Crimes do Futuro | Ficção científica biopunk para o público adulto

Eu certamente não teria assistido esse filme com muita urgência, especialmente pelo título tão genérico que não me empolgaria muito a ir atrás para saber do que se trata, o que provavelmente teria outra atitude minha se eu soubesse de primeira que é do diretor David Cronenberg. E isso foi exatamente o que fez um amigo me chamar pra assistir. E naturalmente chegou a hora da review!

A história se passa em um futuro onde humanos sofreram uma mutação onde a dor e doenças infecciosas desapareceram de praticamente todas as pessoas. O resultado disso foi uma enorme mudança na forma da humanidade agir, gerando uma alteração cultural extrema, já que a dor é um dos elementos básicos que molda a forma dos seres humanos agirem.
E nesse mundo, temos Saul Tenser, um homem que sofre da "Síndrome da evolução acelerada", onde vários órgãos novos ficam crescendo nele o tempo todo. Isso lhe causa um incômodo constante, tendo que usar máquinas para ter um conforto maior na hora de fazer coisas básicas como se alimentar e até mesmo dormir.
 
Porém nesse mundo, a ausência de dor fez com que conceitos também se modificassem, incluindo entre artistas cênicos. Saul se junta a Caprice, uma mulher que dirige um teatro em que apresenta performances. E assim a dupla começa a mostrar algo bizarro, apresentações em que ela extrai esses novos órgãos na frente de um público, que ela inclusive os tatua antes das apresentações e os remove tatuados pra impressionar mais.

É muito curioso o conceito do filme em relação a isso, afinal de contas a ideia de expressar arte é muito comum. Artistas colocam pra fora isso das mais variadas maneiras, então qual não seria o nosso desejo de expor essa vontade? Para alguns não seria nenhum, mas para outros, até que nível iriam, sabendo que se cortar não gera dor, nem infecciona? Simplesmente fica lá, exposto.

Esse é um filme que usa aquela técnica que é tão comum no gênero Sword and Sorcery, onde o foco não é explicar o mundo, mas sim a história daquele momento. E o resultado disso é algo que pode encantar ou causar raiva, pois trata-se de um filme que não se preocupa em explicar o que aconteceu ao mundo. Isso faz com que você tenha que deduzir ou imaginar o resto.
Sendo assim, eu apenas deduzo que o universo seja pós-apocalíptico e que o caos tenha se estabelecido para chegar ao nível que as coisas chegaram. É um daqueles filmes abertos à interpretação e com diálogo super denso de informações que você precisa ficar atento o tempo todo para pegar o significado da coisa. Já vimos isso em obras como Blade Runner, que constrói o universo robusto sem uma explicação detalhada, te forçando a catar detalhes nos diálogos e imaginar parte da coisa.

Para pessoas com déficit de atenção, pode ser um verdadeiro pesadelo! O mesmo para aqueles que querem muito saber de forma detalhada o que aconteceu. A sensação final pode ser de algo com informações incompletas e que pode ficar sem muito sentido, ou pior... Não ter pé nem cabeça porque pode ser visto como uma verdadeira bagunça. Vi inclusive algumas pessoas descendo o pau.
No entanto, eu vejo esse filme como ficção científica voltada para o público adulto e também existe uma elegância na falta de informações que dá um charme todo especial a esse universo. Isso porque o fato de você não saber os detalhes de forma mais profunda, causa aquela sensação misteriosa de que você está vendo um pequeno conto de um universo gigantesco que está oculto.
 
E a escolha para focar nesse "conto", foi no mundo de artistas cênicos. E aí a coisa entra um pouco naquele conceito apresentado em Hellraiser, sobre o prazer da carne. Nesse caso aqui, acredito que não entra no masoquismo, pela ausência da dor, porém consegue passar o quão a força da arte é tão intensa, que algumas pessoas querem abrir seus próprios corpos e mostrar.
Pode parecer exagero demais, mas o filme mostra ter pé no chão ao apresentar as performances de outros tipos de artistas além da protagonista que tem suas semelhanças com nossa realidade. Por exemplo essas pessoas que atualmente fazem aquelas coisas no corpo, como colocar um "caroço" embaixo da pele ou modificações corporais cabulosas.
 
No filme tem uma artista que faz buracos em toda sua cara e explica que tem sido difícil convencer a cirurgiões que o que ela quer não é se tornar mais bela. E então Caprice comenta sobre a paz da amiga ao fazer algo assim em seu próprio corpo e que aquilo lhe chocou ao perceber que gostava do que via e que lhe despertou uma curiosidade que ela não tinha.
Já em outra cena, uma das personagens comenta com Saul sobre como assistir a uma de suas cirurgias lhe causou algo intenso e que aquilo é equivalente ao novo prazer de fazer sexo. Isso deixa evidente uma ideia que Cronenberg costuma trazer muito com o gênero horror corporal, que é a de que as pessoas querem ir ao extremo, ficam viciadas nos prazeres da carne e procuram ir além.
 
