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domingo, 12 de junho de 2016

Neuromancer - O livro que inventou o Cyberpunk

Antes de tudo eu gostaria de dizer que é uma baita emoção poder escrever essa matéria e também posso falar que é um verdadeiro sonho que se realizou. Digo isso porque Neuromancer é um livro que por muito tempo pensei ser uma daquelas coisas que eu iria adorar demais poder ler, mas que parecia ser um bocado inalcançável pra mim. Isso porque simplesmente nem imaginava que tinha sido lançado no Brasil.



Eu tenho tanta coisa para dizer sobre esse livro que nem sei por onde começar, além de que tenho certeza que vou querer falar muito mais depois. Sendo assim já saibam que ainda vou fazer outras matérias envolvendo Neuromancer e acho que se tornou meu livro favorito, pois as misturas de sensações causadas foram indescritíveis.

A primeira vez que ouvi falar em Neuromancer foi em 2009 quando fui pesquisar sobre o gênero Cyberpunk para escrever aqui no blog. Então vi aquele livro de 1984 e a primeira coisa que me veio a mente foi "Ahhh, eu nunca vou ler isso! Por que uma editora lançaria um livro desses aqui no Brasil?". Então nem fui pesquisar nem nada, simplesmente parecia uma coisa inalcançável demais pra mim.

O negócio é, hoje em dia estamos em uma era em que a literatura na cultura pop se expandiu no mundo e no Brasil, não param de lançar filmes e séries baseadas em livros. Virou comum demais ver frases como "O livro é melhor" ou "Eu quero ler o livro desse filme!". Mas nem sempre foi assim, em 2009 você via coisas como os livros de Warcraft e sabia que de maneira alguma aquilo seria lançado no Brasil, simplesmente não tinha público, video games não estavam em alta assim. E o mesmo servia pra qualquer outra coisa "estranha" que fosse lançada lá fora.

Dessa maneira, por que diabos uma editora lançaria Neuromancer no Brasil? Um livro de ficção científica em um mundo difícil de se entender. E assim nem procurei, fiquei na vontade mesmo e não bati o pé quanto ao assunto. Porém o mais irônico é que no mesmo ano a editora Aleph estava sendo lançado no Brasil a edição comemorativa de 25 anos de Neuromancer em uma capa simplesmente maravilhosa que consegue facilmente humilhar qualquer edição gringa! E inclusive depois fui dar uma olhada e achei alguns deles bem irritados em fóruns se perguntado do motivo das capas brasileiras serem tão bonitas e as dos outros países serem dignas de filme trash hahaha.

Mas somente em 2016 é que eu fui ficar sabendo disso, e ao dar uma procurada, descobri que a coisa não parava por aí! Ao contrário do que pensei, essa editora sempre foi ousada, na coisa e lançou em 1991 pela primeira vez no Brasil! Imaginem só a minha surpresa com a coisa? Simplesmente pareceu ser surreal demais, e claro que eu tinha que dar uma conferida nessa maravilha.

Mas agora vamos ao que interessa! Neuromancer foi lançado em 1984 pelo autor William Gibson e foi um sucesso imediato, ganhando os prêmios Nebula, Hugo e Philip K. Dick, que são nada menos do que os três principais prêmios da ficção científica. Ou seja o negócio foi um baita de um estouro e conseguiu se destacar mesmo sendo o livro de estreia do autor.

Esse livro é considerado como a bíblia do Cyberpunk, embora ele não tenha inventado o termo e universos semelhantes ao cyberpunk já tivessem aparecido anteriormente como em Akira (1982) por exemplo, Neuromancer foi o que forjou de vez o conceito da coisa. Inventou muito para o gênero e usou elementos que já deram a cara, além de inventar muitos termos que viraram comuns nesse universo.

A história se passa em um futuro sombrio, mega corporações se tornaram mais poderosas que governos e começaram a controlá-los. A corrupção saiu do controle, injustiça social, crimes, drogas, ruas sujas e muito mais são coisas típicas em cidades. Apesar de tudo a tecnologia é muito avançada, e assim se vê por toda parte pessoas usufruindo da coisa.

