A Wych Elm não é um estúdio veterano com uma longa lista de lançamentos conhecidos. Silver Pines é justamente o projeto que colocou a equipe em evidência, especialmente por sua proposta de unir elementos clássicos de survival horror com exploração em estilo metroidvania. A parceria com a Team17, responsável por publicar diversos jogos independentes de destaque ao longo dos anos, ajudou a dar mais visibilidade ao projeto.
A estrutura do jogo mistura exploração de uma cidade interligada com progressão baseada em novas ferramentas e equipamentos. Algumas áreas ficam inacessíveis durante os primeiros momentos da campanha, exigindo que o jogador avance na história e encontre recursos específicos para desbloquear caminhos antes bloqueados. Essa abordagem aproxima Silver Pines de jogos como Hollow Knight, Blasphemous e Ender Lilies: Quietus of the Knights, embora o foco aqui esteja muito mais no terror e na investigação.
A ambientação é um dos aspectos mais comentados. Silver Pines se passa em uma pequena cidade americana praticamente abandonada, repleta de locais estranhos, personagens enigmáticos e situações que parecem desafiar a lógica. Os próprios desenvolvedores citam inspirações ligadas ao estilo de obras como Twin Peaks, enquanto diversas prévias também apontam semelhanças com a atmosfera vista em Alan Wake.
O visual utiliza animações em rotoscopia e cenas narrativas apresentadas como histórias em quadrinhos totalmente dubladas. Essa escolha ajuda a criar uma identidade própria, diferente da pixel art usada por muitos metroidvanias modernos. Além disso, a cidade é preenchida por documentos, pistas e detalhes ambientais que contam partes da história sem depender apenas de diálogos diretos.
Entre os destaques estão a combinação pouco comum de metroidvania com survival horror, o clima de mistério constante, a exploração não linear e a presença de chefes e criaturas grotescas espalhadas pelo mapa. A demonstração disponibilizada para PC recebeu avaliações muito positivas dos usuários da Steam, indicando uma recepção inicial favorável ao conceito apresentado pelo estúdio.
Enfim, Silver Pines chama atenção principalmente por quem gosta de investigação, gerenciamento de recursos, exploração de mapas conectados e histórias cheias de segredos. A mistura de referências a survival horror clássico, terror psicológico e metroidvania cria uma proposta diferente dentro do gênero. O jogo foi projetado para PC, PlayStation 5, Xbox Series X|S, Nintendo Switch e Nintendo Switch 2.
Jogos em cidadezinhas
Existe um tipo de atmosfera que parece nunca perder o encanto. É aquela sensação de chegar a uma cidade pequena cercada por florestas, montanhas ou lagos, onde todos parecem esconder alguma coisa. O lugar parece tranquilo à primeira vista, mas basta olhar um pouco mais de perto para perceber que existe algo errado acontecendo. Essa combinação de mistério, melancolia e estranheza ganhou força na cultura pop graças a obras como Twin Peaks, criada por David Lynch e Mark Frost em 1990, mas acabou se espalhando por livros, séries, filmes e, naturalmente, pelos videogames.
Muito antes dos jogos abraçarem essa ideia de forma direta, autores como Stephen King já construíam histórias em pequenas comunidades onde o horror se escondia atrás de fachadas comuns. Lugares como a cidade fictícia de Derry, presente em It, ou Castle Rock, usada em diversas obras do escritor, mostravam como uma cidade aparentemente comum podia esconder acontecimentos perturbadores. O interessante é que o medo não surgia apenas de monstros ou fantasmas, mas também dos próprios moradores, dos segredos antigos e das histórias que ninguém queria contar.
Quando Twin Peaks chegou à televisão, a fórmula ganhou uma identidade própria. O assassinato de Laura Palmer servia apenas como ponto de partida para algo muito maior. A série misturava investigação, drama, humor estranho, sonhos, entidades sobrenaturais, florestas misteriosas e personagens excêntricos. O resultado foi tão marcante que influenciou gerações inteiras de criadores. Muitos desenvolvedores de games cresceram assistindo à série e levaram essas referências para seus projetos.
