Pathologic 2 | RPG psicológico de mundo aberto extremamente robusto

Eu não lembro a última vez, ou mesmo se já fiz isso antes, porém esse jogo aqui me fez certo dia tirar a madrugada pra fazer tudo o que eu tinha que fazer no dia seguinte só pra poder ficar livre pra jogar o dia inteiro. Isso porque me encantei completamente com essa obra prima e me surpreendeu o primeiro não ser tão falado. Se você acha atmosférico ver histórias envolvendo pragas como a peste negra, gosta de mundo aberto, RPG e um toque beeeem leve de fantasia sombria, certamente vai adorar!


Na história, você assume o papel de Burakh, um jovem cirurgião que recebe uma carta de seu pai, pedindo para voltar urgentemente para a cidadezinha em que cresceu. Sem terminar os estudos, ele volta imediatamente para descobrir o que fez seu pai enviar essa carta. Mas ao chegar no lugar, uma quantidade enorme de problemas passam a surgir.

Eu sinceramente não sei nem por onde começar essa análise. Esse é daqueles jogos que tem tanta coisa pra se falar, que acabo querendo dizer tudo de uma vez. Quando fui jogar, não estava pretendendo zerar. Queria apenas jogar o suficiente para entender a mecânica e pegar elementos o suficiente para poder escrever sobre, já que estou atolado de coisas pra fazer. Porém depois que isso aconteceu, não consegui simplesmente deixar esse pra jogar inteiro depois. Esse jogo é maravilhoso demais!

A sensação de liberdade, mecânicas complexas e forte narrativa que eu tive, foi muito semelhante a de jogos antigos. Aqueles que você se impressiona em como são robustos. Em especial Fallout 2, que envolvia tribos, dando um certo toque espiritual à coisa, tinha forte narrativa e um mundo cheio de coisas pra explorar.

Aqui você tem um mundo aberto em uma cidadezinha rural, é algo realmente lindo! Uma paleta de cores sombrias, tudo meio cinza. E o design é do que parece ser uma cidade russa clássica do começo do século XX. Existe aquele estilo industrial com chaminés gigantes, contendo  uma estação de trem, fábrica, um monte de operários, vários estabelecimentos comerciais, campo, rio, asilo, catedral, construções nos arredores, entre outras coisas. É muito robusto, muito cheio de detalhes.

Na real, eu não imaginei que seria um mundo aberto. Sabia que era em uma cidade, mas imaginei que fosse aqueles jogos cheio de áreas que você entra em uma, vai até o fim do beco, e clica pra passar pra próxima. Mas é aberto mesmo, inclusive com uma imensa quantidade de ambientes internos. Esses sim tem loading enquanto você tá abrindo a porta pra entrar (Pra sair não tem loading), mas no geral você vaga de forma bem livre.

O jogo tem um ciclo de dia e noite de um jeito que eu nunca vi antes, pois aqui isso realmente importa. Além da cidade se transformar dependendo do horário, cada dia e cada noite são especiais, com acontecimentos especiais. Ou seja, se você deixar um dia passar,  perderá alguns eventos pra sempre. E na cidade acontece várias coisas, inclusive isso aumenta a rejogabilidade demais, pois você pode jogar de um jeito diferente e ver um monte de coisas que não viu na primeira vez.

Durante os dias, há pessoas andando na rua, você pode conversar com elas, trocar informações ou negociar, trocando itens. É uma cidade em meio ao caos, e as pessoas precisam de itens, sendo assim o comercio é frequente e praticamente todos os habitantes da cidade tem coisas pra trocar. Com o tempo você vai pegando prática e entendendo o tipo de coisa que cada um gosta.

De vez em quando você pode achar um grupo de pessoas e um deles ter um item que você quer, mas você não tem nada que ele queira, e assim vai nos outros e tenta achar algo que você sabe que aquele tipo de pessoa pode se interessar. Por exemplo, existe um grupo de crianças que gosta de coisas afiadas, já adultos não vão negociar com você se você não for confiável naquele distrito.

Há os negociantes fixos, alguns trocam itens em certos pontos da cidade e são especializados em achar determinado tipo de produto. Já outros são donos de comércio mesmo, mercearia, farmácia, lojas de roupas e alguns outros estabelecimentos com serviços peculiares, tipo tráfico de órgãos e sangue humano.

Você tem uma lista de atributos, o primeiro é estamina, que serve pra correr, pular e atacar. Os outros quatro são fome, sede, imunidade e cansaço, que se você deixar secarem começam a te dar dano no último atributo, que é vida, que por sua vez se secar, você morre. Imunidade é um atributo que começa a cair se você entrar em áreas infectadas, comer comida podre ou beber água infectada, já cansaço pode ser saciado quando dorme, mas ao fazer isso, horas do dia passam e você pode perder oportunidades.

Mas até mesmo durante o sono acontecem coisas, isso porque você tem sonhos, sendo que muitos deles são reveladores quanto a história. Alguns são meramente esquisitos, como uma mulher parada em frente a um enorme triângulo luminoso, já outros são conversas ou lembranças do personagem, isso te ajuda a entender as coisas.

