Pyongyang | Uma Viagem à Coreia do Norte (HQ que revela um outro mundo)

Sabem, ultimamente tenho ficado cada vez mais fascinado pela Coreia do Norte. Não sei exatamente de onde veio esse interesse todo, talvez da constante ameaça de destruir o mundo. A real é que é um ambiente absurdamente interessante e que eu deveria há muito tempo ter pesquisado mais, talvez quando joguei Homefront, mas somente nos últimos meses foi que fiz isso sem parar. Entre as buscas acabei chegando à HQ Pyongyang. Uma Viagem a Coreia do Norte, que mostra uma visão completamente única da parte interna do país, indo desde o dia a dia até costumes completamente diferentes dos nossos.

Antes de tudo, uma visão rápida da Coreia do Norte é que quando era um único país, sofreu pra caramba com domínios estrangeiros, ficando na mão da China, depois passando pra mão dos japoneses. Quando finalmente a segunda guerra mundial terminou, o país foi dividido entre Norte e Sul na guerra fria, sendo que os soviéticos ficaram apoiando o Norte e os EUA o Sul. E assim a Coreia do Norte se isolou completamente, sendo dominado pela família Kim, que tem controle total.

Achei um pouco complicado de descobrir exatamente em que período se passa essa história em quadrinho, no entanto tudo indica que é entre o final dos anos 90 e o começo dos anos 2000. O motivo disso é que a HQ é de 2004, mas ele não pôde publicar ela imediatamente, o que me faz pensar que levou alguns anos.

Guy Delisle é um quadrinista e animador canadense que trabalhava para um estúdio de animação francês chamado Protécréa. No entanto, para cortar gastos, decidiram conseguir mão de obra mais barata e assim acharam uma ótima oportunidade com o SEK Studio, da Coreia do Norte e para isso (Aparentemente para a produção de episódios de "The Adventures of Paddington Bear").

E assim o animador foi enviado para passar dois meses em Pyongyang  (Capital da Coreia do Norte) e auxiliar a equipe durante a produção. Naturalmente acabou tendo que se acostumar ao modo de vida do lugar e rolou um certo impacto cultural. Apesar de não poder registrar quase nada, ele foi guardando recordações para depois fazer uma revista em quadrinhos.

O estúdio desconfiou das intenções do quadrinista (Provavelmente graças ao lançamento de Shenzhen: Uma viagem à China, que ele lançou em 2000) e ameaçou processá-lo se ele lançasse isso, obrigando-o a assinar um acordo de confidencialidade quando o enviou, afinal de contas se o país é todo cheio das regras, logicamente não ia gostar de uma HQ com tanta informação, especialmente com o sarcasmo presente.

Somente com a falência da área em que Delisle trabalhava é que não havia mais preocupação dos norte coreanos não quererem mais fazer negócios. E assim ele teve a liberdade de finalmente poder publicar seu relato em 2004. Naturalmente chamou muito a atenção por mostrar uma visão única de um lugar absurdamente fechado.

É claro que a Coreia do Norte é um ambiente extremamente fechado e com difíceis informações, assim com é complicado simplesmente ter certeza sobre o que acontece dentro, mas dá pra notar que algumas das informações da HQ ficaram ultrapassadas com o passar dos anos, outras nem tanto. Ao pesquisar por certos ambientes citados, você nota que mudaram bastante, e ao ler relatos é possível perceber que até certas formas de agir também parecem ter mudado.

Mas comparando, dá pra ver que muita coisa continuou igual e o grande diferencial desse quadrinho para um vídeo de alguém que viajou para a Coreia do Norte para visitar é que aqui aparece a visão de uma pessoa que morou lá por dois meses, dando uma visão muito mais pessoal da coisa e a possibilidade de experimentar momentos únicos, além de observar detalhes que não seriam possíveis apenas com uma viagem para se divertir.

Praticamente o tempo todo, Guy tinha que ficar com um tradutor, e isso acaba gerando situações muito engraçadas, pois os próprios tradutores e guias nem sempre tem paciência para ficar de babá, por outro lado é notável o medo constante, o desespero quando ele se rebela e decide ir aos lugares sozinhos, entre outras coisas.

Algo notável é o egocentrismo, megalomania e a forma como tudo é varrido para debaixo dos panos o tempo todo. É mostrado o povo do lugar sempre tentando esconder, disfarçar ou exaltar determinadas coisas. E assim parece um verdadeiro ambiente de ficção científica com uma forma de agir um tanto surreal das pessoas, querendo passar para os estrangeiros uma imagem.

Por exemplo, existe uma adoração imenso aos líderes. Na época da história é Kim Jong-il que ainda está no poder (Ele faleceu eu 2011, quando seu filho Kim Jong-un assumiu), e é mostrado que em todos os lugares fotos tanto dele  quanto de seu pai Kim Il-sung. Nas paredes em que eles estão não pode ter mais nada pendurado, e sempre estão em um ângulo  levemente dobrado pra ficar olhando diretamente pra pessoa.

