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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O executor Elétrico - Conto sobre fanatismo e tecnologia

Uma coisa que nem todo mundo sabe, é que H.P Lovecraft também escrevia histórias em conjunto, algo que eu acho no mínimo estranho, ou então uma medida desesperada do autor. Digo isso porque embora eu ame pra caramba sua escrita, uma das minhas opiniões sobre ele é que era um cara bem egocêntrico, digo isso porque em geral os seus personagens eram ele mesmo, o negócio era bem descarado. Não que isso seja ruim, mas é algo que faz carregar uma essência ali, uma assinatura própria, você sente muito bem como seus personagens tem aqueles traços tão familiares. E hoje vou postar aqui um conto que ele fez em conjunto.

Antes, tenho que deixar claro que isso não é como em "A coisa no Luar", que era uma carta do autor falando sobre um pesadelo seu, e que anos depois foi pega após o seu falecimento pelo escritor J. Chapman Miske e transformada em um conto. Aqui é realmente uma coisa feita para ser uma parceria. Pelo jeito que ela foi montada, faz parecer que é uma história com um clima próprio, usando uma roupa a fantasia de outro clima.

Esse conto foi publicado em 1930 na revista Weird Tales, que o autor já era bem familiarizado na época, era meio que a revista nerd onde ele e outros escritores se juntavam para publicar as coisas que inventavam, e assim um outro autor chamado Adolphe de Castro lançou em conjunto com Lovecraft "O executor Elétrico". Sinceramente eu gostei do resultado final, só que vi críticas duras em cima da história, o que me faz pensar que em geral são meio preconceituosas por não ser algo puramente lovecraftiano.

Aparentemente o conto foi escrito por De Castro, e após terminar ele passou para Lovecraft, que o reescreveu adicionando os seus próprios elementos com os Mitos de Cthulhu. Sendo assim aqui existe um climinha inicial não tão sombrio, algo que me pareceu mais para a atmosfera Indiana Jones e então depois vem a segunda parte que é mais sombria e esquisita.

A crítica negativa principal é sobre o desfecho parecer não ter sentido e não explicar exatamente o que aconteceu. Não do tipo de "sem sentido" comum que Lovecraft costuma apresentar, mas sim algo que para muitos pode ser visto como gambiarra pra fechar história e não um grande mistério do universo que você não precisa saber até mesmo porque nem compreenderia.

A história apresenta um homem que está em uma perseguição para recuperar documentos importantes que foram roubados, e precisa urgentemente chegar ao México, no entanto acaba se deparando com o que pode ser um terrível final para a sua vida. Esse é um daqueles contos que o autor mostra bem a parte tecnológica da coisa, envolvendo muito além de grandes antigos, mas tecnologia avançada, assim como em Do além. Confiram:



O executor Elétrico

Para alguém que nunca encarou o perigo de uma execução legal, tenho um muito peculiar horror quando o assunto é a cadeira elétrica. Com efeito, creio que o tópico me faz estremecer mais do que a certos homens que já foram a julgamento com o risco de suas vidas. A razão está em que associo a coisa a um incidente de quarenta anos atrás – um incidente bastante estranho que me levou à borda do abismo negro e desconhecido.

Em 1889 eu era auditor e investigador ligado à Companhia Mineradora Tlaxcala de São Francisco, que comandava diversas pequenas extrações de cobre e de prata nas Montanhas San Mateo, no México. Ocorrera algum problema na mina número 3, onde atuava um taciturno e furtivo superintendente auxiliar chamado Arthur Feldon; e em 6 de agosto a Companhia recebeu um telegrama informando que Feldon tinha arribado, levando consigo todas as anotações de estoque, notas fiscais e outros papéis e deixando a situação funcional e financeira numa verdadeira polvorosa.

Esse acontecimento foi um golpe severo para a Companhia, e ao entardecer o presidente McComb me chamou ao seu escritório para me dar ordens de que recuperasse os papéis a qualquer preço. Haviam ocorrido, ele sabia, graves prejuízos. Eu nunca tinha visto Feldon e dispunha apenas de algumas fotografias inexpressivas para minha orientação. Além disso, meu próprio casamento estava marcado para quinta-feira da semana seguinte – apenas nove dias à frente –, de modo que eu não me achava nem um pouco ansioso para ser enviado ao México numa caçada humana cuja duração seria imprevista. A necessidade, no entanto, era tamanha que McComb teve motivo para me pedir que partisse imediatamente. De minha parte, concluí que isso talvez valesse a pena, pois poderia fazer que meu status na companhia subisse alguns pontos.

Minha partida fora marcada para aquela noite; eu iria no carro do presidente até a Cidade do México, após o que tomaria uma pequena estrada de ferro em direção às minas. Jackson, o superintendente da número 3, me daria todos os detalhes e todas as indicações possíveis assim que eu chegasse; e então a busca começaria de imediato – através das montanhas, descendo pela costa, ou pelos arredores da Cidade do México, conforme fosse o caso. Estabeleci, com firme determinação, que concluiria o assunto – e com sucesso – o mais rápido possível e temperei meu descontentamento com antevisões de um retorno breve com os papéis e o culpado e também de um casamento que seria quase uma cerimônia triunfal.

Tendo informado minha família, minha noiva e meus principais amigos, e feitos os preparativos apressados para a viagem, encontrei o presidente McComb às oito da noite no depósito da Southern Pacific, recebi dele algumas instruções escritas e um talão de cheques e parti em seu carro a fim de tomar o trem transcontinental das oito e quinze com destino à fronteira. A jornada seguinte perecia fadada à monotonia; depois de uma boa noite de sono desfrutei do conforto de um vagão especialmente reservado, a ler minhas instruções com cuidado e a formular planos para a captura de Feldon e para a recuperação dos documentos. Eu conhecia a região de Tlaxcala bastante bem – provavelmente melhor do que o fugitivo – e assim teria um certa vantagem na busca, a não ser que ele já tivesse também utilizado a ferrovia.

