O Segredo do Abismo | Filme que moldou os efeitos especiais

Existem certos filmes que mudam o rumo do cinema em vários aspectos, e um deles é "The Abyss", de 1989, dirigido por James Cameron, que também fez outras obras grandiosas, como "Avatar" e "Titanic". Mas esse foi um daqueles que foi um verdadeiro fracasso comercial, se tornando popular apenas depois de seu tempo, assim como aconteceu com "Blade Runner".
 
A história apresenta um submarino que é atacado e destruído por um suposto veículo russo. Mas a eminente chegada de um furacão ao local, complica uma investigação e isso leva a marinha americana a contratar uma equipe de mergulhadores profissionais que está mais próxima, a ir primeiro até o lugar e localizar o submarino. No entanto logo descobrem que o objetivo não é apenas esse, além da presença de uma coisa inexplicável no lugar.
Originalmente, James Cameron escreveu um conto na época da escola e acabou decidindo adaptar para filme. Evoluiu a ideia e a deixou mais robusta, porém tinha como foco provocar a sensação de um filme espacial, mas embaixo d'água. Por acaso, ele é o diretor também de Alien 2, e portanto você nota facilmente essa atmosfera espacial.

O que por sinal acabou caindo muito bem e mostrando que temos um ambiente tenebroso aqui na terra mesmo. Na literatura já era algo usado há muito tempo, como podemos ver no universo de H.P. Lovecraft, e até podemos ver o horror vindo dos mares em "Tubarão", porém aqui a coisa era diferente, mostrando toda a tecnologia e complexidade de uma equipe submersa, sem contar com a claustrofobia natural.
Acredito que o fato desse filme ter sido um fracasso em seu tempo, tenha sido exatamente a complicada falta de público alvo. A sua proposta caríssima com efeitos especiais atrai naturalmente o pessoal da ficção científica, mas ao mesmo tempo pode assustar o povo que gosta de obras mais científicas que ficção. O problema é que o que temos aqui é algo que atrairia muito esse segundo público, mas é parado demais para entreter o primeiro. Por acaso a mesma característica de Blade Runner, que é extremamente filosófico apesar da estética. 

Esse foi o primeiro filme a contratar múltiplos estúdios de efeitos especiais para que cada um faça o que tem de melhor em uma área apenas. O principal motivo foi evitar sugar demais e deixar a equipe de efeitos escassa e correndo pra tentar entregar algo de qualquer jeito. O resultado foi fenomenal, e certamente é o que realmente atrai o público.
É difícil não ver a cena do tentáculo de água formando o rosto dos personagens e não sentir ao menos um certo grau de curiosidade sendo despertada, especialmente porque dá pra notar que é um filme velho e tem uma elegância a mais em um efeito tão bem feito, levando em consideração o tipo de tosqueiras que tínhamos naquele tempo e até hoje vemos muito por aí.

A equipe inteira, incluindo produção e atores, tiveram que tirar certificado oficial de mergulhador pra poder filmar. Rolou gente se afogando, inclusive o próprio James Cameron, frustração da equipe, que inclusive muitos pararam de falar com o diretor porque foi um processo horrível e extremamente árduo. E uma pressão enorme para fazer cenas difíceis de verdade, inclusive sem dublê... Portanto as cenas de personagens sem capacete sendo carregados ou com líquido no capacete, eram todas de verdade.
Inclusive o ator Ed Harris, chegou a chorar, graças a um afogamento que teve. Uma das cenas em que um ratinho de laboratório é submerso em perfluorocarbono, é bem cruel e foi real, sendo necessários cinco ratos pra fazer a cena. Todos se afogando no composto, que permite respirar o líquido. Um deles fez cocô na coisa toda em meio ao desespero.

E toda essa tirania foi feita exatamente para apresentar um filme robusto e que você sente muito bem que os personagens realmente sabem o que estão fazendo. Passa a sensação de uma equipe real e competente. Esse não é daquele tipo de filme cheio de personagens genéricos que estão ali só pra morrer, na verdade a morte tem muito pouco foco nesse filme e você observa bem os personagens usando termos técnicos constantemente e mostrando que sabem o que estão fazendo.
Aliás, acredito que esse filme tenha sido uma das inspirações para "Starcraft". Eu sei bem que anteriormente já vimos um toque de cowboys espaciais por aí, mas aqui temos em alguns elementos que me lembram muito, uma personagem de chapéu e música country rolando em um dos pequenos veículos, dando um toque bem peculiar, isso sem contar com o visual glamouroso das criaturas, que tem suas semelhanças com a raça Protoss.

Mas apesar de tudo, esse é um filme que é preciso se ver com energia o suficiente. Ele é um daqueles filmes que tem uma estética de "horror cósmico", mas que não é um filme de terror. O conflito apresentado é bem humano, relacionado a coisas como cobiça e ira. Porém o ambiente em si é muito mais algo benigno, semelhante a atmosfera de filmes como "Interestelar" e "A Chegada", onde não se sente o peso do desconhecido.
E graças a isso é que realmente recomendo que se for assistir, veja se é seu tipo de filme, pois o que temos aqui é uma equipe lidando com problemas relacionados a um submarino detonado e tudo prestes a desmoronar, enquanto também lidam com problemas militares. Por acaso tem uma coisa lá fora, mas o foco não é fazer algo do tipo "O Enigma do Horizonte".

Enfim, um filme interessante sem dúvidas, mas feita para um público mais interessado em ver um drama científico. Se você é do tipo que não gosta de filmes sem muito foco no mistério, talvez isso desagrade bastante e se quiser assistir, é melhor estar descansado para encarar as mais de duas horas, pois pode ser bem cansativo. Agora se você se interessa em filmes que procuram mostrar algo de uma maneira mais realista e ainda ter um toque de ficção científica, esse é pra você!

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