Alguns dados que exaltam o país são bem exagerados, tipo o fato de que o grande líder escreveu 1200 livros enquanto esteve na faculdade e que quando ele nasceu  foi no ponto mais algo do Monte Paektu, que é um lugar sagrado e que havia uma estrela cadente e estavam embaixo de um arco-íris duplo.

Algumas dessas informações ultra exageradas eu pensei ser o autor debochando, mas ao dar uma pesquisada, vi em outros lugares que realmente há citações assim. Então aparentemente os norte-coreanos realmente tem coragem de dizer umas coisas assim para impressionar os estrangeiros com toda a grandiosidade.

Outro detalhe é que é mostrado eles falando como se aquele fosse o melhor país do mundo e que tudo ao redor fosse caos. Como se o resto do mundo tivesse desesperado para ir morar lá, pois é o único lugar realmente próspero e quem nasceu ali é bastante sortudo por ter esse privilégio. Há inclusive citações do autor sobre como ele tinha vontade de responder alguns absurdo e que nunca que os sul-coreanos iriam correr pra lá se os Estados Unidos liberassem a fronteira entre os dois países (Pra quem não sabe os EUA ficam na cerca da divisa durante todo o território pra proteger a Coreia do Sul).

A HQ acaba gerando também muitos pensamentos sobre o quanto a coisa é real ali e até que ponto as pessoas acreditam. A cultura é bem diferente e a visão das pessoas é diferente, sendo assim talvez exista uma certa ingenuidade deles ao pensarem que estrangeiros irão acreditar em certas coisas. Talvez eles realmente creiam naquilo tudo e a farsa de certas coisas tenha se tornado tão comum, que pra eles não seja farsa, mas sim algo que deve ser feito daquele jeito, informações omitidas, informações exaltadas.

Também é levada em conta aspectos peculiares, como certas pessoas que são enviadas para fora do país, pois precisam ter contato de alguma forma, como é o caso de alguns guias, que vão e depois voltam. Ou seja, eles veem como é o lado de fora e descobrem tudo. Mas se veem, como podem acreditar no que tem dentro? Será que acreditam mesmo? Ou será que têm medo do que pode acontecer?

Certos assuntos são desviados e com alguma pressão, os guias acabam revelando certas coisas, enquanto às vezes simplesmente dizem NÃO e pronto. Não explicam o motivo, apenas não levam ele para visitar um lugar, ou não falam de certas coisas. Tem um momento em que ele fala "Sabia que a Coreia do Norte é o único país do mundo que não tem internet?"  e o cara "Não! Não fala isso!".

Há muitos ambientes falsos, extremamente bonitos e maravilhosos, mas que simplesmente não funcionam ou são muito suspeitos. Por exemplo as lojas lotadas de produtos iguais, mas sem ninguém comprando nunca ou o absurdo metrô ultra luxuoso com lustres pra todo lado, mas que ninguém nunca viu além de uma estação.

Aspectos em relação à forma de condução de algumas coisas também são mostrados, como por exemplo a ajuda humanitária cabulosa que era dada e que muitos acabaram parando quando perceberam que o investimento todo estava indo para o exército ao invés de para os pobres, por isso acabou sendo cortado.

Muitas informações e dados interessantes também são passados na HQ, como a estimativa de que ao menos uma vez na vida 50% da população denuncia vizinhos ou conhecidos com informações. Existe uma vigilância completa. Aliás, quando joguei Far Cry 4 eu não tinha percebido o quanto ele é inspirado na Coreia do Norte, inclusive tem carros com propaganda, fotos pra todo lado, população vivendo na miséria.

Em relação aos desenhos e a forma que a coisa é apresentada, é algo realmente bem gostoso. Desenhos limpos com um visual fofinho, momentos engraçados e informação passada de uma forma descontraída, de vez em quando misturada com os delírios do autor em relação a determinadas coisas que aconteceram no dia a dia dele.

Me pergunto se ele não acabou incentivando o país, pois por exemplo o monstruoso Hotel Ryugyong é mostrado na HQ como em construção desde 1987 e abandonado, mas se procuramos hoje em dia, vemos ele bonitinho. Levando em consideração que a cidade é uma propaganda pra estrangeiro, uma HQ dessa é péssimo, será que não fez com que terminassem? Pois com certeza Guy Delisle não pisa mais os pés lá.

Uma animação começou a ser feita, no entanto em 2014, um filme chamado "A Entrevista" que parodiava Kim Jong-un estava prestes a ser lançados, quando a SONY foi invadida e hackers que diziam estarem ligados ao país fizeram ameaças e expuseram dados. Muitas salas ficaram com medo e negaram exibir o filme temendo ataques. E assim a animação de Pyongyang ainda em estado de pré-produção foi cancelada por temor de acontecer algo.
Enfim, não é tão incomum ver na cultura pop coisas relacionadas a regimes comunistas, no entanto a maioria é por mero entretenimento, inclusive nos quadrinhos, como no Entre a Foice e o Martelo, no entanto Pyongyang se destaca por apresentar ao mesmo tempo um conteúdo que entretém e informa. Realmente aquele tipo de obra que vale a pena conferir.  No Brasil foi lançado pela editora Zarabatana e vale a pena ter na coleção!

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