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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A Pedra Negra - Conto macabro do criador de Conan

Como já falei na matéria sobre Os Mitos de Cthulhu, aquele universo era algo extenso demais para se limitar apenas aos contos de H.P. Lovecraft, e um grande erro é achar que a expansão dele só aconteceu após a morte do autor. Enquanto Lovecraft era vivo os contos em  seu universo já eram criados de forma maravilhosa por outros.

E como citado na matéria sobre o livro "O mundo sombrio", o autor era amigo de Robert E. Howard, que é ninguém menos do que o criador do bárbaro Conan, que embora não seja tão influente na cultura pop como as criaturas de Lovecraft são, é um personagem absurdamente mais conhecido e que todo mundo sabe quem é.


Sendo ele amigo de Lovecraft, também fez sua contribuição para os Mitos de Cthulhu, então sim, você acha histórias lovecraftianas escritas por outras mãos enquanto o autor ainda estava vivo. E o melhor é que amigos costumam se entender né? Sendo assim você vê bem a essência daquele universo, mas com um toque especial do próprio Robert, afinal de contas ele tinha sua própria personalidade.

Uma coisa engraçada é que Robert apresenta as coisas de uma forma muito mais fluída que o Lovecraft e sendo os dois da mesma época é engraçado ver isso. Afinal de contas o autor de terror tinha mania de escrever de forma complicada demais, o que causa a falsa impressão de que é porque ele é dos anos 20/30 mas aí você lê um conto lovecraftiano de Robert e passa a mesma coisa, porém de uma maneira extremamente mais fluída.

E hoje vou postar aqui um dos contos presentes no livro O mundo sombrio, que é o "A Pedra Negra", um conto de 1931 que foi publicado na edição de nocembro da revista Weird Tales. Confiram:


A Pedra Negra

“Dizem que criaturas sórdidas de Tempos Antigos ainda espreitam.
Em sombrios cantos esquecidos do mundo.
E Portões ainda se abrem para libertar, em certas noites. 
Formas confinadas no Inferno.”
“O Povo do Monólito” 
Justin Geoffrey

EU LI ISSO PELA primeira vez no estranho livro de Von Junzt, o alemão excêntrico que viveu tão curiosamente e morreu de forma tão horrenda e misteriosa. Foi sorte minha ter acesso ao seu “Cultos Inomináveis” na edição original, o chamado Livro Negro, publicado em Dusseldorf em 1839, pouco antes de que a ruína que o espreitava tomasse conta do autor. Colecionadores de literatura rara estavam familiarizados com “Cultos Inomináveis”, principalmente devido à tradução barata e deficiente que foi pirateada em Londres por Bridewall em 1845, e a edição cuidadosamente expurgada, publicada pela Editora Golden Goblin de Nova York, em 1909. Mas, o volume no qual tropecei foi uma das cópias alemãs não expurgadas, com capa pesada de couro negro e fechos enferrujados de metal. Duvido que, atualmente, existisse mais do que meia dúzia de tais volumes no mundo, pois a quantidade publicada não foi grande, e quando o boato de como fora a morte do autor se espalhou, muitos proprietários do livro queimaram seus volumes em pânico.

Von Junzt passou a vida inteira (1795-1840) se aprofundando em assuntos proibidos; viajou por todas as partes do mundo, fez parte de inúmeras sociedades secretas e leu incontáveis originais de livros e manuscritos esotéricos pouco conhecidos; e nos capítulos do Livro Negro, que variam de surpreendente clareza de exposição à obscura ambiguidade, há afirmações e insinuações que congelam o sangue do homem pensativo. Ler o que Von Junzt ousou publicar, levanta especulações inquietantes quanto ao que ele não ousou contar. Quais questões obscuras, por exemplo, estavam contidas naquelas páginas cuidadosamente escritas que constituíam o manuscrito não publicado, no qual ele trabalhou incansavelmente por meses antes de sua morte, e o qual estava rasgado e espalhado por todo o chão da câmara fechada e trancada, onde Von Junzt foi encontrado morto com as marcas de garras em sua garganta? Nunca se saberá, pois o amigo mais próximo do autor, o francês Alexis Ladeau, depois de passar a noite inteira reunindo os pedaços e lendo o que estava escrito, os queimou e cortou a própria garganta com uma navalha.