De acordo com as instruções, Feldon tinha sido durante algum tempo motivo de preocupação para o superintendente Jackson, agindo secretamente e trabalhando irregularmente no laboratório da companhia nas horas mais esquisitas. Havia fortes suspeitas de que ele estivesse implicado junto com um chefe mexicano e vários peões em alguns roubos de minério; no entanto, embora os nativos tivessem sido despedidos, não havia suficiente evidência para garantir qualquer prova contra o sutil oficial. Na verdade, apesar de sua dissimulação, parecia haver mais desafio do que culpa no comportamento do homem. Ele era orgulhoso e falava como se a companhia o estivesse enganando, em vez de ele à companhia. A óbvia vigilância de seus colegas, Jackson escreveu, parecia irritá-lo ainda mais, e agora ele tinha fugido com tudo o que havia de importante no escritório. Acerca de seu paradeiro nenhuma conjetura era feita, conquanto o último telegrama de Jackson sugerisse as escarpas selvagens de Sierra de Malinche, aquele alto pico rodeado de mitos e com a silhueta em forma de cadáver, de cujas vizinhanças dizia-se que os nativos ladrões tinham vindo.

Em El Paso, que alcançamos às três da manhã do dia seguinte, meu vagão particular foi desconectado do trem transcontinental e engatado a uma locomotiva especialmente encomendada, por telegrama, para conduzi-lo em direção ao sul até a Cidade do México. Continuei a preguiçar até o amanhecer e durante o dia seguinte inteiro me vi exposto ao tédio da paisagem deserta e plana de Chilhauhau. A tripulação informou-me que estava previsto chegarmos à Cidade do México por volta do meio-dia de sexta-feira, mas eu logo vi que incontáveis demoras nos fariam perder horas preciosas. Houve esperas em paradas durante todo o percurso, e aqui e ali um superaquecimento dos eixos ou outra dificuldade viria para atrapalhar ainda mais as previsões.

Chegamos a Torreon com seis horas de atraso, e eram quase oito da noite de sexta-feira – portanto um atraso de doze horas – quando o condutor consentiu em andar mais depressa para ganhar tempo. Meus nervos estavam no limite, e eu não podia fazer nada além de perambular em desespero pelo carro. No fim concluí que a velocidade fora comprada a um preço alto, pois dentro de meia hora os sintomas de um superaquecimento se mostraram também em meu carro; de forma que, depois que uma espera enlouquecedora, a tripulação decidiu que todos os pertences teriam que ser despejados, após uma coxeadura a um quarto da velocidade, na próxima estação com depósitos – a cidade industrial de Queretaro. Foi a gota d’água, e eu quase esperneei como uma criança. De fato, às vezes me surpreendia a empurrar a poltrona, como se tentando fazer o trem avançar mais depressa.

Já eram quase dez da noite quando entramos em Queretaro, e eu passei uma hora de agrura na plataforma da estação enquanto meu vagão era puxado para um canto e vasculhado por uma dúzia de mecânicos nativos. Por fim me disseram que o problema era demais para eles, desde que o eixo dianteiro precisaria de umas partes novas que não poderiam ser arranjadas a não ser na Cidade do México. Tudo parecia, de fato, estar contra mim; senti mesmo meus dentes rilharem à idéia de que Feldon estaria se afastando mais e mais – talvez em direção a algum refúgio em Vera Cruz, que dispunha de navios, ou na Cidade do México, com sua variada oferta de trens – ao passo que novos contratempos me mantinham ali inerte e impotente. Decerto, Jackson já teria notificado a polícia em todas as cidades da redondeza, mas eu não tinha ilusões quanto à eficiência dessa polícia.

O máximo que podia fazer, logo percebi, era tomar o expresso noturno regular para a Cidade do México, que saía de Aguas Calientes e fazia uma parada de cinco minutos em Queretaro. Ele passaria por volta de uma da madrugada, se não estivesse atrasado, e chegaria à Cidade do México por volta das cinco da manhã de sábado. Quando adquiri minha passagem, soube que o trem seria composto de carruagens-compartimentos em estilo europeu, em vez dos longos vagões americanos com fileiras de duplos assentos. Esse tipo de carros tinha sido bastante usado nos primórdios da ferrovia mexicana, devendo-se aos interesses da construção européia nas primeiras linhas; e em 1889 a Central Mexicana dispunha de um bom número deles para pequenas viagens. Geralmente tenho preferência pelo tipo americano, desde que detesto ver as pessoas olhando para mim, mas nessa ocasião me alegrei com as carruagens estrangeiras. A essa hora da noite havia boa possibilidade de conseguir um compartimento exclusivo, e no meu cansado e nervosamente hipersensível estado saudaria de bom grado a solidão – bem como o confortável interior com poltronas e travesseiros, estendidos ao longo de todo o veículo. Comprei um bilhete de primeira classe, requisitei minha valise no vagão imobilizado, telegrafei para o presidente McComb e para Jackson informando o que tinha acontecido e me sentei na estação para esperar pelo expresso noturno tão pacientemente quanto meus nervos desgastados o permitiriam.

Espantosamente, o trem estava apenas meia hora atrasado; mesmo assim, a solitária vigília na estação tinha quase esgotado minha resistência. O condutor, introduzindo-me num compartimento, disse-me que esperava compensar o atraso e alcançar a capital ainda a tempo; e eu me estendi confortavelmente no banco que faceava com a dianteira do vagão, na expectativa de uma plácida corrida de três horas e meia. A luz da lâmpada sobre minha cabeça jorrava suavemente baça; e eu me perguntava se conseguiria dormir um pouco, a despeito de minha ansiedade e da tensão nervosa. Pareceu-me, enquanto o trem disparava adiante, que estivesse só, e me alegrei bastante com isso. Meus pensamentos saltavam à frente na perquirição, enquanto eu cabeceava ao ritmo cada vez mais célere da comprida linha de vagões.

Então percebi subitamente que não estava de todo só. No canto oposto a mim, encolhido de modo que sua face não pudesse ser vista, sentava-se um homem rudemente vestido, de tamanho inusual, o qual a débil luz não revelara antes. Ao seu lado havia uma enorme valise, surrada e algo repleta, e firmemente segura mesmo em seu sono por mãos incongruentemente delgadas. Quando a locomotiva apitou numa curva ou cruzamento, o adormecido pareceu despertar nervosamente para uma espécie de vigília semidesperta, levantando a cabeça e expondo agradáveis feições anglo-saxônicas, de barbas e olhos negros e brilhantes. Ao me ver, como que sua vigília se tornou completa, e pude perceber o modo hostil e selvagem de seu olhar. Sem dúvida, pensei, ele se ressentiria de minha presença quando teria esperado desfrutar do compartimento só para si, tal como eu também me desapontei ao encontrar uma companhia estranha na meia-luz do vagão. O melhor que podíamos fazer, no entanto, era aceitar a situação de modo educado; assim me pus a pedir desculpas ao homem pela minha presença. Como parecesse tratar-se de um confrade americano, talvez nos sentíssemos mais à vontade após algumas cortesias. Então poderíamos deixar-nos um ao outro em paz para agüentar as sacudidelas da viagem.

