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domingo, 22 de janeiro de 2017

O Descendente - Um conto de Lovecraft pra você lamentar

Quando li pela primeira vez essa história, fiquei completamente confuso, o que tenho que assumir que não foi surpresa alguma, já que o autor norte americano H.P. Lovecraft escrevia de uma forma extremamente confusa. Mas mesmo relendo, eu não conseguia entender, dava pra entender a coisa em si, mas passava uma sensação de falta de desfecho que não parecia o tipo de fim que o autor costumava dar.

E foi quando decidi pesquisar que descobri que é um conto inacabado, e está presente no livro O mundo fantástico de H.P. Lovecraft, só que não está escrito que aquilo não é completo, por isso fiquei perdido. Descobri inclusive que algumas versões brasileiras da tradução da coisa adicionam uma introdução envolvendo o leito de morte de um personagem para que se tenha um melhor sentido.

Então é aquele tipo de coisa que acaba só restando lamentar e faz pensar na quantidade de coisas que ele não poderia ter escrito.  Lovecraft morreu em 1937 com 47 anos, e esse fragmento de história foi escrito uma década antes, mas nunca ficou completo.

Um ano após a morte do autor um jornal chamado Leaves publicou esse fragmento, estranho né? Quero dizer, ele ainda não tinha a fama que tem hoje em dia. Quero dizer, apesar de sua influência na cultura pop, nem atualmente ele é conhecido assim, é fácil perguntar alguém "Você sabe quem é Lovecraft?" e a pessoa dizer que não. Então imagina em 1938?

Mas para quem está esperando um fragmento de livro como o espetacular Azathoth, já saiba que não é naquele estilo. Aquele fazia parte do Ciclo dos Sonhos, e por isso tinha um toque estranho mas intenso, já esse faz parte dos Mitos de Cthulhu tradicionais, ou seja algo que fala sobre uma coisa misteriosa no mundo, que é capaz de levar a loucura.

Tudo indica que quando Lovecraft escreveu esse fragmento, ele estava estudando intensamente a Inglaterra e queria usar ao máximo aquele cenário como plano de fundo, pois dali ele poderia sugar muito mais do que os ambientes presentes nos Estados Unidos. Acredito eu que o roteirista do filme Castelo Maldito possa ter sugado um pouquinho daqui também. Confiram:



O Descendente 

Em Londres existe um homem que grita quando os sinos das igrejas tocam. Ele vive totalmente só com um gato malhado na Pensão Gray, e as pessoas o chamam de louco inofensivo. Seu quarto está cheio de livros de tipos mais calmos e pueris, e hora após hora ele tenta se perder em suas fracas páginas. Tudo o que ele quer da vida é não pensar. Por algum motivo o ato de pensar lhe é muito terrível, e tudo o que possa agitar a sua imaginação o faz, fugir de como uma praga. Ele é muito magro e enrugado, mas há quem declare que não é tão velho quanto aparenta. O medo tem suas garras retorcidas sobre ele, e um som o fará se sobressaltar com olhos perscrutadores e a testa coberta de suor. Os amigos e companheiros ele dispensa, pois não deseja responder a nenhuma pergunta. Os que outrora o conheceram como scholar e esteta dizem que dá pena de vê-lo agora. Ele abandonou a todos anos antes, e ninguém sabe ao certo se ele deixou o país ou simplesmente desapareceu de vista em alguma ruela oculta. Faz uma década agora desde que ele se mudou para a Pensão Gray, e de onde andou ele não diria nada até a noite em que o jovem Williams comprou o Necronomicon.