Mas o conteúdo do material publicado é perturbador o suficiente, mesmo se for aceita a visão geral de que ele apenas representa os delírios de um louco. Ali, entre muitas coisas estranhas, encontrei menção à Pedra Negra, aquele monólito curioso e sinistro que se eleva entre as montanhas da Hungria, e sobre a qual tantas lendas sombrias se aglomeram. Von Junzt não devotou muito espaço a ela, a maior parte de seu trabalho sombrio diz respeito a cultos e objetos de veneração sinistra, os quais ele afirmava que existiam em sua época, e parecia que a Pedra Negra representa alguma ordem ou ser perdido e esquecido há séculos. Mas ele falou sobre isso como uma das chaves, uma frase usada muitas vezes por ele, em várias narrativas, constituindo uma das obscuridades de seu trabalho. E ele brevemente mencionou aparições curiosas perto do monólito na Noite de Solstício de Verão. Mencionou a teoria de Otto Dostmann, que diz que o monólito era um remanescente da invasão dos hunos e fora erigido para comemorar a vitória de Átila sobre os godos. Von Junzt contradisse esta declaração sem fornecer fato refutatório algum, apenas observando que atribuir a origem da Pedra Negra aos hunos era tão lógico quanto assumir que Guilherme O Conquistador construíra Stonehenge.

Esta implicação de importante antiguidade despertou imensamente meu interesse e, após algumas dificuldades, consegui localizar uma cópia mofada e devorada por ratos do “Remanescentes de Impérios Perdidos”, de Dostmann (Berlin, 1809, Editora “Der Drachenhaus”). Fiquei desapontado ao saber que Dostmann referiuse à Pedra Negra ainda mais brevemente do que Von Junzt, dispensando a ela poucas linhas, como um artefato comparativa-mente moderno em contraste com as ruínas greco-romanas da Ásia Menor, as quais eram seu tema favorito. Ele admitiu sua inabilidade para entender os caracteres desfigurados no monólito, mas os declarou indiscutivelmente mongoloides. Entretanto, pelo pouco que sei sobre Dostmann, ele mencionou o nome da vila adjacente à Pedra Negra, Stregoicavar, um nome nefasto, que significava algo como Cidade da Bruxa.

Um exame minucioso em guias e artigos sobre viagem não me forneceu maiores informações. Stregoicavar, que não pude encontrar em mapa algum, encontra-se em uma região selvagem e pouco frequentada, fora da rota de turistas casuais. Mas encontrei assunto para pensar no “Folclore Magiar”, de Dornly. Em seu capítulo sobre Mitos de Sonhos, ele menciona a Pedra Negra e relata algumas superstições curiosas relacionadas a ela, especialmente a crença de que se qualquer pessoa dormir perto do monólito, será eternamente assombrada por pesadelos monstruosos; e citou contos dos camponeses a respeito de pessoas muito curiosas que se aventuraram a visitar a Pedra na Noite de Solstício de Verão e morreram loucas devido a algo que viram ali.

Isto foi tudo que pude vislumbrar de Dornly, mas meu interesse foi até mais intensamente despertado quando senti uma aura distintamente sinistra sobre a Pedra.

A insinuação de antiguidade sombria e a alusão repetitiva a eventos sobrenaturais durante a Noite de Solstício de Verão tocaram algum instinto adormecido em meu ser, da mesma maneira que se sente, mais do que se escuta, o fluir de algum rio subterrâneo sombrio dentro da noite.

E, repentinamente, vi uma conexão entre esta Pedra e certo poema estranho e fantástico, escrito pelo poeta louco, Justin Geoffrey: O Povo do Monólito. Investigações levaram à informação de que Geoffrey realmente escrevera aquele poema enquanto viajava pela Hungria, e não duvidei de que a Pedra Negra fosse exatamente o monólito ao qual ele se referia em seu estranho verso. Lendo suas estrofes novamente, senti mais uma vez as estranhas agitações sombrias de induções subconscientes que percebera quando pela primeira vez li sobre a Pedra.

Eu andara procurando por um local para passar umas férias breves, e me decidi; fui para Stregoicavar. Um trem antiquado me levou de Temesvar até uma distância ainda notável de meu objetivo, e uma viagem de três dias em um coche que sacudia me trouxe até o pequeno vilarejo que repousa em um vale fértil, nas montanhas cobertas de pinheiros. A viagem em si foi tranquila, mas, durante o primeiro dia, passamos pelo velho campo de batalha de Schomvaal, onde o bravo cavaleiro polaco-húngaro, o Conde Boris Vladinoff, fez sua corajosa e infrutífera resistência contra os exércitos vitoriosos de Solimão, o Magnífico, quando o Grande Turco varreu a Europa Oriental em 1526.