Para minha surpresa, o estranho não emitiu sequer uma palavra em resposta aos meus cumprimentos. Em vez disso, continuou olhando para mim de um modo feroz e quase avaliatório e afastou para o lado minha embaraçada oferta de cigarros com um movimento da mão desocupada. Sua outra mão permaneceu agarrada à grande e sovada valise, e toda a sua pessoa dava mostras de exalar uma obscura malignidade. Após algum tempo, ele voltou abruptamente o rosto em direção à janela, embora não houvesse nada para ver na densa escuridão exterior. Estranhamente, pareceu-me estar olhando alguma coisa de um modo tão atento como se houvesse realmente alguma coisa para olhar. Decidi abandoná-lo aos seus modos curiosos e às suas meditações, sem o incomodar mais; assim, me recostei ao assento, puxei a aba do chapéu sobre meu rosto e fechei os olhos num esforço para reatar aquele princípio de sono que há pouco vinha me tomando.

Não devo ter cochilado por muito tempo ou muito profundamente, quando meus olhos se abriram como se em resposta a alguma força externa. Fechando-os outra vez com determinação, renovei minha demanda pelo sono, entretanto inutilmente. Uma incógnita influência parecia manter-me desperto; levantando a cabeça, corri os olhos pelo compartimento mal iluminado para ver se alguma coisa estava errada. Tudo parecia normal, mas notei que o estranho do canto oposto olhava para mim muito atentamente – atentamente, sem a camaradagem ou a amabilidade que pudessem indicar uma mudança em sua atitude anterior. Desta vez não tentei iniciar conversa, mas permaneci recostado no assento, com os olhos entrefechados, como se ainda cochilasse, e no entanto a observá-lo furtivamente por baixo da aba do chapéu.

Enquanto o trem rumorejava através da noite, observei que uma sutil e gradual metamorfose baixara sobre as feições atentas do homem. Evidentemente satisfeito de que eu estivesse dormindo, ele deixou aflorar em seu rosto uma curiosa mistura de emoções, a natureza das quais seria tudo menos confiável. Ódio, medo, triunfo e fanatismo bruxulearam confusamente na linha de seus lábios e nos cantos de seus olhos, enquanto seu olhar se tornou um facho alarmante de raiva e ferocidade. De repente me ocorreu que esse homem poderia ser um louco assaz perigoso.

Seria mentira dizer que não fiquei bastante e profundamente amedrontado quando me dei conta do estado de coisas. Um suor frio começou a me inundar, e só com muito esforço eu pude manter minha atitude de relaxamento e sonolência. A vida ainda me parecia repleta de atrativos, e a idéia de ter de lidar com um maníaco homicida – provavelmente armado e capaz num grau inimaginável – era desalentadora e terrificante. Minha impotência em qualquer tipo de luta era enorme, e o homem parecia um verdadeiro gigante, possivelmente na sua melhor forma atlética, enquanto eu sempre fora frágil e me encontrava exausto devido à ansiedade, à ausência de sono e à tensão nervosa. Foi, inegavelmente, um péssimo momento; e me senti bem perto de uma morte horrível ao observar o furor de loucura que havia nos olhos desse estranho. Acontecimentos do passado retornaram à minha consciência como se para um adeus – tal como se diz que um homem prestes a se afogar vê toda a sua vida passar diante de seus olhos num único momento.

Decerto eu tinha ainda meu revólver no bolso do colete, mas qualquer esforço que fizesse para sacá-lo seria instantaneamente percebido. Além disso, se o apanhasse, não havia como predizer que efeito esse gesto teria sobre o maníaco. Mesmo que eu o alvejasse uma ou duas vezes, ele ainda teria força suficiente para arrebatar a arma e acabar comigo à sua própria maneira, ou se ele próprio estivesse armado poderia atirar em mim ou me esfaquear sem sequer tentar me desarmar. Pode-se tentar dominar um insano ameaçando-o com uma pistola, mas a completa indiferença de um insano às conseqüências de seus atos lhe dá força e audácia quase sobre-humanas. Mesmo naqueles dias pré-freudianos, eu tinha uma percepção, provinda do senso comum, da perigosa força de que dispõem as pessoas que não têm inibições normais. E de que o estranho no canto estava mesmo em vias de esboçar alguma ação assassina, seu olhar flamejante e suas feições retorcidas não me permitiam duvidar.

Subitamente senti que sua respiração se tornara ofegante e vi seu peito inflar em gradual excitação. Com pouco tempo para uma providência, comecei a pensar desesperadamente no que fazer. Sem deixar de fingir que estivesse dormindo, minha mão deslizou lenta e discretamente em direção ao bolso contendo a pistola, ao mesmo tempo em que eu vigiava fixamente o homem para ver se ele detectaria o movimento. Infelizmente ele o fez – um segundo antes de o registrar em sua expressão. Com um salto incrivelmente ágil e abrupto para um homem de seu tamanho, ele se lançou sobre mim antes mesmo que eu compreendesse o que tinha ocorrido, assomando e avançando como um ogro gigante das lendas e imobilizando-me com mão poderosa enquanto com a outra me impedia de alcançar o revólver. Arrancando-o de meu bolso e depositando-o no seu, ele me largou com desdém, certo de que seu enorme físico me manteria à sua mercê. Então se pôs inteiramente de pé – sua cabeça quase tocando o teto do vagão – e mirou-me com olhos cuja fúria tinha rapidamente se convertido num ríctus de desprezo e vulturino cálculo.

Não me movi, e depois de um instante o homem retomou seu assento original, sorrindo sombriamente enquanto abria sua enorme valise e extraía dela um artefato de muito peculiar aparência – uma gaiola grande de arame semi-flexível, trançado mais ou menos à maneira de uma máscara de beisebol, mas modelado no formato de um capacete para escafandro. Seu topo estava conectado a um cordão cuja outra extremidade permanecia na valise. Esse engenho ele o tratava com óbvia afeição, aninhando-o em seu colo enquanto olhava para mim novamente e lambia os pêlos em torno de seus lábios com um movimento felino da língua. Então, pela primeira vez, ele falou – numa voz moderada e doce, de uma suavidade e de uma ponderação calculada que contrastavam com suas vestimentas rústicas e seu aspecto desalinhado.

