediano e muitas vezes preguiçoso, inclusive ele mesmo em uma nota explica que não quis desenhar algo de um jeito porque ia ser complicado pra ele ter que ficar desenhando aquilo depois de novo, então preferiu só agilizar logo com a coisa.

Tem algumas imagens que são realmente bonitas, chegando a níveis de obras como o mangá de Berserk por exemplo. Mas esse autor tem uma mania peculiar que eu não gostei muito, ele faz constantemente desenhos de criança em alguns quadrinhos, e é no estilo de criança mesmo, tortão com os personagens deformados, chega a ser estranho uma obra tão séria com uns desenhos tão feios.

E eu não estou falando de ser fofinho, ele também faz isso, mas as vezes só faz um círculo, coloca dois olhos efaz uma bocona. É bem algo do tipo "To cansando, acabei de fazer um personagem extremamente fodão, um ambiente lindo demais e super detalhado, mas ainda falta esse aqui, já sei, só vou fazer qualquer coisa".

Mas tenho que assumir que tem seu charme, pois apesar de ser algo esquisito, também é uma coisa que acaba dando uma certa personalidade à obra. Afinal de contas em geral é normal em mangás e animes de repente um personagem sério assumir uma forma fofinha. Mas aqui isso está presente muito frequentemente, algo super realista e algo bizarríssimo.

Ainda sobre os desenhos, algo que preciso aplaudir é para o design das coisas que o autor bola. É simplesmente algo bonito de se ver, como falei nessas obras os detalhes para algo realista são necessários, e ele faz exatamente isso, foca no realismo de um design. Sendo assim ele também não fez as coisas de forma aleatória, mas pensou no modelo de máquinas que funcionassem.

Graças a isso, Ghost in the Shell tem máquinas com designs peculiares, são meio fofinhas com um toque próprio, mas que dão um charme a mais ao mundo, como os Fuchikomas, robôs com visuais meio arredondados e que são usados par auxiliar agentes durante as missões. Ou mesmo instrumentos usados para certas coisas.

Aliás, a tecnologia em geral é mostrada de uma forma tão charmosa, por exemplo a ideia de roupa da invisibilidade é comum, mas aqui ela é usada de uma maneira lindona. É possível ver personagens preocupados em usar essa camuflagem em ambientes com chuva ou poeira, pois esses elementos são capazes de desenhar o corpo do usuário.

Também está presente a tão conhecida realidade virtual, então existe toda uma série de regras. Os personagens podem se conectar uns aos outros, mas nem todo mundo tem implantes. Existe inclusive um impacto tecnológico com aparelhos antigos como computadores de mesa e conexão via implantes. Os usuários tem medos de ciberataques, que são bem mais perigosos e podem deixar uma pessoa em coma e há vários outros detalhes menores e charmosos.

As histórias apresentam a equipe sendo envolvida nos mais variados tipos de missões, há um certo toque de mistério na coisa com aquela introdução onde a equipe vai até o lugar do crime e tenta entender o que aconteceu ali e aí passa a procurar e tentar ligar os motivos. São coisas envolvendo tráfico humano, inteligências artificiais que saíram do controle e começaram a matar seus donos, corrupção e mais.

É bem fantástico ir descobrindo aos poucos o que aconteceu em cada história e isso te faz entender melhor o universo em que a coisa se passa e as possibilidades. Mas apesar de serem histórias próprias, no fim das contas é uma trama que está interligada e segue uma história principal, que acaba tendo um desfecho no fim das contas.

É bem fantástico ver elementos que envolvem a moral e aparências, como por exemplo uma edição em que a mídia tem uma gravação de um dos agentes da equipe cometendo um assassinato e a partir daí a coisa vai pra todo um lado jurídico. É preciso se livrar desse problema e ao mesmo tempo ver o lado da população. Você consegue sentir a pressão da mídia em cima e a opinião pública, enquanto torce para que a coisa se resolva (ou não, kkkk).

Há também um toque extremamente filosófico, como é algo que envolve homem e máquina, também acaba estando presente a religião. Você sente como é forte a coisa, começa apensar em algo do tipo "Até que ponto uma inteligência artificial é apenas uma coisa e não um ser?", além de novos pensamentos como imortalidade, bondade e maldade, hipocrisia humana. É muito bom!

No Brasil a editora JBC lançou Ghost in the Shell e ficou um trabalho bem luxuoso, a capa tem a ilustração original com descrição em japonês. Uma coisa curiosa e que só descobri com esse volume é que o nome desse mangá é só o subtítulo e originalmente é "攻殻機動隊 THE GHOST IN THE SHELL" ou Armored Riot Police: The Ghost in the Shell. Por isso tem o "THE" na edição brasileira. Essa publicação reúne as 11 edições em um volume único. O começo de cada história é com páginas coloridas e depois fica em preto e branco.

Uma coisa interessante é que essa edição contém anotações do autor, isso pode ser meio cansativo, pois em quase todo fim de página tem um texto enorme com letras pequenininhas explicando detalhes sobre o mundo, coisas que o autor se baseou e curiosidades científicas ou tecnológicas. Isso faz com que tudo fique mais robusto, porém sacrifica a fluidez da coisa, sendo assim o recomendado é que você leia a primeira vez sem ler os rodapés e em uma segunda vez os leia pra deixar tudo mais intenso.

A única coisa que não gostei nessa edição, mas que muita gente pode amar, é que ela vem com sobrecapa. Isso dá um toque de edição de luxo é claro, mas como não é capa dura (e mesmo que fosse), me incomoda um pouco, pois tenho a sensação de que fica mais frágil e pode acabar danificando mais facilmente. Porém pra algo de luxo dá um charme é claro.

Enfim, esse é um mangá adulto, que fique claro! Contém nudismo e é algo para se ler quando está bem relaxado, pois não é a típica história de ação e aventura. O foco é realmente um público maduro e para quem está procurando apenas por ação pode ser realmente uma obra cansativa. Mas se você ama cyberpunk e obras com toques profundos, certamente vai amar! Essa edição tem 352 páginas e pode ser achada a venda aqui.


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