O cocheiro me mostrou uma grande pilha de pedras despedaçadas sobre uma colina próxima, debaixo da qual, ele disse, descansam os ossos do bravo Conde. Lembro-me de uma passagem de “Guerras Turcas”, de Larson. “Após o conflito” (no qual o Conde, com seu pequeno exército, repelira a guarda turca que se encontrava na dianteira) “o Conde permanecia em pé debaixo das paredes semidestruídas do velho castelo na colina, dando ordens quanto à disposição de suas tropas, quando um assistente lhe trouxe um pequeno estojo laqueado que foi tomado do corpo do famoso escriba e historiador turco, Selim Bahadur, que tombara na luta. O Conde pegou dali um rolo de pergaminho e começou a ler, mas logo ficou muito pálido devido ao conteúdo e, sem dizer uma palavra, retornou o pergaminho ao estojo e o enfiou em seu capote. Neste instante exato, repentinamente uma bateria turca abriu fogo, as balas atingiam o velho castelo, e os húngaros ficaram horrorizados ao ver as paredes desmoronarem em ruínas, cobrindo completamente o bravo Conde. Sem um líder, o pequeno exército corajoso foi feito em pedaços e, durante a guerra avassaladora dos anos seguintes, os ossos dos nobres homens nunca foram recuperados. Atualmente, os nativos apontam para uma pilha enorme e deteriorada de ruínas próxima a Schomvaal sob a qual, eles dizem, ainda repousa tudo o que os séculos deixaram do Conde Boris Vladinoff.”

Achei o vilarejo de Stregoicavar lírico e sonolento, que aparentemente contradizia seu cognome sinistro, um redemoinho do passado desprezado pelo Progresso. As casas estranhas, e as vestimentas e condutas ainda mais estranhas da população, pertenciam a algum século anterior. Eles eram amigáveis, ligeiramente curiosos, mas não inquisitivos, embora visitantes do mundo externo fossem extremamente raros.

“Dez anos atrás outro americano veio para cá e ficou poucos dias no vilarejo” disse o proprietário da taverna onde eu me hospedara, “um indivíduo jovem e esquisito—murmurou para si mesmo — um poeta, eu acho.”
Entendi que ele deveria estar se referindo a Justin Geoffrey.

“Sim, ele era poeta”, respondi, “e escreveu um poema sobre um pouco da paisagem próxima a este exato vilarejo.”

“É mesmo?” O interesse de meu anfitrião foi aguçado. “Então, uma vez que todos os grandes poetas são estranhos em seus discursos e atitudes, ele deve ter alcançado grande fama, pois suas ações e conversas eram as mais estranhas que já vi.”

“Como é normal com artistas”, respondi, “a maior parte de seu reconhecimento veio com a sua morte.”

“Ele está morto, então?”

“Ele morreu gritando em um hospício cinco anos atrás.”

“Que pena, que pena”, suspirou meu anfitrião com simpatia. “Pobre rapaz, ele olhou por tempo demais para a Pedra Negra.”

Meu coração deu um salto, mas disfarcei meu interesse ardente e disse casualmente. “Escutei algo sobre esta Pedra Negra; está em algum lugar próximo a este vilarejo, não é?”

“Mais próximo do que os cristãos gostariam”, respondeu. “Olhe!” Ele me puxou para uma janela de treliça e apontou para as encostas cobertas de pinheiros das contemplativas montanhas azuis. “Lá, além de onde você enxerga a face nua daquele penhasco saliente está a Pedra amaldiçoada. Pudesse ser moída até o pó e o pó arremessado ao Danúbio para ser levado ao oceano mais profundo! Certa vez tentaram destruí-la, mas cada homem que usou martelo ou marreta contra ela teve um final miserável. Portanto, agora todos a evitam.”

“O que existe de tão maligno sobre ela?”, perguntei com curiosidade.

“É algo assombrado pelo demônio”, ele respondeu inquieto e com o indício de um tremor. “Em minha infância, soube de um homem jovem que veio de terras baixas e riu de nossas tradições. Em sua imprudência, ele foi até a Pedra em uma Noite de Solstício de Verão e, ao amanhecer, cambaleou de volta ao vilarejo, mudo e louco. Algo estraçalhara seu cérebro e selara seus lábios, pois até o dia de sua morte, que chegou logo após, falou apenas para proferir blasfêmias terríveis ou babar bobagens sem nexo.”

“Meu próprio sobrinho, quando era muito pequeno, se perdeu nas montanhas e dormiu na mata, próximo à Pedra e agora, em sua vida adulta, é torturado por sonhos imundos; a noite se torna horrenda devido a seus gritos, e ele acorda ensopado em suor frio”.

“Mas, vamos falar de outra coisa, Herr; não é bom insistir nesse assunto.” Comentei a respeito da idade evidente da taverna e ele respondeu com orgulho. “As fundações têm mais de 400 anos; a casa original foi a única no vilarejo que não se destruiu pelo fogo quando o demônio de Solimão varreu as montanhas. Aqui, na casa que permaneceu nessas mesmas fundações, é dito que o escriba Selim Bahadur estabeleceu seu quartel-general enquanto
assolava a região.”