“Você é um afortunado, sir. Vou usá-lo antes de todos os outros. Você entrará para a história como o primeiro fruto de uma notável invenção. Vastas conseqüências sociológicas – minha luz há de brilhar, como convém. Tenho brilhado o tempo todo, mas ninguém sabe disso. Agora você saberá. Cobaia inteligente. Gatos e burros – funcionou até com um burro...”

 Fez uma pausa, enquanto suas feições peludas esboçaram um movimento convulsivo, em sincronia com um vigoroso estremecimento giratório de toda a cabeça. Era como se ele estivesse se livrando de alguma nebulosa substância que o incomodasse, pois o gesto foi seguido por uma clarificação ou sutilização de expressão que escondia a mais evidente insanidade numa aparência de suave compostura, através da qual a malignidade transparecia apenas imperfeitamente. Percebi de imediato a diferença e aventei uma palavra para ver se poderia reconduzir sua mente a menos perigosos canais. “Parece que você tem em mãos um instrumento maravilhoso e sutil, se sou capaz de julgar. Não me diria como veio a inventá-lo?”

 Anuiu com a cabeça.

“Mera reflexão lógica, meu caro senhor. Estudei as necessidades da época e agi em concordância com elas. Outros poderiam ter feito o mesmo, tivessem disposto de uma mente tão poderosa – isto mesmo, tão capaz de concentração prolongada – quanto a minha. Eu tinha a convicção – o indispensável poder de vontade –, e eis tudo. Concluí, como ninguém antes teria concluído, que era imperativo remover todos os homens da face da terra antes que Quetzalcoatl retornasse, e concluí também que isso devia ser feito elegantemente. Detesto carnificina de qualquer tipo, e o enforcamento é barbaramente grosseiro. Você sabe que no ano passado o legislativo de Nova Iorque votou pelo emprego da execução elétrica para condenados – mas todo o aparato que eles têm em mente é tão primitivo quanto o 'foguete' de Stephenson ou a primeira engenhoca elétrica de Devenport. Eu conhecia um meio mais apropriado, e lhes disse isso, mas eles não me deram atenção. Por Deus, os idiotas! Como se eu não soubesse tudo o que se deve saber sobre homens e morte e eletricidade – estudante, homem e menino – tecnólogo e engenheiro – mercenário...”

Ele se reclinou e estreitou as pálpebras.

“Estive no exército de Maximiliano há mais de vinte anos. Iam fazer de mim um nobre. Então esses esfarrapados o mataram, e eu tive de voltar para casa. Mas eu vim – vim e voltei, vim e voltei. Vivo em Rochester, Nova Iorque...”

Seus olhos se tornaram mais malignos, e ele pendeu para a frente, tocando-me o joelho com os dedos de uma mão paradoxalmente delicada.

“Eu voltei, é o que fiz, e fui mais fundo do que qualquer um deles. Odeio esses esfarrapados, mas gosto dos mexicanos! Um quebra-cabeça? Ouça-me, meu jovem – você não crê que o México seja realmente espanhol, crê? Por Deus, se você tivesse conhecido as tribos que eu conheço! Nas montanhas – nas montanhas – Anahuac – Tenochtitlan – os antigos...”

Sua voz se tornou um uivo cantante, algo melodioso.

“Iä! Huitzilopotchili!... Hahuatlacatl! Sete, sete, sete... Xochimilca, Chalca, Tepaneca, Acolhua, Tlahuica, Tlascalteca, Azteca!... Iä! Iä! Estive nas Sete Cavernas de Chicomoztoc, mas ninguém nunca saberá! Eu lhe conto, porque você nunca irá repeti-lo...”

Recompôs-se e retomou o tom de conversa.

“Você se surpreenderia se soubesse das coisas que são contadas nas montanhas. Huitzilopotchli está para voltar... Sobre isso não há nenhuma dúvida. Qualquer peão ao sul da Cidade do México pode lhe falar sobre isso. Mas eu não queria fazer nada a respeito. Voltei para casa, como lhe digo, de novo e de novo, e estava prestes a beneficiar a sociedade com meu executor elétrico quando aquela amaldiçoada lei de Albany adotou o outro método. Uma piada, sir, uma piada! Cadeira do vovô – próximo à lareira – Howthorne...”

O homem parecia vibrar numa mórbida paródia de bonomia.

“Ora, sir, eu gostaria de ser o primeiro homem a sentar em sua maldita cadeira e a sentir a corrente de sua ridícula bateria! Sequer faria uma perna de sapo dançar! E esperam liquidar assassinos com ela – recompensa do mérito – tudo! Mas então, meu jovem, eu vi a inutilidade – a desapontadora falta de lógica em se matar uns poucos apenas. Todos são assassinos – eles assassinam idéias – roubam invenções – roubaram a minha espreitando, espreitando, espreitando...”

O homem sufocou e parou, e eu disse, apaziguador: "Estou certo de que sua invenção era a melhor e de que eles provavelmente a usarão no final.”

“Certo, você diz? Bela, modesta, conservadora certeza! Ao diabo sua preocupação – mas você logo conhecerá! Ora, para o inferno, todo o benefício que aquela cadeira elétrica trará terá sido roubado de mim. O fantasma de Nezahualpilli me disse isso na montanha sagrada. Eles observaram, observaram, observaram...”

Engasgou novamente e então fez de novo um daqueles gestos com que agitava tanto a cabeça quanto a expressão facial. Isso pareceu contê-lo por um instante.

“O que minha invenção necessita é de teste. É isso – aqui. O capuz de arame ou aparato para cabeça é flexível e desliza com facilidade. Uma coleira o prende, sem sufocar. Eletrodos tocam a fronte e a base do cerebelo – tudo o que é preciso. Pare a cabeça, e o que mais funciona? Os idiotas lá de Albany, com aquela espreguiçadeira de carvalho, acham que têm de fazê-lo da cabeça aos pés. Estúpidos! – não sabem que não é preciso atirar num homem depois que você lhe destruiu o cérebro? Vi homens morrer em batalhas – conheço melhor. E então o seu tolo circuito de alta potência – dínamos – tudo o mais. Por que não viram o que eu tinha feito com a pilha voltaica? Nenhuma audiência – ninguém sabe – eu somente tenho o segredo – eu e eles, se eu resolvo permitir a eles... Mas preciso fazer experimentos – pacientes – você sabe quem escolhi para começar?"

Tentei parecer jovial, entrando rapidamente numa amável seriedade, como um sedativo. Pensamento rápido e hábeis palavras poderiam salvar-me ainda.