Existe uma rede mundial chamada Matrix, que é uma "Ilusão Coletiva", um espaço virtual em que as pessoas entram com aparelhos chamados Decks. Se conectam ligando fios à cabeça e veem versões de si mesmos nesse lugar. Bilhões se conectam a Matrix diariamente. Mas não apenas pessoas, corporações também estão conectadas, isso faz com que surjam os chamados "Cowboys", que são pessoas que invadem e roubam dinheiro e informações, além de outros crimes virtuais.

Um desses cowboys se chama Case e ele é contratado por pessoas poderosas para fazer o trabalho, recebe decks modificados que lhe dão maior liberdade dentro da Matrix e rouba de outros poderosos. Porém em uma das missões ele planeja fazer algo de diferente, pega uma parte do dinheiro. Tudo é feito com muito cuidado e parece impossível descobrirem, mas para seu azar eles de alguma forma sabem sobre o dinheiro roubado.

Aplicam uma toxina em seu corpo e o prendem por horas em um hotel para que faça efeito. Seu sistema neural é danificado e os contratantes deixam que ele fique com o dinheiro. No começo Case não entende o motivo, mas logo descobre que não pode mais se conectar a Matrix e usa a grana para pagar as clínicas mais caras que existem, mas nada funciona e ele tem que se acostumar a viver no mundo real.

Com sua falta de habilidade nas ruas ele vive acabado, devendo muito dinheiro, se drogando e vagando tentando sobreviver mais um dia. Até que ele recebe uma visita inesperada de uma mulher chamada Molly e lhe faz uma oferta trabalho, diz que seu contratante pode arrumar o problema neurológico mas Case tem que fazer tudo sem perguntar nada e naturalmente a oferta é aceita, mas como vocês devem imaginar essa só é a ponta do iceberg.

O universo apresentado é tão robusto, descreve tão bem cada detalhe, você realmente vê um mundo sendo construído. Todas as estruturas, cultura, tecnologia e muito mais. Por exemplo existem classes de pessoas Case é um Cowboy. Molly é uma Samurai Urbana, com implantes que a auxiliam, tem um personagem que tem implantes que fazem hologramas ao seu redor, e assim vai.

Alguns elementos apresentados são tão maravilhosos que te faz querer experimentar aquilo. Por exemplo tem um aparelho chamado SimStim, que conectado ao deck permite você mandar sua consciência para a de alguém que tenha implantes para isso. E assim em diversos momentos Case se conecta ao corpo de Molly, vendo por seus olhos e sentindo o corpo inteiro.

Boa parte das situações é bem cinematográfica, tem um momento em que Molly está andando por uma rua cheia de vendedores ambulantes com tecnologia e peças a venda em barraquinhas (hoje é comum ver isso, naquela época era ficção científica). Ela chega em um garoto que está olhando para o nada e pergunta "Você está aí?" e os olhos do garoto ganham foco, daí você percebe que ele estava na Matrix e então começa a negociar mas diz "Você tem um cavaleiro, eu não falarei com você.", se referindo a Case que está usando o SimStim em Molly naquele momento, e ela fica impressionada com a detecção e manda Case desconectar. É muito bom! Hahaha.

Bom, tenho que assumir que assim que comecei a ler Neuromancer, tomei um belo de um susto ao descobrir que um dos universos que eu mais amo e sou um fã fervoroso simplesmente copiou uma bela de uma fatia do livro. Estou falando de meu amado Shadowrun. Sério, a coisa é um absurdo, não é simplesmente o uso de um universo cyberpunk, é uma cópia dos termos! Por exemplo os computadores usados são decks, a moeda neoiene existe nas duas obras, a matrix é igual e muito mais. Shadowrun tem sim suas coisas próprias, mas a sensação que tive foi que pelo menos 70% dele é Neuromancer e o resto são coisas próprias.