Soube, então, que os atuais habitantes de Stregoicavar não eram descendentes do povo que residia ali antes da invasão turca de 1526. Os muçulmanos vitoriosos não deixaram um único ser vivo nas cercanias por onde passaram; homens, mulheres e crianças foram varridos em um holocausto rubro de assassinato, deixando uma vasta extensão do país em silêncio e completamente deserta. Os moradores atuais de Stregoicavar são descendentes de fortes colonos vindos dos vales mais baixos, que vieram para o vilarejo arruinado depois que os turcos foram repelidos.

Meu anfitrião não falou sobre o extermínio dos moradores originais com qualquer ressentimento, e percebi que seus antepassados das terras mais baixas olhavam para os montanheses com até mais ódio e aversão do que olhavam para os turcos. Ele foi um tanto vago com relação às causas desta rixa, mas disse que os habitantes originais de Stregoicavar possuíam o hábito de fazer ataques furtivos às planícies e roubar garotas e crianças. Além disso, falou que eles não eram exatamente do mesmo sangue de seu próprio povo; a vigorosa linhagem eslava-magiar se misturou e miscigenou com uma raça aborígene degradada, até que as raças se fundissem, produzindo uma combinação repulsiva. Ele não tinha a menor ideia de quem eram esses aborígenes, mas afirmava que eram “pagãos” e haviam residido nas montanhas desde tempos imemoriais, antes da chegada dos povos conquistadores.

Dei pouca importância a esta história; enxerguei nela um mero paralelo com a fusão das tribos celtas com os aborígenes do Mediterrâneo nas colinas Galloway; com a raça miscigenada resultante que, como os pictos, possui ampla participação em lendas escocesas. O tempo tem um curioso efeito de perspectiva sobre o folclore, e, como as histórias dos pictos se entrelaçaram com lendas de uma raça mongoloide mais antiga, logo a eles foi atribuída a aparência repulsiva dos primitivos atarracados, cuja individualidade se fundiu em narração à lendas pictas, sendo depois esquecida; portanto, pensei, os supostos atributos inumanos dos primeiros aldeões de Stregoicavar poderiam ser atribuídos a mitos obsoletos mais antigos dos invasores hunos e mongóis.

Na manhã seguinte à minha chegada, recebi instruções de meu anfitrião, que as deu com preocupação, e parti para encontrar a Pedra Negra. Uma caminhada de poucas horas nas encostas cobertas de pinheiros me levou até a face do penhasco de pedra sólida e irregular que se projetava de maneira abrupta da montanha. Uma trilha estreita serpenteava para cima e, subindo por ela enxerguei do alto o vale tranquilo de Stregoicavar que parecia cochilar, protegido em ambos os lados pelas grandes montanhas azuis. Choupana alguma ou qualquer sinal de moradia humana existia entre o penhasco onde eu estava e o vilarejo. Vi fazendas espalhadas pelo vale, mas todas estavam do outro lado de Stregoicavar, que parecia se encolher diante das encostas contemplativas que escondiam a Pedra Negra.

O pico dos penhascos provou ser um tipo de planalto densamente arborizado. Depois de uma curta caminhada por meio da densa vegetação, cheguei a uma vasta clareira; ao centro, erguia-se uma figura solitária de pedra negra.

Possuía formato octogonal, com aproximadamente cinco metros de altura e pouco menos de meio metro de espessura. Evidentemente, já fora extremamente polida no passado, mas agora a superfície estava densamente marcada, como se esforços selvagens tivessem sido feitos para destruí-la; mas os martelos haviam feito um pouco mais do que descamar pequenos pedaços da pedra e mutilar os caracteres que um dia evidentemente subiam em uma linha espiral ao redor do objeto, até o topo. A aproximadamente 3 metros da base, estes caracteres estavam quase completamente apagados, sendo muito difícil traçar sua direção. Mais acima estavam mais aparentes, e consegui me contorcer parte do caminho coluna acima e examiná-los de perto. Todos estavam mais ou menos apagados, mas eu tinha certeza de que não simbolizavam linguagem alguma existente hoje na face da Terra. Estou familiarizado com todos os hieróglifos conhecidos por pesquisadores e filologistas e posso dizer, com certeza, que todos os caracteres não se pareciam com coisa alguma que eu já lera ou ouvira em minha vida. A maior semelhança a eles que eu já vira foram alguns rabiscos rudes em uma pedra gigante e estranhamente simétrica em um vale perdido de Iucatã. Lembro-me de que quando apontei para essas marcas, o arqueólogo que estava em minha companhia afirmou que elas representavam desgaste natural ou o arranhar ocioso de algum indígena. Para a minha teoria de que a pedra era, na verdade, a base de uma coluna desaparecida há muito, ele apenas riu, chamando minha atenção para as suas dimensões, as quais sugeriam que, se ela tivesse sido construída com qualquer regra normal de simetria arquitetônica, seria uma coluna de mais de 300 metros de altura. Mas, eu não estava convencido.