“Bem, há um monte de pacientes entre os políticos de São Francisco, de onde venho! Precisam de seu tratamento, e eu gostaria de ajudar você a ministrá-lo. Mas, realmente, penso que poderei ajudá-lo, com toda verdade. Tenho alguma influência em Sacramento, e se você retornar comigo para os Estados Unidos depois que eu tiver concluído meus negócios no México, farei com que você consiga uma audiência.”

Ele respondeu com sobriedade e bons modos.

“Não – não posso retornar. Fiz esse juramento quando aqueles bandidos de Albany desdenharam minha invenção e colocaram espiões para me seguir e me roubar. Mas eu preciso ter pacientes americanos. Estes esfarrapados estão sob maldição, e seria fácil demais; os indígenas de puro sangue – os reais filhos da serpente emplumada – são sagrados e invioláveis exceto como vítimas sacrificiais... e mesmo esses precisam ser abatidos de acordo com o cerimonial. Eu preciso ter americanos sem retornar – e o primeiro que eu escolho será dignamente honrado. Você sabe quem é?”

Tergiversei desesperadamente.

“Oh, se esse é o problema, conseguirei para você uma dúzia de espécimes ianques de primeira linha, tão logo cheguemos ao México! Sei onde existem montes de pequenos mineradores cuja falta não seria notada durante dias...”

Mas ele me interrompeu bruscamente com um novo e repentino ar de autoridade que teria um toque de real dignidade.

“Chega – já nos distraímos o bastante. Levante-se e permaneça de pé como um homem. Você é o paciente que escolhi e há de me agradecer por essa honra no outro mundo, tal como a vítima sacrificial agradece ao sacerdote por transferi-la para a glória eterna. Um novo princípio – nenhum homem vivo sonhou com semelhante bateria, e ela nunca seria descoberta outra vez mesmo que se passassem mil anos. Sabe que os átomos não são o que aparentam? Tolos! Um século depois algum imbecil estaria conjeturando se eu deixaria o mundo viver!”

Ergui-me ao seu comando, e ele puxou da valise alguns palmos adicionais de fio, colocando-se de pé ao meu lado, o capacete de arame suspenso pelas duas mãos e uma expressão de real exaltação em seu rosto peludo e bronzeado. Por um momento, sua aparência lembrou a de um radiante mistagogo ou hierofante helênico.

“Aqui, ó Jovem – uma libação! Vinho do cosmos – néctar dos espaços estelares – Linos – Iacchus – Ialemus – Zagreus – Dioniso – Átis – Hylas – nascido de Apolo e dilacerado pelos cães de Argos – rebento de Psamathe – filho do sol – Evoé! Evoé!”

Estava cantando outra vez, e agora sua mente parecia imergir por entre as clássicas memórias de sua época de catecismo. Em minha postura ereta, notei a proximidade do fio que se ligava ao capacete e cogitei se não poderia alcançá-lo por meio de algum gesto de resposta ostensiva ao seu espírito cerimonial. Valia a pena tentar; portanto, com um brado antifônico de “evoé!”, estirei meus braços em direção a ele, numa atitude ritualística, na expectativa de dar um arranco no cordão antes que ele o notasse. Mas foi em vão. Ele percebeu meu propósito e pousou uma mão sobre o bolso direito do casaco onde meu revólver jazia. Palavras eram dispensáveis, e nos imobilizamos por um momento, como figuras entalhadas. Por fim ele disse em voz baixa: “Apresse-se!”

Outra vez minha mente se pôs a procurar freneticamente por possibilidades de fuga. As portas, eu sabia, não eram trancadas nos trens mexicanos; mas meu acompanhante poderia facilmente barrar minha passagem se eu tentasse escancarar uma delas e saltar para fora. Além do mais, nossa velocidade era tão grande que provavelmente o sucesso nesse sentido seria tão fatal quanto o fracasso. A única coisa a fazer era ganhar tempo. Das três horas e meia de viagem uma boa parte já se tinha escoado, e quando chegássemos à Cidade do México os guardas e a polícia da estação garantiriam imediata segurança.

Haveria, pensei, duas ocasiões distintas para rodeios diplomáticos. Se eu pudesse fazê-lo protelar a colocação do capuz, um bom tempo seria ganho. Certamente não me passava pela cabeça que a coisa pudesse ser mortal, mas eu tinha suficiente conhecimento de loucos para imaginar o que aconteceria quando ela falhasse. Ao seu desapontamento se somaria uma louca presunção de minha responsabilidade no fracasso, a qual dominaria sua atenção e o conduziria a mais ou menos extensas perquirições por influxos corretivos. Perguntava-me até que ponto iria sua credulidade ou se eu poderia preparar, com antecipação, alguma profecia do fracasso que faria o fracasso em si mesmo transfigurar-me diante de seus olhos num visionário ou num iniciado ou quem sabe num deus. Meus rudimentos de mitologia mexicana eram bastantes para me incentivar a essa alternativa, embora eu pretendesse tentar outras influências proteladoras antes e deixar que a profecia caísse como uma súbita revelação. Iria ele me poupar no final, caso eu conseguisse fazê-lo crer que eu era um profeta ou uma divindade? Podia eu “dar uma de” Quetzalcoatl ou Huitzilopotchli? Qualquer coisa para arrastar a questão até as cinco horas, quando estava previsto chegarmos à Cidade do México.

Mas a minha primeira evasiva foi o veterano artifício da “última vontade”. Enquanto o maníaco repetia que eu me apressasse, falei-lhe de minha família e de meu casamento marcado e solicitei o privilégio de deixar uma mensagem e dispor de meu dinheiro e heranças. Se ele fizesse a gentileza, eu disse, de me arranjar algum papel e colocar no correio o que eu iria escrever, minha morte seria mais pacífica e mais agradecida. Após alguma cogitação, ele anuiu e procurou em sua valise um bloco de folhas, o qual estendeu para mim com solenidade enquanto eu retomava meu assento. Arranjei um lápis, quebrando habilmente a ponta e produzindo mais alguma demora na medida em que ele se pôs a procurar por outro. Quando o encontrou, tomou o que eu tinha quebrado e tratou de apontá-lo com uma grande faca em forma de chifre que estivera presa ao seu cinto por sob o casaco. Evidentemente uma segunda quebra não seria de muito proveito para mim.