Entre os exemplos mais famosos está Alan Wake. Desenvolvido pela Remedy Entertainment, o jogo apresenta Bright Falls, uma cidade cercada por florestas e lagos que poderia facilmente existir no mesmo universo de Twin Peaks. O próprio estúdio nunca escondeu a inspiração. O protagonista chega a um local aparentemente pacato e logo descobre que forças estranhas estão transformando a realidade. A mistura de suspense psicológico, mistério sobrenatural e personagens peculiares tornou Alan Wake uma das obras mais lembradas quando o assunto é esse tipo de atmosfera.
A influência continuou crescendo em Alan Wake 2, que ampliou ainda mais os elementos de horror psicológico. O jogo mistura investigação criminal, eventos sobrenaturais, realidades alternativas e uma cidade que parece viver constantemente à sombra de algo impossível de compreender. A presença da agente Saga Anderson e a exploração de Cauldron Lake reforçam essa sensação de estar caminhando dentro de um pesadelo que se mistura com o cotidiano.
Outro nome frequentemente lembrado é Deadly Premonition. Poucos jogos foram tão claramente influenciados por Twin Peaks. Desde o agente do FBI investigando um assassinato em uma cidade isolada até os moradores excêntricos e os acontecimentos sobrenaturais, tudo remete à série. Mesmo com limitações técnicas, o jogo conquistou um grupo fiel de fãs justamente por capturar essa mistura de estranheza, humor involuntário e mistério constante.
Com o passar dos anos, diversos estúdios passaram a explorar esse tipo de cenário. Virginia aposta em uma narrativa cheia de simbolismos e eventos difíceis de explicar. Kentucky Route Zero mergulha em uma América surreal onde estradas escondidas levam a lugares impossíveis. Já Oxenfree mistura adolescentes, fenômenos sobrenaturais e mistérios ligados ao passado de uma região isolada.
A própria Remedy expandiu muitas dessas ideias em Control. Embora o cenário principal seja um enorme prédio governamental, a sensação de realidade distorcida, documentos secretos, acontecimentos inexplicáveis e forças que desafiam qualquer lógica lembra bastante os elementos mais surreais vistos em Twin Peaks. Não por acaso, os universos de Control e Alan Wake acabaram se conectando.
Também existem jogos que se aproximam mais da atmosfera típica dos livros de Stephen King. Life Is Strange transforma uma pequena cidade em palco para mistérios envolvendo desaparecimentos, tragédias e acontecimentos sobrenaturais. Night in the Woods usa uma cidade decadente para explorar segredos locais e acontecimentos estranhos escondidos sob a rotina dos moradores. Já The Vanishing of Ethan Carter aposta em uma investigação cercada por lendas, mortes misteriosas e cenários naturais impressionantes.
Outro aspecto importante dessa atmosfera é a presença constante da natureza. Florestas densas, estradas vazias, postos de gasolina esquecidos, lanchonetes antigas, motéis, cabanas isoladas, rádios locais e lagos envoltos por neblina aparecem repetidamente nesse tipo de obra. São elementos que ajudam a criar uma sensação de isolamento. O jogador sente que está longe da civilização e que algo pode surgir a qualquer momento entre as árvores.
A música também desempenha um papel fundamental. Em Twin Peaks, as composições de Angelo Badalamenti ajudaram a definir a identidade da série. Nos games, trilhas sonoras melancólicas, canções folk, rock alternativo, sintetizadores suaves e temas ambientais costumam cumprir a mesma função. Muitas vezes o silêncio é tão importante quanto a própria música, aumentando a sensação de que existe algo observando o jogador.
O mais interessante é que essa fórmula continua funcionando porque ela desperta curiosidade. O jogador quer descobrir o que aconteceu naquela cidade, quem está mentindo, qual segredo foi enterrado décadas atrás e por que certos acontecimentos desafiam qualquer explicação lógica. Em vez de depender apenas de sustos, essas obras trabalham com mistério, atmosfera e imaginação.
Por isso jogos como Alan Wake, Alan Wake 2, Deadly Premonition, Control, Virginia, Oxenfree, Kentucky Route Zero, The Vanishing of Ethan Carter, Life Is Strange, Night in the Woods, Mizzurna Falls, Twin Mirror, Kona, Kathy Rain, Thimbleweed Park e The Good Life continuam sendo lembrados quando o assunto é explorar cidades pequenas cheias de segredos. Cada um segue um caminho diferente, mas todos compartilham a mesma ideia central: existe algo fascinante em lugares que parecem comuns durante o dia, mas que revelam um lado muito mais estranho quando a névoa começa a tomar conta das ruas.