Não direi que os caracteres na Pedra Negra fossem similares àqueles na pedra colossal em Iucatã; mas uma pedra sugeria a outra. Quanto à substância do monólito, de novo eu estava perplexo. A pedra da qual era composto era de um negro de brilho débil, cuja superfície, que não estava golpeada ou áspera, criava uma ilusão curiosa de semitransparência.

Passei a maior parte da manhã ali e voltei confuso. Conexão alguma da Pedra com qualquer outro artefato no mundo me era insinuada. Era como se o monólito tivesse sido construído por mãos desconhecidas, em uma era distante e à parte do conhecimento humano.

Retornei ao vilarejo com meu interesse em nada diminuído. Agora, que eu vira o curioso objeto, meu desejo estava ainda mais intensamente aguçado para investigar o assunto e procurar saber quais mãos desconhecidas e por qual estranho propósito a Pedra Negra fora construída há tanto tempo.
Procurei pelo sobrinho do taverneiro e o questionei em relação a seus sonhos, mas ele foi vago, apesar das minhas tentativas. Ele não se importou em discuti-los, mas foi incapaz de descrevê-los com qualquer clareza. Embora ele tivesse os mesmos sonhos repetidamente, e apesar de serem terrivelmente vividos no momento, não deixavam qualquer impressão distinta em sua mente desperta. Ele se lembrava deles apenas como pesadelos caóticos pelos quais enormes chamas rodopiantes atiravam línguas horripilantes de fogo e um tambor negro rugia incessantemente. Apenas de uma coisa ele se recordava claramente, em um sonho, ele vira a Pedra Negra, não em uma encosta da montanha, mas como um pináculo em um castelo negro colossal.

Quanto ao resto dos aldeões, encontrei-os não inclinados a falar sobre a Pedra, com a exceção do professor da escola, um homem de educação surpreendente, que passou muito mais tempo no mundo afora do que o restante.

Ele estava muito interessado no que lhe contei sobre as observações de Von Junzt a respeito da Pedra, e concordou calorosamente com o autor alemão com relação à idade alegada do monólito. Ele acreditava que certa vez existira um coven nas vizinhanças, e que possivelmente todos os aldeões originais tinham sido membros daquele culto de fertilidade que ameaçou arruinar a civilização europeia e originou os contos de bruxaria. Citou o nome exato do vilarejo para provar sua conclusão; não havia sido originalmente chamado Stregoicavar, ele disse. De acordo com lendas, os construtores o haviam chamado de Xuthltan, que era o nome aborígene do local no qual o vilarejo fora construído séculos atrás.

Este fato despertou novamente em mim uma indescritível sensação de mal-estar. O nome bárbaro não sugeria conexões com qualquer raça cita, eslava ou mongol, à qual um povo aborígene destas montanhas, sob circunstâncias normais, teria pertencido.

Era evidente que os magiares e eslavos dos vales mais baixos acreditavam que os habitantes originais do vilarejo eram membros do culto de bruxaria, disse o professor, devido ao nome que lhe deram; nome que continuou a ser usado mesmo depois que os antigos colonos foram massacrados pelos turcos e o vilarejo reconstruído por uma raça mais pura e saudável.

Ele não acreditava que os membros do culto tenham erigido o monólito, mas supunha que o usavam como centro de suas atividades, e, repetindo lendas vagas que haviam sido transmitidas antes da invasão turca, desenvolveu a teoria de que os aldeões degenerados o haviam usado com um tipo de altar no qual ofereciam sacrifícios humanos, usando como vítimas as garotas e os bebês roubados de seus próprios antepassados dos vales.

Ele não levou em consideração os mitos de estranhos eventos durante a Noite de Solstício de Verão, nem a lenda curiosa de uma estranha deidade, a qual se dizia que que era invocada pelas bruxas de Xuthltan com cânticos e rituais selvagens de flagelação e matança.

Nunca visitara a Pedra na Noite de Solstício de Verão, ele disse, mas não teria medo de fazê-lo; seja o que for que existira ou tenha acontecido ali no passado, há muito fora envolto nas brumas do tempo e do esquecimento. A Pedra Negra perdera seu significado, exceto como ligação para um passado morto e empoeirado.

Foi enquanto eu retornava de uma visita a este professor, em uma noite aproximadamente uma semana após minha chegada a Stregoicavar, que uma lembrança repentina me atingiu, era Noite de Solstício de Verão! O momento exato em que as lendas se conectavam com terríveis implicações à Pedra Negra. Afastei-me da taverna e caminhei rapidamente pelo vilarejo.