Do que escrevi mal posso me lembrar hoje em dia. Era vastamente sem sentido e foi composto em largos rabiscos de uma literatura que eu extraía da memória quando não podia pensar em nada melhor para escrever. Procurei fazer uma caligrafia o menos legível possível, evitando apenas destruir sua natureza de escrito, pois era provável que ele desejasse lê-lo antes de começar seu experimento, e eu temia o modo como pudesse agir à visão de um evidente nonsense. A situação se assomava terrível, e eu sofria cada segundo que a lentidão do trem propiciava. No passado eu costumava assobiar uma rápida melodia ao saltitante “tique-taque” das rodas sobre os trilhos, mas agora o andamento parecia o de uma marcha fúnebre – o da minha marcha fúnebre, refleti duramente.

Meu truque funcionou até que cobri quatro páginas, seis por nove, ao fim do que o homem sacou do relógio e me disse que eu teria apenas mais cinco minutos. O que fazer em seguida? Pensava rapidamente num modo de concluir o testamento, quando uma nova idéia me ocorreu. Terminando com um floreado e estendendo a ele as folhas, que ele meteu descuidadamente no bolso esquerdo de seu casaco, falei-lhe de meus amigos influentes em Sacramento, que ficariam grandemente interessados em sua invenção.

“Não deveria dar a você uma carta de apresentação?”, perguntei. “Não deveria fazer um esboço assinado e uma descrição de seu executor, de modo que eles lhe concedam uma audiência amigável? Podem fazê-lo famoso, você sabe – e não há nenhuma dúvida de que adotarão o seu método no estado da Califórnia, caso sejam informados por alguém como eu, que eles conhecem e em quem confiam.”

Escolhi esse caminho na eventualidade de que seus próprios pensamentos como inventor frustrado o fizessem esquecer, por algum tempo, o lado asteca-religioso de sua mania. Quando ele se voltasse para esse último aspecto, refleti, eu dispararia a “revelação” e a “profecia”. Tal plano funcionou, pois seus olhos refletiram um brilho ambicioso, embora ele exigisse rispidamente que eu me apressasse. Em seguida esvaziou a valise, retirando dela um inusitado aparato feito de tubos de vidro e bobinas ao qual o cordão do capacete estava conectado e despejando sobre mim uma torrente de comentários técnicos demais para serem compreendidos, que no entanto não deixavam de ter alguma plausibilidade. Fingi tomar nota de tudo o que ele dizia, no fundo me perguntando se aquilo não seria de fato uma bateria elétrica. Seria leve o choque proporcionado pela geringonça? O homem realmente falava como um genuíno eletricista. Descrever sua invenção era claramente uma tarefa congênita para ele, e logo vi que não estava mais tão impaciente como antes. Enquanto ele se preparava, o auspicioso cinza da madrugada já brilhava lá fora, e calculei que finalmente minha chance de escapar se tornara tangível.

Mas ele também percebeu a aurora, o que fez ressurgir o brilho selvagem em seus olhos. Ele sabia que o horário de chegada à Cidade do México era às cinco e certamente forçaria uma ação mais rápida, a menos que eu pudesse suplantar suas idéias com argumentos mais convincentes. Quando ele se ergueu, com um ar determinado, acomodando a bateria sobre o assento ao lado da valise, lembrei-lhe que eu ainda não tinha feito o indispensável esboço e pedi que segurasse o capacete de modo que eu pudesse desenhá-lo junto da bateria. Ele se queixou e retomou seu assento, com muitas admoestações para que eu me apressasse. Após outro momento, fiz uma pausa para pedir certa informação, perguntando a ele de que modo a vítima era preparada para a execução e como suas presumíveis resistências teriam de ser vencidas.

“Ora”, ele replicou, “o criminoso é firmemente amarrado a um poste. Não importa o quanto ele movimente a cabeça, pois o capacete se ajusta perfeitamente e se torna mais firme quando a corrente entra em ação. Acionamos o interruptor gradualmente – como você vê aqui, uma ligação cuidadosamente preparada, com um reostato”.

Uma nova idéia para protelação me ocorreu quando os campos cultivados e o casario cada vez mais freqüente começaram a dizer que finalmente nos aproximávamos da capital.

“Contudo”, formulei, “preciso desenhar o capacete numa cabeça humana tanto quanto junto da bateria. Você poderia vesti-lo por um instante, de modo que eu possa esboçá-lo? Os jornais e certamente os oficiais solicitarão esses detalhes, pois costumam ser exigentes em tais coisas”.

Meu tiro chegara, por acaso, mais próximo do alvo do que eu planejara, pois à menção da imprensa os olhos do louco brilharam vivamente.

“Os jornais? Sim – para o diabo, você pode fazer até os jornais me darem ouvidos! Riram de mim e não imprimiriam uma palavra. Aqui, apresse-se! Não há um segundo a perder.

“Agora, malditos sejam, imprimirão as imagens! Revisarei o seu esboço se você cometer algum engano – há que ser minucioso a todo custo. A polícia encontrará você mais tarde – dirão como funciona. Associated Press idem – reproduzirão sua carta – fama imortal... Rápido, rápido – é o que digo, diabos o levem!”

O trem se aproximava da pobre estrada perto da cidade, e, como nos balançássemos desconcertadamente numa ou noutra ocasião, aproveitei essa desculpa para quebrar o lápis mais uma vez; mas evidentemente o maníaco me devolveu de imediato o meu próprio lápis, que ele havia apontado. Minha primeira carga de pretextos se esgotara, e senti que acabaria tendo de me submeter ao capacete. Estávamos ainda a um bom quarto de hora do terminal, e já era tempo de apelar para o lado religioso de meu acompanhante e disparar a profecia.

Revolvendo meus rudimentos de mitologia Nahuan-Asteca, atirei num ímpeto lápis e papel ao chão e comecei a cantar.

“Ia! Ia! Tloquenahuaque, Tu que estás inteiro em Ti mesmo! Tu, também, Ipalnemoan, por Quem nós vivemos! Eu ouço, eu ouço! Eu vejo, eu vejo! Águia que suspende a serpente, salve! Uma mensagem! Uma mensagem! Huitzilopotchli, em minha alma ecoa o teu trovão!”

Ouvindo minha entoação, o maníaco olhou embasbacado através de sua máscara grotesca, sua bela face repleta de surpresa e incredulidade que rapidamente se converteram em alarme. Sua mente pareceu esvaziar-se num instante e então cristalizar-se num novo estado. Levantando bem alto as mãos, ele cantou, como se num sonho.

“Mictlanteuctli, grande Senhor, um sinal! Um sinal que provenha de tua negra caverna! Ia! Tonotiuh-Metztli! Cthulhu! Ordena, que eu servirei!”

