Trek to Yomi | Se sinta em um filme japonês dos anos 60

Esse é um jogo que, assim como a maioria, me chamou a atenção especialmente pelo seu visual tão peculiar. Não é que não existam jogos em preto e branco, mas esse carregava junto toda uma atmosfera, apresentando algo elegante, um Japão Feudal com visual preto e branco que facilmente fazia lembrar filmes da década de 60. E assim fui dar uma conferida.

A história te coloca no papel de Hiroki, um aprendiz de samurai que é ensinado por seu mestre, chamado Sanjuro. No entanto, certo dia o mestre precisa sair para resolver algo e a filha dele, Aiko, começa a desconfiar que algo perigoso está acontecendo. Esse é apenas o início de uma jornada sangrenta que causará ao garoto uma forte ligação com a moça, tendo seus destinos ligados e cercados por morte.
Tenho que dizer que me enganei plenamente em relação à jogabilidade do jogo. Eu julgava que seria algo tipo Musashi vs Cthulhu, que atrai pelo visual, tem uma temática interessante, mas que o foco acaba sendo mesmo andar e bater. No entanto o que temos aqui não é algo que tenta encantar somente nesses elementos, mas na atmosfera por completo.

A grande surpresa foi ver que o jogo realmente tenta ser uma experiência cinematográfica como um filme. Conta com uma constante dublagem, seja com pessoas conversando coisas casuais na rua, seja o seu personagem pensando algo ou mesmo conversando com inimigos antes de encontrá-lo. Essa frequência constante de falas já deixam o jogo muito mais robusto do que o normal.
Porém o que realmente transforma a coisa em algo cinematográfico, é que o filme é claramente inspirado pela obra de Akira Kurosawa, e você percebe que os criadores não decidiram simplesmente criar ambientes aleatórios no Japão antigo, mas ir além e pensar realmente em enquadramentos do tipo posições de câmeras e à partir desse enquadramento posicionar vários elementos que encantam.

Inclusive, aí está outra surpresa, ao contrário do que pensei, o jogo não é meramente um 2.5D, com o personagem sempre andando de lado. Essas partes são apenas quando você enfrenta inimigos, pois em boa parte do tempo você vaga de forma bem mais livre, indo para o fundo do cenário ou se aproximando da câmera, algo meio no estilo dos Resident Evil antigos.
E aproveitando disso, os caras somaram o elemento cinematográfico, deixando tudo mais intenso. Por exemplo quando estão invadindo a cidade no começo do jogo, em uma das câmeras, você vê seu personagem através da janela do segundo andar de uma casa onde é possível ver pessoas chorando e murmurando algo com medo, o que te faz sentir que você está nessa casa com elas, observando o samurai andando lá embaixo.
Os efeitos em geral são magníficos e atmosféricos, a ventania na vegetação sempre presente que faz parecer uma madrugada misteriosa e a luz e sombra sempre tão gritante dão um toque maravilhoso. Por exemplo em alguns momentos em que você invade casas e começa lutas, porém nem sempre é possível ver o personagem e às vezes você vê apenas a sombra deles por trás daquelas paredes de papel japonesas.
Apesar de tudo, o jogo tem seus defeitos e mesmo com a liberdade de andar pelo cenário, infelizmente não tem muitos puzzles desafiadores. Eles sempre estão ali presentes, mas acabam sendo um pouco preguiçosos, sendo que a maioria é de selecionar símbolos, sendo poucos que você acaba se ferrando de surpresa, como o de um barco que você faz o nível da água subir, mas se esquecer de cortar a corda, você se afoga.

O combate também pode ser frustrante e não parece balanceado. Embora existam variações de golpes, alguns são tão apelões, que não parece valer tanto a pena usar outros, cima, ataque leve duas vezes e depois ataque forte é o tipo de ataque cabuloso que no fim das contas eu sempre me via usando de novo assim que a coisa apertasse.
Muitas vezes eu morria de forma tão absurda, que a sensação é que eu só ia passar na base da sorte. O jogo conta com rolagem, defesa, movimento para trocar de lado com o oponente e outras coisas, mas parece que faltou um polimento nisso e não dá muito a sensação de controle. Pode ser que seja extremamente fácil para uns, só usando os ataques apelões, ou super difícil para outros, enfrentando coisas como chefes te atacando antes mesmo de você terminar de desembainhar a katana e poder ter controle do personagem.
 
Talvez pela proposta oriental, acredito que boa parte das pessoas estava esperando por um SIFU com katanas, mas acaba realmente faltando muito polimento no combate para te fazer sentir isso. Enquanto o começo pode parecer muito difícil, a quantidade de savepoints acaba te empolgando pra continuar, mas depois que você pega o jeito, aquela sensação de jogo difícil que te faz repetir de novo e de novo passa e se você souber repetir o movimento apelão, pode só sair matando um por um com o mesmo movimento. Mas se não conseguir dominar ele, pode se frustrar.
Apesar de tudo, colocando na balança os prós e contras, eu acho que o jogo tem muito mais prós e realmente pode apresentar uma experiência fantástica para o público certo. No meu caso, eu fiquei apaixonado pela narrativa tão densa da coisa. Me lembrou muito Contos da Lua Vaga, que apesar de não ser do Kurosawa, tem toda a elegância e sinto que pode ter sido uma grande fonte de inspiração, especialmente por adicionar elementos sobrenaturais.
 
Enfim, apesar de Trek to Yomi não ser tão polido quanto eu gostaria que fosse e ter potencial para ser uma obra prima, mas os problemas acabarem sendo muito gritantes, acho que ainda assim consegue ser um jogo muito superior e com personalidade bem mais forte do que uma tonelada de jogos que vemos sendo lançados. Recomendo sempre dar uma olhadinha no preço dele na Nuuvem antes de comprar na loja direta, algumas vezes os preços deles estão bem abaixo do normal, e sempre lembre de olhar os cupons de desconto que eles espalham pelo site, que deixa a coisa mais barata ainda, dê uma conferida aqui.

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