Mas não apenas Shadowrun, diversas outras obras sugaram demais de Neuromancer, o aclamado Matrix por exemplo sugou e abusou, o próprio termo e conceito foram puxados direto de Neuromancer, mas também termos saíram dele, por exemplo existe a cidade de Zion em Neuromancer, e em Matrix ela é a última cidade humana. Muitíssimas partes são semelhantes, chega um momento do livro em que Case olha pra Matrix e vê em códigos e quando ele sai para o mundo real, também por um instante vê as coisas em códigos.

O mais do que estiloso Ghost in the Shell também sugou demais de Neuromancer, a ideia de fusão de homem e máquina, e termos como as unidades de defesas chamadas de ICE (Intrusion Countermeasures Electronics) aparecem em Ghost in the Shell (sim, usando exatamente o mesmo nome), isso com todo um toque filosófico muito constante no livro.

E várias outras obras você vai vendo que foram puxados certos elementos, é de arrepiar! Mas a coisa vai além, Neuromancer é também considerado como um livro profético, isso porque diversas coisas presentes no livro se tornaram reais (Depois vou escrever uma matéria especificamente pra citar todas as coisas que se tornaram reais). O próprio termo ciberespaço que tanto conhecemos foi inventado por William Gibson.

Agora tentem imaginar que FANTÁSTICO, você é um autor, inventa um termo, inventa a "mecânica" da coisa e sabe que aquilo é ficção, é só uma história que você fez. Daí anos depois essa coisa não é apenas inventada como passa a usar exatamente o mesmo termo que você criou. Tentem imaginar que maravilhoso não deve ter sido para Gibson ver aquela ideia de fantasia surgir no mundo real?

Tem muitas coisas que para o público atual parecem ser apenas detalhes do dia a dia, mas para o povo de 1984 era realmente o futuro. Apesar disso ele é um livro retro-futurístico, isso porque nem tudo Gibson previu. Por exemplo não tem celulares e tem alguns detalhes engraçados como os videocassetes de bolso e outras coisas que dão um toque retro na coisa. Mas isso não minimiza a obra, ao meu ver só dá um charme a mais na coisa.

Esse é um livro bastante filosófico e existe um certo toque de religiosidade na coisa, não como algo de espíritos mesmo, é algo relacionado a inteligência artificial. Ao limite que uma máquina pode chegar e ao medo, de certa forma lembra o filme Trascedence (que aliás, também puxou demais de Neuromancer), aquela sensação estranha de algo que faz a humanidade ver que é poderoso demais e começa a temer, se sente perdido. A ideia de contato com algo muito maior e que não sabemos se vai nos destruir.

É difícil de explicar, mas é meio que uma sensação do homem criando deus e não o contrário, a coisa é meio que de arrepiar. E o próprio universo apresenta muitas questões religiosas, não é um mundo em que a religião acabou. O povo de Zion por exemplo são adoradores de Jah e a cidade é toda a la rasfari, onde os cidadãos curtem um estilo de música chamada dub que são sons eletrônicos distorcidos.

Eu fico impressionado em como um mundo desses nunca explodiu de verdade para outras mídias, as adaptações sempre foram discretas, por exemplo em 1988 lançaram um jogo e no ano seguinte uma HQ que só tem os dois primeiros capítulos. Mas caramba, pra uma obra grandiosa dessas, influente demais e com um universo tão robusto e épico, como é que nunca se teve uma adaptação cara da coisa?

Enquanto lia eu só pensava em duas empresas colocando as mãos nessa obra, a primeira é a HBO, imagina uma coisa dessas virando série dela? Quero dizer, cada episódio de Roma custou 9 milhões de dólares, cada episódio de Game of Thrones 6 milhões, então imagina ela criando o mundo de Neuromancer em uma série? As traições, as reviravoltas e com uma qualidade maravilhosa, nossa isso seria lindo de se ver!