Stregoicavar permanecia em silêncio; os aldeões se retiravam cedo. Não vi pessoa alguma à medida que caminhei rapidamente para fora do vilarejo e subi em direção aos pinheiros que mascaravam as encostas com escuridão sussurrante. Uma lua prateada flutuava sobre o vale, inundando penhascos e encostas com uma luz estranha e delineando as sombras escuras. Vento algum soprava entre os pinheiros, mas misteriosos murmúrios e sussurros intangíveis existiam fora dali. Certamente em tais noites de séculos passados, minha lunática imaginação me disse, bruxas nuas, montadas em vassouras mágicas, voavam sobre o vale, perseguidas por demônios zombeteiros.

Fui até os penhascos e foi um pouco inquietante notar que a luz ilusória da lua os deixava com uma aparência misteriosa que eu não notara antes à luz fantástica, eles pareciam menos como penhascos naturais e mais como as ruínas de muralhas construídas por ciclopes e titãs, projetando-se das encostas das montanhas.

Livrando-me desta alucinação com dificuldade, fui até o platô e hesitei por um momento antes de mergulhar na escuridão desencorajante da mata. Uma espécie de tensão ofegante pairava sobre as sombras, como um monstro invisível prendendo a respiração para não assustar sua presa.

Livrei-me da sensação que era natural, considerando a lugubridade do lugar e sua reputação maligna e caminhei pela mata, experimentando o sentimento desagradável de estar sendo seguido, e me detive uma vez, com a certeza de que algo na escuridão, pegajoso e oscilante, roçara contra meu rosto.

Cheguei à clareira e vi o alto monólito elevando sua altura sombria acima do gramado. No limite da mata, no lado voltado para os penhascos, existia uma pedra que formava uma espécie de assento natural. Sentei-me, refletindo que era provável que, enquanto estava ali, o poeta louco, Justin Geoffrey, escrevera seu fantástico “O Povo do Monólito”. Meu anfitrião pensou que fora a Pedra que causara a insanidade de Geoffrey, mas as sementes de loucura haviam sido semeadas na mente do poeta muito antes de sua vinda a Stregoicavar.

Uma espiada em meu relógio me mostrou que era quase meia-noite. Recostei-me, esperando qualquer demonstração fantasmagórica que pudesse aparecer. Um vento noturno fraco começou a soprar entre os ramos dos pinheiros, com uma sugestão inquietante de débeis flautas invisíveis sussurrando uma melodia sinistra e malévola. A monotonia do som e meu olhar petrificado para o monólito produziram uma espécie de auto-hipnose; me senti sonolento. Lutei contra este sentimento, mas a dormência se apoderou de mim contra minha vontade; o monólito parecia oscilar e dançar, estranhamente distorcido a meu olhar e, então, adormeci.

Abri meus olhos e tentei me levantar, mas continuava deitado, como se uma mão gelada me agarrasse sem que eu, impotente, pudesse reagir. Um gélido terror se apoderou de mim. A clareira não estava mais deserta. Eu estava em meio a uma multidão silenciosa de pessoas estranhas, e meus olhos arregalados notaram detalhes bárbaros esquisitos nas vestimentas, as quais minha razão me disse que eram antigas e esquecidas, mesmo nessa terra atrasada. Com certeza, pensei, estes eram aldeões que vieram até ali para realizar alguma fantástica assembléia, mas outra espiada me disse que aqueles não eram o povo de Stregoicavar. Eles eram uma raça mais baixa e atarracada, cuja fronte era mais baixa, e cujos rostos eram mais largos e estúpidos. Alguns tinham características eslavas e magiares, mas elas eram degradadas por uma mistura de alguma linhagem estrangeira e mais baixa que eu não conseguia classificar. Muitos vestiam peles de animais selvagens, e toda a sua aparência, tanto de homens como de mulheres, possuía uma brutalidade sensual. Eles me apavoraram e repeliram, mas não me deram atenção. Formaram um vasto meio círculo em frente ao monólito e iniciaram um tipo de cântico, arremessando seus braços em uníssono e balançando seus corpos ritmicamente da cintura para cima. Todos os olhos estavam fixos no topo da Pedra, que parecia invocada por eles. Mas o mais estranho de tudo foi a falta de clareza de suas vozes; a menos de 45 metros de mim centenas de homens e mulheres estavam, sem equívoco algum, levantando suas vozes em um cântico selvagem, e, ainda assim, suas vozes chegavam até mim como um fraco murmúrio indistinguível, como se atravessasse várias léguas de Espaço ou tempo.

Diante do monólito havia uma espécie de braseiro, do qual subia uma fumaça amarela repulsiva, enrolando-se curiosamente em uma espiral que balançava ao redor da coluna negra, como uma grande cobra que serpenteava.