Agora, em meio a toda essa algaraviada, uma palavra tangeu estranha corda em minha memória. Estranha, porque ela nunca ocorre em nenhum relato escrito sobre a mitologia mexicana e no entanto havia sido ouvida por mim mais de uma vez, como um terrificante sussurro, entre os peões das minas de minha própria firma em Tlaxcala. Parecia fazer parte de um ritual extremamente antigo e secreto, pois havia jaculatórias características que eu ouvira aqui e ali e que eram tão desconhecidas quanto o ritual para o saber acadêmico. Esse maníaco devia ter passado um bom tempo entre os peões e os indígenas, tal como tinha dito, pois certamente esse conhecimento não registrado não poderia ter vindo de estudos livrescos. Percebendo a importância que teria para ele esse jargão duvidosamente esotérico, tomei a decisão de ferir o seu ponto mais vulnerável e dar a ele um pouco da algaraviada que os nativos empregavam.

“Ya-R'lyeh! Ya-R'lyeh!", bradei. “Cthulhu fhtaghn! Nigurat-Yig! Yog-Sototl!...”

Mas jamais cheguei a terminar. Galvanizado numa epilepsia religiosa pela exata resposta que o seu subconsciente não teria provavelmente esperado, o louco lançou-se ao chão de joelhos, elevando e baixando várias vezes a cabeça coberta pelo capacete e virando-a para a direita e para a esquerda enquanto fazia isso. A cada nova ocasião sua reverência se tornava mais profunda, e eu podia ouvir seus lábios espumantes repetindo “mate, mate, mate”, num ritmo acelerado e monótono. Ocorreu-me então que eu tivesse passado da conta, pois minha jaculatória libertara nele um crescente frenesi que provavelmente o conduziria à compulsão de matar antes que o trem chegasse à estação.

À medida que seus giros se alargavam, a folga do fio proveniente do capacete era mais e mais consumida. A essa altura, num arrebatado delírio de êxtase, ele começou a dar voltas maiores, que se fechavam em círculos, ao ponto que aquele se enrolou em seu pescoço e passou a exercer pressão sobre a extremidade conectada à bateria sobre o assento. Perguntei-me pelo que ele faria quando o inevitável acontecesse e a bateria fosse arrastada para uma presumível destruição contra o piso.

Então ocorreu o inesperado cataclismo. A bateria, arrancada de sua posição pelo último gesto orgiástico do maníaco em frenesi, acabou caindo de fato; mas não pareceu danificar-se na queda. Ao contrário, como pude ver num lampejo, o impacto fora absorvido pelo reostato, de um modo que fez com que o interruptor fosse instantaneamente ligado em máxima corrente. E o mais impressionante é que havia, de fato, corrente. A invenção não era apenas um sonho gerado pela insanidade.

Assisti a uma coruscação azul e cegante, ouvi um ulular agudo e mais horrendo do que todos os gritos anteriores daquela louca e terrificante jornada e senti um cheiro nauseante de carne queimada. Foi tudo o que minha consciência sobrecarregada pôde suportar, porque num instante perdi os sentidos.

Quando o guarda de trens na Cidade do México me reavivou, encontrei uma multidão que se apinhava em torno à porta de meu compartimento. Ao meu choro involuntário, as faces que se apertavam ali tornaram-se curiosas e incrédulas, e fiquei feliz quando o guarda expulsou todos exceto um alinhado doutor que avançou aos empurrões até mim. Meu choro era uma coisa perfeitamente natural, mas tinha sido estimulado por algo mais do que a visão chocante que eu esperara descobrir sobre o piso do vagão. Ou, devo dizer, por algo menos, porque na verdade não havia nada no piso.

Nem, como disse o guarda, tinha havido, quando ele abriu a porta e me encontrou inconsciente. Minha passagem tinha sido a única vendida para aquele compartimento, e eu fora a única pessoa achada ali dentro. Somente eu e minha valise, e nada mais. Eu estivera sozinho durante todo o trajeto desde Queretaro. Guarda, médico e espectadores tocaram suas testas de um modo significativo, enquanto ouviam minhas insistentes e frenéticas indagações.

Teria sido tudo um sonho, ou estaria eu realmente louco? Rememorei minha ansiedade e a exaustão de meus nervos, e dei de ombros. Agradecendo ao guarda e ao médico e me livrando da multidão curiosa, arrastei-me até um táxi e fui conduzido para o Fonda National, onde, depois de telegrafar a Jackson na mina, dormi até o entardecer, num esforço para me recompor e reentrar na posse de mim mesmo. Instruí para que me chamassem à uma hora, em tempo de tomar a bitola estreita rumo à mineração, mas, quando acordei, encontrei um telegrama debaixo da porta. Era de Jackson e dizia que Feldon fora encontrado morto nas montanhas naquela manhã, chegando a notícia à mina por volta das dez horas. Os papéis estavam salvos, e o escritório de São Francisco tinha sido devidamente notificado. Assim a viagem toda, com sua afobação e seu desgaste mental, não tinha servido para nada.

Sabendo que McComb aguardava um relatório pessoal, a despeito do curso dos eventos, encaminhei uma resposta e tomei a bitola estreita afinal. Quatro horas depois, entre solavancos, eu desembarcava na estação da mina número 3, onde Jackson estava à minha espera para me dar as boas vindas. Ele estava tão ocupado com os acontecimentos na mina, que mal se deu conta de minha aparência sovada e devastada.

A história do superintendente era breve, e ele a contou enquanto me conduzia através das instalações em direção à encosta perto do arrastro, onde o corpo de Feldon ainda jazia. Feldon, ele disse, sempre tinha sido uma figura estranha e taciturna, desde o tempo em que fora empregado, no ano anterior; trabalhava nalgum tipo de aparelho mecânico e reclamava de constante espionagem, além de ser desagradavelmente familiar com os trabalhadores nativos. Mas ele certamente conhecia o trabalho, o país e o povo. Costumava fazer longas viagens às colinas onde os peões habitavam e, mesmo, tomava parte em algumas de suas cerimônias ancestrais e pagãs. Mencionava insuspeitados segredos e estranhos poderes tão freqüentemente quanto se gabava de suas habilidades mecânicas. Nos últimos tempos ele decaíra rapidamente, tornando-se morbidamente suspeito acerca de seus colegas e sem dúvida coligando-se com seus amigos nativos no roubo de minério, quando o dinheiro minguou. Ele precisava de um absurdo volume de capital para uma coisa ou outra – estava sempre recebendo caixas provenientes de laboratórios e lojas de máquinas da Cidade do México ou dos Estados Unidos.