A outra empresa que pensei foi a CD Projekt Red, que infelizmente acho que nunca vai fazer isso já que ela é a responsável pelo Cyberpunk 2077 que é inspirado no RPG de Mesa Cyberpunk 2020, que por sua vez é também inspirado em Neuromancer, ou seja ela certamente não vai querer ter dois universos Cyberpunk, mas vendo o amor tão intenso que ela colocou em The Witcher 3 eu sei que ela seria a empresa certa para trazer esse universo para o mundo dos jogos sem se limitar.

Quanto a adaptação para filme eu nem digo muita coisa, pois o universo é tão maravilhosamente grandioso que acho que um filme não seria capaz de realmente conseguir passar toda a coisa, creio que no caso de algo filmado realmente uma série seria o melhor. Mas claro que seria melhor do que nada né? Hehehe, então nesse caso acho que as próprias irmãs Wachowski deviam fazer um filme da coisa, creio que seria fantástico.

Esse é um livro difícil de se ler, no começo pensei que era comigo mas depois fui dar uma olhada em análises e vi todo mundo falando a mesma coisa. Sendo assim saiba que é muito fácil de se perder e você ter que ler de novo por simplesmente não ter entendido que tava escrito. É preciso de paciência e aliás, já aviso que no final do livro tem um glossário, então recomendo demais ler ele primeiro pois a história é lotada de termos e no começo eu suei pra entender o que Gibson estava falando.

Bom pessoal, eu sinto que não falei tudo que tinha pra falar, mas é aquele tipo de caso em que tenho tantas coisas em mente que acabo atropelando muitas delas. Porém ainda falarei de Neuromancer aqui no blog e vou colocando pontos que acabei esquecendo. Então recomendo demais! Agora fiquem com uma música Neuromancer da banda Battle Beast em homenagem ao livro:


Não deixe também de dar uma conferida na matéria sobre a edição especial de 30 anos, e se você ficou interessado em comprar, dá pra pegar baratinho aqui:


Edição de 25 anos


7 comentários:

Jean SI disse...

Numa literatura Cyber Punk, como todo mundo é pobre e mesmo assim tem a acesso à tecnologia?

Jardel Holub disse...

Realmente é muito bom ler essa matéria com tu escrevendo com tamanha empolgação, eu penso se um dia lerei isso (sou um péssimo leitor de coisas...), parece ser fantástico e emergir assim (bem, eu me emergi pra carao no teu livro ''O céu não existe'', e to juntando os trocados pro ''folhas secas de alguma coisa (não lembro mais o nome, gostava mais de eu sou Deus :3 ). Eu nunca tinha ouvido falar dessa obra, realmente interessante ver que ela inspirou tantas outras grandes obras, agora fiquei com muito vontade de ver/ler isso :3

Chrystian disse...

Do mesmo jeito, em que hj as pessoas deixam de rebocar a casa, pra comprarem um smartphone e acessar o Facebook todos os dias, ou seja, é assustadoramente viável um futuro assim.

Wendel disse...

NÃ0 TENH0 PALAVRAS, REALMENTE INSPIRAD0R V0U LER ESTE LIVR0.

Matt Kist disse...

Muito boa a matéria.... WAIT!!! O outro cara dos irmãos Wachowski também virou traveco?!!!! WHAAATTTT?!!!!!!!!

Rian disse...

Também não sabia que o outro Wachowski virou traveco. Agora a respeito do livro... Tempos atrás eu estava animado em ler essa trilogia, mas um amigo próximo que eu prezo me disse que o livro não era lá essas coisas que parecia ser, que era uma historia bem raza, sem nenhuma sacada interessante em nenhum momento. Tem um ou outro personagem excentrico, só pra situar o cara num futuro cyberpunk mas é isso... Vou pesquisar um pouco depois à respeito.

Agora da série principal também tem um outro conto que foi escrito em um mini livro que traz a historia do Johnny Mnemonic, que também faz parte do universo do Neuromancer. Você já assistiu esse filme? O filme é bacaninha. Tem uma baita de uma trilha sonora maneira também.

Skywalkerpg disse...

Assisti não, mas pretendo, ainda vou consumir muito conteúdo desse universo uahaha. =D