A noite alguns estabelecimentos fecham, outros abrem, por exemplo o muambeiro noturno, que eu não entendi como é que ele atua, mas vez em quando abre as portas e compra um monte de coisas estranhas, como frascos quebrados e gases cheias de sangue. Também rolam certos eventos como apresentações no teatro, encontros estranhos no asilo e uma reunião de crianças na estação de trem.

Mas a noite não é só alegria, a madrugada cai e os bandidos surgem, algo que sinceramente, é incrível! É difícil ver um jogo de mundo aberto que me faça andar olhando para os lados, ou quase cuspir o coração ao ver lá na frente, saindo alguém suspeito de um bequinho. Acho que We Happy Few é a experiência mais próxima que posso imaginar. Como o jogo tem estamina, você tem limitações para correr, então talvez não seja uma boa ideia andar correndo o tempo todo, para se aparecer um bandido, você ter pra onde fugir.

Alguns bandidos usam armas e a coisa pode piorar, pois o dano é imenso, porém você também pode fugir, achar um guarda e ele te ajudará. No entanto não é garantia de segurança, até mesmo os guardas podem chegar a um ponto que não aguentam mais e fogem, ou mesmo são assassinados. Especialmente quando tem grupos de bandidos, já vi juntar três em um. Mas ao menos te dá tempo para fugir, e em alguns casos, há dois guardas e aí fica melhor.

Você pode lutar com os punhos ou usar armas de corte, mas elas vão desgastando até quebrar ou perderem a eficácia. Também é possível usar armas de fogo, mas são extremamente caras e as munições limitadas. Além disso é preciso ter um traficante pra te conseguir uma, já que não são vendidas em lojas comuns. Então quando você dá um tiro com uma arma de fogo, você pode sentir que é seu dinheiro que acabou de ser disparado, já que balas valem muitíssimo como moeda de troca.

No combate existem vários destinos, o primeiro é você morrer, o que te enviará para um ambiente onde vai rolar uma narração e você será enviado de volta com uma penalidade permanente nos seus atributos. É... Dark Souls gostou disso, porém aqui é permanente mesmo, suas barras de atributos diminuem pra sempre, e não adianta dar loading, todos os seus carregamentos recebem a punição, mesmo que seja do começo do jogo. Então morrer não é nada bom, morra o suficiente e veja o jogo virar um verdadeiro inferno, especialmente porque você já está morrendo o tempo todo com os medidores de cansaço, fome e sede te infernizando.

O segundo destino contra um inimigo é você bater tanto a ponto dele se render, nesse caso vai levantar as mãos e você pode roubar os itens dele. Mas bandidos sempre tem mais... E você pode ser ambicioso e decidir matá-lo para pegar mais, isso fará sua popularidade subir no distrito, já que eles gostam de quem mata bandido. 

Por outro lado, você pode ser ainda mais ambicioso e querer MAIS! E bom... Você é um cirurgião né? Então se tiver uma ferramenta de corte, pode equipar e extrair os órgãos do cara, sendo que existe chance de estragar dependendo da ferramenta usada, por tanto as de boa qualidade te dão maior chance. E se você tiver um frasco, pode também drenar o sangue dele. Mas isso vai fazer sua popularidade diminuir no distrito.

Você tem que ficar de olho na sua popularidade, se por um lado você é livre para matar, por outro chega a um nível em que as pessoas não confiam em você a ponto de não quererem comercializar, e você precisa de comida, de medicamentos e itens em geral. E se te odiarem no lugar, a população pode se revoltar e te atacar a luz do dia.

Então sim, você pode ser um psicopata que mata gente e extrai órgãos, mas tem consequências e é preciso ficar de olho, pois se for necessário atravessar a cidade para chegar em um lugar onde confiam em você, a sua vida pode virar um verdadeiro inferno, especialmente com coisas como bandidos e a praga solta na cidade.

Com os órgãos, você pode lucrar ao vender no mercado negro ou pode usar isso em nome da ciência, e no seu laboratório, criar medicamentos tunados. Que aliás, você pode fazer upgrades no equipamento, dormir e beber. E é também a sua base onde você se prepara para sair em busca de pacientes.

Nesse quesito o jogo parece Vampyr, porém mais complexo. Se você escolher jogar atuando como médico, pode visitar pacientes e tem que identificar o problema fazendo testes, dando poções e vendo se o corpo reage e medicamentos para controlar a dor. Cada poção aumenta a dor, mas revela o sintoma, se a dor for extrema, você não pode dar mais poções e precisa diminuí-la, quando tiver sintomas o suficiente, pode dar pílulas.

A vantagem de atuar como médico é que você diminui a morte dos NPC's, e aqui após a meia noite, você recebe uma "loteria" pra ver o que acontece. Quanto pior o status do paciente, maior a chance da "lotaria" fazer a coisa ir para o próximo nível. Pode ir de saudável para "em perigo", de "em perigo" para "infectado" e de "infectado" para "Morto".