Quanto ao seqüestro dos papéis, teria sido apenas um ato maluco de vingança contra o que ele chamava de “espionagem”. Estava bem louco, certamente, até porque tinha se enfurnado no país em busca de uma caverna escondida nas alturas de Sierra de Malinche, onde nenhum branco vivia, e lá fizera as coisas mais estapafúrdias. A caverna, que não fosse pela derradeira tragédia nunca teria sido encontrada, estava repleta de altares ultrajantes e ídolos astecas, os altares cobertos de ossos chamuscados de oferendas recentes cuja natureza era obscura. Os nativos nada diziam – na verdade juraram nada saber –, mas era fácil perceber que a caverna era um local de encontro para eles e que Feldon tinha compartilhado amplamente de suas práticas.

Os homens da busca tinham encontrado o lugar somente por causa da cantoria e do grito final. Teria sido próximo às cinco daquela manhã, e após uma noite de acampamento o grupo começara a arrumar suas coisas para um retorno de mãos vazias às minas. Então alguém ouviu uns vagos rumores na distância e compreendeu que um daqueles velhos rituais blasfemos estava em andamento nalgum socalco solitário da montanha em forma de cadáver. Ouviram os mesmos velhos nomes – Mictlanteuctli, Tonatiuh, Cthulhu, Ya-R'lyeh e todo o resto –, mas o mais extravagante era que algumas palavras inglesas se misturavam a eles. Efetivo inglês de homem branco e não algaraviada de caboclo. Guiados pelo som, eles correram para aquele recanto selvagem da montanha, e então, depois de um silêncio agourento, o grito explodiu sobre eles. Foi uma coisa horrível – a pior coisa que qualquer deles tinha ouvido em toda a sua vida. Parecia haver fumaça também e um cheiro mórbido e acre.

Meteram-se na caverna, a entrada protegida por algarobeiras, mas agora exalando nuvens de fumaça fétida. Havia luz lá dentro, o indescritível altar e as imagens dubiamente reveladas pelo brilho das velas que devem ter sido repostas menos de meia hora antes; e sobre o piso nu jazia o horror que fez com que todos recuassem. Era Feldon, a cabeça queimada ao ponto de carvão por algum estranho aparelho que a envolvia – uma espécie de gaiola de arame conectada a uma bateria mais ou menos escangalhada que decerto teria caído de um dos altares vizinhos. Quando os homens a viram, trocaram olhares entre si, lembrando-se do “executor elétrico” sobre o qual Feldon bravateara tantas vezes – a coisa que todos rejeitaram mas que tinham tentado roubar e copiar. Os papéis estavam a salvo no baú de Feldon logo ao lado, que jazia aberto; e uma hora depois a coluna de buscadores retornava à número 3 carregando seu pavoroso fardo sobre uma liteira improvisada.

Isso era tudo, mas era o bastante para me fazer empalidecer e tropeçar enquanto Jackson me conduzia do arrastro de volta ao barracão onde me disse que o corpo jazia. Desde que eu não era destituído de imaginação, sabia bastante bem em que tipo de pesadelo infernal essa tragédia sobrenaturalmente se encaixava. Eu sabia o que ia encontrar por trás daquela abertura em torno à qual os mineiros curiosos se aglomeravam e não recuei quando meus olhos caíram sobre o enorme corpo, as vestes emporcalhadas, as mãos incrivelmente delicadas, os tufos de barba chamuscada, e a máquina infernal – a bateria algo avariada e o elmo escurecido pela chamuscadura do que havia dentro. O enorme baú não me surpreendeu; apenas estremeci diante de duas coisas – as folhas de papel dobrado que despontavam do bolso direito do casado. Num momento em que ninguém estava olhando, agarrei as folhas tão familiares, amassando-as entre meus dedos sem ousar examinar a caligrafia. Ressinto-me hoje de que um tipo de pânico me tenha feito queimá-las naquela mesma noite, sem coragem de olhar para elas. Poderiam servir como prova, ou contraprova, de alguma coisa – mas quanto a isso eu também poderia ter obtido provas pedindo para ver o revólver que o investigador retirara do bolso esquerdo do casaco. Nunca tive coragem de perguntar a respeito – porque meu próprio revólver desaparecera após a noite no trem. Meu lápis de bolso, também, exibia sinais de uma aparação grosseira e apressada, em vez da cuidadosa ponta que eu lhe tinha feito sexta-feira, usando o aparelho do vagão particular do presidente McComb.

Assim, no final, retornei para casa intrigado – miseravelmente intrigado, talvez. O vagão particular tinha sido reparado, quando retornei a Queretaro, mas o meu alívio maior foi cruzar o Rio Grande rumo a El Passo e aos Estados Unidos. Antes da próxima sexta-feira, já estava de novo em São Francisco; e o adiado casamento finalmente ocorreu na semana seguinte.

Sobre o que realmente teria acontecido naquela noite, conforme disse, simplesmente não ouso especular. O tal de Feldon estaria insano, para começar, e por cima de sua insanidade ainda amontoara toda aquela feitiçaria asteca pré-histórica, que a ninguém caberia o direito de conhecer. Era realmente um gênio inventivo, e aquela bateria teria sido uma aquisição genuína. Ouvi depois coisas a respeito do modo como fora menosprezado pela imprensa, pelo público e pelas autoridades em geral. Tantos desapontamentos não fazem bem a certos tipos de homens. De qualquer modo, funcionou aí uma combinação maléfica de influências. A propósito, ele realmente tinha sido um soldado de Maximiliano.

Quando conto minha história, muita gente me acusa de mentiroso. Outros a atribuem a uma psicologia anormal – e Deus sabe o quanto eu estava combalido –, enquanto outros falam ainda de “projeção astral” e quejandos. Minha ânsia de alcançar Feldon certamente orientou meus pensamentos em direção a ele, e por efeito de toda a sua magia indígena ele teria sido o primeiro a captá-los e a reconhecê-los. Teria ele estado naquele vagão de estrada de ferro, ou eu é que estive na montanha em forma de cadáver? Que teria sido de mim, se não o tivesse "embrulhado" como fiz? Confesso que não sei e não estou certo de desejar saber. Nunca mais retornei ao México desde então – e, como disse no começo, não gosto de falar sobre execuções elétricas.

H.P. Lovecraft e Adolphe de Castro

(Traduzido por Renato Suttana, confiram a página original clicando aqui)

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