Em 2003, o diretor anunciou que estava começando a produção de um roteiro seu chamado Painkillers. A ideia era lançar o filme em 2006, no entanto foi um daqueles projetos problemáticos e em uma entrevista, David Cronenberg disse que não iria acontecer e que ele tinha acabado perdendo o interesse em fazer algo assim.
Talvez essa inclusive seja a explicação desse filme carregar a essência do diretor de uma forma tão pura em 2022 quando finalmente foi lançado, sendo quase uma década desde o seu filme anterior, Mapas para as Estrelas de 2014, e duas décadas após seu último sci-fi, Spider de 2002. Não é incomum ver um criador de mídia (seja qual for) fazer algo fantástico em uma época de sua vida e se destacar, mas com o passar das décadas simplesmente não conseguir mais fazer daquele jeito, pois mudou seu próprio estilo.
 
Inclusive eu acho o nome original perfeito e muito melhor! Painkillers é analgésico em inglês, mas em uma tradução literal fica algo como "Matador de dor", o que acaba sendo super perfeito para o mundo desse filme. Acho uma pena que o diretor decidiu colocar "Crimes of the Future" no lugar, que aliás, curiosamente em 1970 ele fez um filme com esse mesmo nome, mas NÃO, esse aqui não é um remake, são obras completamente distintas. O motivo? Não faço ideia, talvez seja parte do marketing ele lançar mais de meio século depois algo com esse nome pra gerar teorias, vai saber...
Porém aqui, na hora que comecei a assistir, senti que estava revendo o universo de eXistenZ, com o design bizarro super parecido e uma temática grotesca unindo homem e máquinas com um visual diferenciado que parece biológico, coisa que dá à obra toda essência biopunk, que é aquele conceito de futuro onde a tecnologia usa a biologia para ser mais natural na modificação humana, ao invés de máquinas tradicionais.

E o resultado disso é um mundo que talvez não agrade tanto aos olhos por parecer muito asqueroso. Por exemplo o local onde o protagonista dorme é um tipo de rede feita de carne que o deixa suspenso. Ele come em uma cadeira que parece ser feita de ossos ou alguma coisa semelhante a isso. Não é aquela tecnologia estilosa extremamente artificial.
Fica evidente que a comunidade científica teme o fim da raça humana com as mutações que aconteceram, afinal de contas pode ser um caminho sem retorno os genes dessas pessoas serem passados, impedindo que as pessoas voltem a ser o que já foram algum dia. Portanto, embora seja focado nesses artistas, a história também arranha um pouco sobre a seriedade e medo que cientistas têm disso fugir do controle a ponto de mudarem pra sempre.

É apresentado um conceito interessante que de certa forma me lembrou o bizarro Tetsuo, sobre o desejo pelo aço e fusão com ele. Mas no caso aqui, é o desejo pelo plástico que algumas pessoas passam a ter. E a coisa é colocada como sendo um processo natural, do homem criando algo artificial e se fundindo a ele, passando a fazer parte dele...
 
O plástico é o símbolo máximo do que é artificial, e aqui temos meio que essa alegoria sobre nós criarmos e usarmos tanto isso, que passa a fazer parte de nós. Lembrando que em 2020, o mundo ficou chocado com o estudo que mostrou fetos sendo desenvolvidos com a presença de microplásticos na placenta.

E isso nos leva novamente à uma outra ideia que o diretor apresentou em 1983, o fenomenal Vidrodrome, que fala sobre a simbiose do homem com a tecnologia e vício em violência e sexo. Sobre como a própria humanidade criou algo viciante que ficou híbrido com ela, estendendo sua consciência pra um outro patamar.
Já aqui, temos uma coisa realmente semelhante e que inclusive enquanto eu assistia, senti estar vendo Vidrodrome novamente, mas com o conceito voltado a algo muito mais físico e carnal, exigindo menos do conceito filosófico e mais de uma ideia científica. Talvez nem todo mundo goste disso por poder parecer mais do mesmo, porém realmente me agradou.

Uma coisa curiosa que novamente ressalta a ideia de Sword and Sorcery, sobre você não saber o que aconteceu com o mundo, é que toda a ambientação parece latina. Os personagens aparentemente são americanos ou canadenses, mas o resto, as casas, as formas das pessoas em geral se vestirem, todas têm o clima de algo que está acontecendo na América do Sul.
Isso acaba sendo um detalhe apenas estético, mas que faz toda a diferença como ficção científica. Afinal de contas é algo que se passa no futuro, com máquinas esquisitas super tecnológicas, pessoas sofrendo mutação, mas parece uma cidadezinha no interior do Nordeste brasileiro. Tudo com um clima muito misterioso, com ruas apertadas e vazias.

Certamente o elenco também vai chamar a atenção por ter alguns rostos de obras variadas, causando aquela familiaridade natural, contando com a presença de Viggo Mortensen, o Aragorn do Senhor dos Anéis, Léa Seydoux, que dá o rosto e voz à Fragile, de Death Stranding, Kristen Stewart, a Bella de Crepúsculo e mais.

Enfim, "Crimes do Futuro" é um filme bem grotesco, visceral, e pode causar um enorme desconforto. Como filmes do Cronenberg em geral, eu não acho que esse seja para todo mundo e pode ser um verdadeiro tédio, mas se você gosta de ficção científica mais profunda, apresentando um mundo possível, deve adorar esse.

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