Williams era um sonhador, e apenas tinha 23 anos, e quando ele se mudou para a antiga casa, sentiu uma estranheza e um hálito de vento cósmico ao redor do homem cinzento e envelhecido no quarto ao lado. Ele forçou sua amizade onde velhos amigos não ousavam forçar a deles, e maravilhou-se com o medo que tomava conta daquele observador e ouvinte triste e sombrio. Pois que o homem sempre observava e ouvia, ninguém podia duvidar. Ele observa e ouvia mais com sua mente do que com os olhos e ouvidos, e lutava a cada momento para afogar alguma coisa em sua pesquisa incessante sobre romances alegres e insípidos. E quando os sinos das igrejas tocavam, ele tampava os ouvidos e gritava, e o gato cinzento que com ele morava uivava em uníssono até que o reverberar da última badalada morresse ao longe.

No entanto por mais que Williams tentasse, não conseguia fazer seu vizinho falar de nada profundo ou oculto. O velho não acompanhava seu aspecto e maneirismos, mas fingia um sorriso e um tom suave de voz e falava febril e freneticamente de alegres trivialidades; sua voz a cada momento se elevava e engrossava até se partir num pipilante e incoerente falsete.Que seu conhecimento era vasto e profundo, isso suas observações mais triviais tornavam abundantemente claro; e Williams não se surpreendeu ao ouvir que ele frequentou Harrow e Oxford. Posteriormente descobriu-se que ele não era outro que não Lorde Northam, de cujo antigo castelo hereditário na costa de Yorkshire tantas coisas estranhas se contavam; mas quando Williams tentou falar do castelo, e de sua reputada origem romana, ele se recusou a admitir que houvesse nele qualquer coisa de incomum. Até chegou a se arrepiar quando o assunto das supostas criptas subterrâneas, escavadas da rocha sólida que abunda no Mar do Norte foi trazido à tona.

Dessa forma as coisas ocorreram até a noite passada, quando Williams levou para casa o infame Necronomicon, do árabe louco Abdul AlHazred. Ele havia ouvido falar do temível volume desde seus dezesseis anos, quando seu crescente amor pelo bizarro o levara a perguntar questões estranhas a um velho livreiro na Rua Chandos; e ele havia sempre se perguntado por que os homens empalideciam quando dele falavam. O velho livreiro lhe havia dito que apenas cinco cópias haviam sabiamente sobrevivido aos editos chocados dos sacerdotes e juízes contra ele, e que todos estavam encerrados com cuidado terrível por pessoas que haviam se aventurado a começar uma leitura do negro livro odioso. Mas agora, finalmente, ele havia não somente encontrado uma cópia acessível mas adquirido a um preço ridiculamente baixo. Foi na loja de um judeu, nas vizinhanças esquálidas do Mercado Clare, onde lê já havia compra coisas estranhas antes, e quase imaginava o velho levita recurvado e sorridente entre fiapos de barba quando fez a grande descoberta. A pesada capa de couro com o cadeado de aço estava tão proeminentemente visível, e o preço era tão absurdamente baixo.

Apenas com um único vislumbre que ele teve do título foi suficiente para fazê-lo delirar, e alguns dos diagramas dispostos no vago texto em latim excitavam as mais tensas e inquietantes lembranças de seu cérebro. Ele sentia que era muito necessário levar a coisa poderosa para casa e começar a decifrá-la, e levou-a da loja com tamanha precipitação que o velho judeu riu perturbadoramente atrás dele. Mas quando finalmente estava a salvo em seu quarto, descobriu que a combinação do livro negro e do idioma adulterado era demais para seus poderes de lingüística, e relutantemente pediu ajuda de seu estranho amigo amedrontado para decifrar o distorcido latim medieval. Lorde Northam conversava banalidades com seu gato malhado, e reagiu violentamente quando o jovem entrou. Então viu o volume e tremeu violentamente, e desfaleceu por completo quando Williams pronunciou o título. Foi quando recuperou os sentidos que ele contou sua história; contou sua fantástica ficção de loucura em frenéticos sussurros para que seu amigo fosse rápido em queimar livro amaldiçoado e espalhar bem distante suas cinzas.