Eu nunca me senti tão mal pela morte de um personagem como nesse jogo, tem alguns que eu realmente quis desenvolver a história, mas não consegui tratar e eles acabaram morrendo, e bateu aquela sensação de "Nossa meu... O jogo vai ser sem ele agora? Caramba... Que droga...". Liguei tanto pra isso que teve um que dei loading várias vezes, mas não consegui salvar o cara infelizmente.

Alguns desses personagens te fornecem informações, itens bons e negociam com você. Então é possível perder um bom ponto de negócios porque o responsável morreu. Outra vantagem de tratar de pacientes, é que você recebe pagamento diário por isso, o que é um incentivo, e também tem missões alternativas relacionada a medicina, indo desde extrações de órgãos até localizar pacientes vivos e levar para dentro do hospital. 

Então pode valer a pena ir até o campo colher ervas, identificá-las e entender as combinações para criar certas coisas. Ou você pode simplesmente pegar elas e vender em um bar da cidade que os preços mudam todo dia, aumentando ou diminuindo muito e você escolhe o melhor momento para vender. A escolha é sua na forma que quiser atuar no lugar.

Os acontecimentos do jogo são robustos, cada dia é um dia que realmente rola algo interessante e você vai vendo a cidade mudando. Por exemplo, você não começa com a praga, e é emocionante quando você vê os primeiro indícios e finalmente ela cai. Também tem personagens que inicialmente não estão na cidade e chegam e fazem dar uma mudança radical na "ordem" do lugar. E as pessoas começam a falar sobre o que tem rolado. As conversas conduzem a história para novos rumos, abrindo missões diferentes e dando novas oportunidades.

A narrativa inclusive é um dos pontos mais fortes da história, além de terem tramas interessantes, você sente o peso do lugar. Tem problemas políticos com a cidade em caos e um homem poderoso tentando te manipular, tem o pavor da população com um assassino a solta na cidade e a polícia em busca, tem os amigos de infância que você reencontra e várias outras coisas.

Entre as narrativas, uma que se destaca muito é o povo da planície, que você faz parte. Nômades que tem um acampamento nas redondezas da cidade e que exigem que você assuma uma posição que foi determinado. E aí tem um toque espiritual, as crenças e uma baita de uma cultura robusta. Você pode dizer que é um homem da ciência, ou pode abraçar desde o dialeto até rituais estranhos.

Mas tem outros grupos na cidade, como as crianças de rua que usam máscara de cachorro e tem seus próprios problemas que você pode ou não se envolver para conseguir informações. Porém o mais interessante é que elas tem também suas crenças estranhas como se fosse um tipo de pequeno tribo urbana que acreditam em magias. Em uma conversa com o líder ele inclusive fala sobre um certo problema de forma séria, mas diz "Não vale a pena te explicar detalhes, você é velho demais para acreditar em contos de fada, mas o que importa é que...". 

Ou seja, bate aquela sensação de mundos separados, de que estão vivendo sua própria cultura e se comunicam com seu personagem usando outra língua para você se encaixar melhor. Existe inclusive uma outra gangue de crianças que é pé-no-chão e acha balela esse jeito da gangue rival agir, mas que são felizes de seu próprio jeito.

Apesar do jogo parecer um lugar antigo real, não se passa no nosso mundo e existe um toque de fantasia. Isso só fica realmente claro graças a um "povo lesma" que são hominídeos e bem religiosos. Você os encontra vez ou outra. E tem outras coisas que você não sabe o que são exatamente e podem ou não ser "magia". Como o ronco da terra, que é um barulho que parece um gemido de dor que vez ou outra aparecem e alguns dizem que é a terra sofrendo.

A peste também é um elemento que está entre a razão e religião. Para uns é basicamente uma epidemia, para outros é algo mais. E isso fica intrigante porque você entra em áreas infectadas e de vez em quando vê a praga se projetar em um formato sombrio e correr em direção a um lugar, e você tem que sair da frente ou se lasca na imunidade.

Aliás, a cada dia os distritos infectados variam, e nas divisões há fogueiras com guardas, impedindo as pessoas de passarem. Se você entrar, sua imunidade não para de cair. Essa variação tem que te fazer se adaptar e bolar estratégias. As vezes vale mais a pena deixar para conferir algo depois, em outras você entra na peste e lá é o caos... Pessoas doente na rua tentando se aproximar, bandidos, água infectada, é só a bagaceira.

Enfim, tá aí um baita de um jogo robusto maravilhoso, lembra obras antigas como E.Y.E: Divine Cybermancy, porém com maior liberdade. Sem sombra de dúvidas vale demais a pena! Recomendo sempre dar uma olhadinha no preço dele na Greenman Gaming antes de comprar na steam, algumas vezes os preços deles estão bem abaixo do normal, e sempre lembre de olhar os cupons de desconto que eles espalham pelo site, que deixa a coisa mais barata ainda, dê uma conferida aqui.

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