Em um dos lados do braseiro, estavam duas figuras: uma garota jovem, totalmente nua, com mãos e pés amarrados; e uma criança que aparenta ter apenas alguns meses de vida. No outro lado do braseiro, uma velha bruxa estava agachada, com um tipo de tambor negro em seu colo; ela tocava o tambor com leves golpes lentos das palmas abertas, mas eu não conseguia ouvir o som.

O ritmo dos corpos oscilantes foi acelerado e, no espaço entre as pessoas e o monólito, surgiu uma jovem garota nua, os olhos ardentes, os longos cabelos negros voando soltos. Girando vertiginosamente em seus calcanhares, ela rodopiou pelo espaço aberto e caiu prostrada diante da Pedra, onde permaneceu imóvel. Logo após, uma figura fantástica a seguiu; um homem de cuja cintura pendia uma pele de cabra, e cujo rosto estava completamente escondido por uma espécie de máscara feita com uma enorme cabeça de lobo, de modo que parecia um ser monstruoso de pesadelo, horrivelmente composto de elementos tanto humanos quanto bestiais. Segurava um maço de longos gravetos de pinheiro, unidos pelas extremidades maiores, e o luar brilhava em uma corrente pesada de ouro em seu pescoço. Uma corrente menor presa a ela insinuava algum tipo de pingente que não estava aparente.

As pessoas agitavam seus braços violentamente e pareciam redobrar seus gritos para esta criatura grotesca, que galopava pelo espaço aberto com muitas cambalhotas e fantásticos saltos. Vindo até a mulher que permanecia diante do monólito, começou a açoitá-la com os gravetos que carregava, e ela pulou e girou para os labirintos selvagens da dança mais incrível que eu já vira. Seu algoz dançava com ela, mantendo o ritmo selvagem, igualando cada giro e salto, enquanto espalhava incessantemente golpes cruéis em seu corpo nu. E a cada golpe ele gritava uma única palavra, de novo e de novo, e todos a gritavam em resposta. Eu conseguia ver o movimento de seus lábios, e, então, o murmúrio fraco e longínquo de suas vozes se fundiu e misturou com outro som distante, repetido de novo e de novo com êxtase salivante. Mas qual era a palavra, não pude entender.

Em giros cambaleantes rodopiavam os dançarinos selvagens, enquanto os espectadores, ainda em suas trilhas, acompanhavam o ritmo de sua dança com o oscilar de corpos e braços. A loucura crescia nos olhos da devota cambaleante, e era refletida nos olhos dos espectadores. Mais selvagem e extravagante se tornou o frenesi rodopiante daquela dança louca, se tornou algo bestial e obsceno, enquanto a bruxa velha uivava e tocava o tambor como uma louca, e os gravetos estalavam uma melodia do demônio.

Sangue escorria dos membros da dançarina, mas ela parecia não sentir o açoitamento, exceto como um estímulo para mais perversidades de movimento ultrajante; limitada dentro da bruma da fumaça amarela, que agora espalhava tênues tentáculos para abraçar as duas figuras flutuantes, ela parecia se fundir com aquela bruma nociva e se cobrir com ela. Então, surgindo para a clara visão, seguida de perto pela besta que a açoitava, se atirou em uma indescritível explosão de loucos movimentos dinâmicos, e na crista dessa onda louca, repentinamente caiu no gramado, tremendo e ofegante, como se completamente superada por seus esforços frenéticos. O açoitamento continuou com violência e intensidade não reduzidas, e ela começou a se contorcer de bruços em direção ao monólito. O padre ou como eu iria chamá-lo a seguiu e enquanto ela se contorcia, açoitava com toda a força seu corpo desprotegido, que deixava um rastro pesado de sangue na terra pisada. Ela alcançou o monólito, e arfando ofegante, arremessou os braços sobre ele, cobrindo a pedra fria com beijos quentes selvagens, como em adoração frenética e profana.

O padre fantástico dava saltos altos, atirando para longe os gravetos mergulhados em sangue, e os adoradores, uivando e espumando, se atiraram uns aos outros com unhas e dentes, rasgando suas vestimentas e sua carne simultaneamente, em uma paixão cega de bestialidade. O padre arrebatou a criança com o longo braço, e, gritando de novo aquele Nome, girou no ar o bebê que lamentava e arremessou seu crânio contra o monólito, deixando uma mancha medonha na superfície negra. 