Deve ter, Lorde Northam sussurrou, deve ter alguma coisa errada no começo; mas isso nunca teria chegado a um fim se ele não tivesse ido tão longe. Ele era o décimo-nono barão de uma linhagem cujo início ia desconfortavelmente distante no passado — inacreditavelmente distante, se a vaga tradição for considerada, pois havia histórias de família sobre uma descendência que remonta a tempos pré-saxônicos, quando um certo Luneu Gabínio Capito, tribuno militar da Terceira Legião Augusta então estacionada em Lindum, na Britânia Romana, havia sido sumariamente expulso de seu comando por participação em certos rituais que não tinha ligação com qualquer religião conhecida. Gabínio havia, segundo corria o rumor, entrado na caverna da encosta, onde estranhas pessoas se reuniam, e feito o Sinal dos Antigos na escuridão; estranhas pessoas que os Bretões não conheciam, salvo por medo, e que foram os últimos sobrevivente de uma grande terra a oeste que havia afundado, deixando apenas as ilhas com os círculos e templos dos quais Stonehenge era o maior. Não havia certeza, claro, na lenda, de que Gabínio houvesse construído uma fortaleza impregnada sobre a caverna proibida e fundado uma linguagem que pictos e saxões, daneses e normandos foram incapazes obliterar; ou na suposição tácita de que daquela linhagem surgira o bravo e companheiro tenente do Príncipe Negro que Eduardo III tornara Barão de Northam. Essas coisas não eram certas, mas eram contadas com freqüência; e em verdade o trabalho em pedra da Fortaleza Northam parecia de forma alarmante como a alvenaria da Muralha de Adriano. Em criança, Lorde Northam tivera sonhos peculiares quando dormia nas partes mais velhas do castelo, e adquirira um constante hábito de vasculhar na memória cenas semi-amorfas e padrões de impressões que não formavam parte de sua experiência acordado. Ele se tornou um sonhador que descobriu a vida mansa e insatisfatória; um pesquisador de reinos estranhos e relacionamentos um dia familiares, mas que não se encontram em nenhum lugar das regiões visíveis da Terra.

Preenchido com o sentimento de que nosso mundo tangível é apenas um átomo num vasto e ominoso material, e que demônios ocultos pressionam e permeiam a esfera do conhecido a cada ponto, Northam na juventude e nos primeiros anos de fase adulta secou as fontes da religião formal e dos mistérios ocultos. Em nenhuma parte, entretanto, pôde ele encontrar paz e contentamento; e, à medida que crescia, a paralisia e as limitações da vida tornavam-se mais e mais enlouquecedoras para ele. Durante os anos 90 ele estudou o satanismo, e em todos os momentos devorou avidamente qualquer doutrina ou teoria que parecesse prometer fuga das visões fechadas da ciência e das tolas leis imutáveis da natureza. Livros como o relato quimérico de Ignatius Donnely sobre Altântida, e uma dúzia de obscuros precursores de Charles Fort o fascinavam com suas divulgações. Viajava léguas para acompanhar uma história furtiva de vilarejo de maravilhas anormais, e um dia foi ao deserto da Arábia para procurar uma Cidade Sem Nome por relatos vagos, que nenhum homem havia visto jamais. Dentro dele se elevava a fé tantalizante de que em alguma parte existiria um portal, que se encontrado o admitiria livremente àquelas profundezas extremas cujos ecos soavam tão fracos nos fundos de uma memória. Poderia estar no mundo visível, ainda que podesse também estar em sua mente e em sua alma. Talvez ele mantivesse no interior de seu próprio cérebro semi- inexplorado aquela ligação críptica que o despertaria a vidas ancestrais e futuras em dimensões esquecidas; que o ligariam às estrelas, e aos infinitos e eternidades além delas... 

- H.P. Lovecraft - 

Bem lovecraftiana mesmo a coisa né? A aparição do necronomicon indica que teria muita loucura, qual seria a história do Lord com o livro maldito?  Mas tenho que assumir que dei algumas gargalhadas com a atitude desse personagem, ele conversando com o gato e tentando recuperar a pose kkkkk. No Brasil existem diversos livros a venda que contém a obra de Lovecraft.

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