Sobre Resident Evil 2
Quando Resident Evil 2 chegou ao PlayStation, em 21 de janeiro de 1998, a Capcom não lançou apenas mais um jogo de terror. A aventura de Leon S. Kennedy e Claire Redfield em Raccoon City se tornou um dos maiores clássicos do survival horror, ajudando a transformar a franquia em um dos nomes mais conhecidos dos videogames. Décadas depois, o retorno desse jogo mostraria que a história de zumbis, laboratórios secretos e experimentos da Umbrella Corporation ainda tinha muito fôlego para conquistar uma nova geração.
O Resident Evil 2 original marcou época com sua câmera fixa, cenários pré-renderizados e aquele clima de tensão em que qualquer corredor escuro parecia esconder uma desgraça. A possibilidade de jogar com Leon ou Claire, acompanhando diferentes lados da mesma tragédia, também ajudou a tornar a aventura memorável. Mr. X, os Lickers e a delegacia de Raccoon City viraram referências entre fãs de terror, enquanto a trama envolvendo William Birkin e o vírus G expandia o universo da série.
Em 2002, a Capcom lançou o remake do primeiro Resident Evil para GameCube, recriando o clássico de 1996 com gráficos muito mais detalhados, novas áreas e mudanças na jogabilidade. O projeto ficou conhecido por manter a estrutura de survival horror com câmeras fixas, mostrando como um jogo antigo poderia ganhar uma nova vida sem abandonar suas raízes. Durante anos, esse modelo ajudou a estabelecer a ideia de que um remake poderia ser uma reconstrução cuidadosa, preservando boa parte da experiência original.
Só que Resident Evil 2 era um caso especial. O jogo tinha uma legião de fãs que não se contentava em apenas revisitar a versão de PlayStation. A vontade de ver Leon, Claire e os zumbis de Raccoon City com gráficos modernos acabou chegando até desenvolvedores independentes, que começaram a trabalhar em projetos próprios para trazer o clássico de volta. E foi aí que a história ganhou um capítulo curioso, envolvendo um fangame que chamou a atenção da própria Capcom.
Em 2013, a equipe italiana InvaderGames começou a desenvolver Resident Evil 2: Reborn, um remake feito por fãs que usava a Unity em suas primeiras versões e depois passou para a Unreal Engine 4. A proposta era reconstruir o jogo com gráficos em alta definição, iluminação moderna, cenários em 3D e uma câmera em terceira pessoa. O projeto ganhou força com vídeos de gameplay que mostravam como Raccoon City poderia ficar com uma cara mais próxima dos jogos modernos da franquia. A repercussão foi grande o suficiente para colocar a InvaderGames no radar da Capcom.
Em agosto de 2015, a Capcom anunciou oficialmente que Resident Evil 2 receberia um remake. A InvaderGames encerrou o desenvolvimento de RE2: Reborn a pedido da empresa japonesa, que já tinha planos próprios para o clássico. O detalhe interessante é que a história não terminou com uma simples ordem para apagar tudo e ir embora. A equipe foi convidada a visitar a sede da Capcom, em Osaka, para conversar sobre ideias relacionadas ao projeto. O grupo também demonstrou satisfação com o reconhecimento, embora não exista confirmação de que suas ideias tenham sido incorporadas diretamente ao remake oficial.
GameSpot
+2
Esse episódio ajudou a mostrar o tamanho do interesse por um Resident Evil 2 refeito do zero. O fangame não foi o único fator por trás da decisão da Capcom, mas sua repercussão fazia parte de um cenário em que os fãs deixavam claro que queriam voltar a Raccoon City. A empresa tinha em mãos uma franquia conhecida mundialmente e um clássico que poderia alcançar tanto quem jogou no PS1 quanto quem conhecia Leon e Claire apenas pelos jogos mais recentes. O remake oficial tinha espaço para ser muito mais do que uma simples melhoria gráfica.
O resultado chegou em 25 de janeiro de 2019, com Resident Evil 2 Remake, também conhecido como Resident Evil 2 (2019). Em vez de manter a câmera fixa do original, a Capcom adotou uma visão sobre o ombro, popularizada por Resident Evil 4, lançado em 2005. A mudança transformou a maneira de explorar a delegacia, mirar nos zumbis e fugir de criaturas como Mr. X. Com a RE Engine, a desenvolvedora reconstruiu Raccoon City com ambientes detalhados, iluminação realista e uma atmosfera de terror que combinava nostalgia com uma apresentação moderna.
CAPCOM
+1
A escolha da câmera também ajudou a aproximar Resident Evil 2 Remake de uma geração acostumada com jogos de ação em terceira pessoa. O sistema de mira, o controle mais direto dos personagens e a exploração dos corredores escuros davam outra dimensão ao survival horror. Ao mesmo tempo, a escassez de munição, os enigmas, o gerenciamento de itens e a necessidade de decidir quando enfrentar ou evitar um inimigo mantinham a essência da série. Era uma releitura que conversava com o passado sem ficar presa às limitações de 1998.
O sucesso de Resident Evil 2 Remake também ultrapassou os limites do próprio jogo. Leon Kennedy voltou a ser um dos rostos mais reconhecidos da franquia, Claire Redfield ganhou espaço entre uma nova geração de jogadores e Mr. X virou combustível para memes, vídeos de reação e montagens na internet. A perseguição constante do grandalhão de sobretudo, com seus passos ecoando pela delegacia, se tornou uma das imagens mais lembradas do terror nos videogames. Até quem nunca terminou a campanha provavelmente já viu algum vídeo de alguém desesperado tentando escapar dele.
O jogo também se tornou um terreno fértil para mods no PC, que vão de mudanças visuais e roupas alternativas até alterações mais absurdas envolvendo personagens e inimigos. Essa liberdade ajudou a prolongar a presença de Resident Evil 2 Remake na cultura pop, mantendo o título em vídeos, transmissões e discussões sobre os melhores jogos de terror. A popularidade do remake ainda reforçou o interesse por outros projetos de fãs, recriações de clássicos e novas versões de jogos antigos.
A trajetória também chama atenção quando comparada à do primeiro Resident Evil. O remake de 2002 já havia mostrado como a Capcom podia reconstruir um clássico, mas preservou a câmera fixa e a jogabilidade tradicional. Sua versão em HD, lançada em 2015, manteve essa proposta, enquanto Resident Evil 2 Remake seguiu o caminho da câmera sobre o ombro, como Resident Evil 4. A diferença mostra que a série passou a tratar seus remakes como oportunidades para repensar a experiência, em vez de apenas atualizar os gráficos.
No fim, Resident Evil 2 Remake se tornou um marco tanto pelo resultado quanto pelo caminho que levou até ele. O caso de RE2: Reborn mostrou que a paixão dos fãs podia chamar a atenção da Capcom, enquanto o lançamento de 2019 provou que um clássico do survival horror podia conquistar o público com uma abordagem moderna. Raccoon City voltou a ser um dos lugares mais conhecidos dos videogames, e a história de Leon e Claire ganhou uma nova vida, deixando sua marca na franquia e na cultura pop.