Petrificado de horror, eu o vi rasgar o pequeno corpo com seus próprios dedos brutais e arremessar punhados de sangue no obelisco; depois, atirar a forma vermelha e despedaçada no braseiro, apagando as chamas e a fumaça em uma chuva carmesim, enquanto os brutos enlouquecidos atrás dele uivavam o Nome, de novo e de novo. Então, repentinamente, todos caíram prostrados, contorcendo-se como cobras, enquanto o padre lançava suas mãos ensanguentadas em um amplo movimento, como se em triunfo. Abri minha boca para gritar meu horror e repugnância, mas apenas um ruído seco soou; uma figura enorme, que parecia um sapo monstruoso, estava agachada no topo do monólito.

Vi seu contorno inchado, repulsivo e oscilante contra o luar, e, posicionados no que deveria ter sido o rosto de uma criatura normal, seus olhos enormes piscavam, refletindo toda a luxúria, a ganância abismal, a obscena crueldade e o mal monstruoso que têm perseguido os filhos dos homens desde que seus antepassados se moviam cegos e sem pelos pelas copas das árvores. Naqueles olhos terríveis estavam espelhadas todas as coisas profanas e os segredos vis que dormiam nas cidades embaixo do mar e se escondiam da luz do dia na escuridão das cavernas primitivas. E, desse modo, aquela coisa medonha, a qual o ritual profano de crueldade, sadismo e sangue evocou do silêncio das colinas, olhou maliciosamente e piscou para seus adoradores bestiais, que rastejavam em detestável humilhação diante dele.

Então, o padre com máscara de besta levantou, com suas mãos brutas, a garota amarrada que se contorcia debilmente, e a segurou em direção àquele horror no monólito. E, à medida que aquela monstruosidade salivante sorveu sua respiração com luxúria, algo estalou em meu cérebro e caí em misericordioso desmaio.

Abri meus olhos em um ainda pálido amanhecer. Todos os acontecimentos da noite correram de volta para mim e me levantei de um salto, olhando ao meu redor com espanto. O monólito pairava sombrio e silencioso sobre o gramado, que balançava verde e intacto na brisa da manhã. Uns poucos passos rápidos me levaram através da clareira; aqui, os dançarinos haviam pulado e saltado até que o chão ficasse sem grama, e aqui a devota contorceu seu caminho doloroso até a Pedra, jorrando sangue na terra. Mas, gota alguma de carmim existia no gramado intacto. Olhei, tremendo, para o lado do monólito contra o qual o padre bestial despedaçara o crânio do bebê roubado, mas mancha escura nem coágulo macabro alguns apareciam ali.

Um sonho! Eu tivera um pesadelo selvagem ou então encolhi meus ombros. Que vívida clareza para um sonho!

Retornei calmamente ao vilarejo e entrei na hospedaria sem ser visto. E lá me sentei, meditando sobre os estranhos acontecimentos da noite. Mais e mais estava propenso a descartar a teoria do sonho. Aquilo que eu vira era uma ilusão e sem substância material, isso era evidente. Mas eu acreditava que olhara para a sombra refletida de uma ação perpetrada em uma realidade medonha no passado. Mas, como eu soubera? Quais as provas para mostrar que minha visão fora um encontro de sórdidos espectros ao invés de um pesadelo originado em minha mente?

Como se para uma resposta, um nome brilhou em minha mente – Selim Bahadur! De acordo com a lenda, este homem, que fora soldado e também escriba, comandara a parte do exército de Solimão que devastara Stregoicavar; parecia lógico o suficiente; e se fosse assim, ele fora diretamente do interior devastado até o sangrento campo de batalha de Schomvaal, bem como para sua ruína. 

Levantei-me de um salto com um grito repentino, aquele manuscrito que fora tomado do corpo do turco, e devido ao qual o Conde Boris estremeceu, poderia não conter qualquer narração do que os conquistadores turcos encontraram em Stregoivacar? O que mais poderia ter estremecido os nervos de aço do aventureiro polonês? E, uma vez que os ossos do conde nunca foram recuperados, o que era mais certo do que o estojo laqueado, com seu misterioso conteúdo, ainda continuar escondido embaixo das ruínas que cobriam Boris Vladinoff? Comecei a fazer minha mala com pressa feroz.

Três dias mais tarde me encontrei abrigado em um pequeno vilarejo a poucos quilômetros do antigo campo de batalha, e, quando a lua surgiu, estava trabalhando com intensidade selvagem na grande pilha de pedras em ruínas que coroava a colina. O trabalho árduo foi exaustivo. Agora, olhando para trás, eu não consigo ver como o realizei, embora trabalhasse sem uma pausa, do anoitecer até o amanhecer. No momento em que o sol nascia, coloquei de lado o último emaranhado de pedras e olhei para tudo aquilo que era mortal do Conde Boris Vladinoff, apenas alguns míseros fragmentos de ossos despedaçados, e entre eles havia um estojo esmagado, cuja superfície laqueada o havia mantido longe da completa decadência através dos séculos.

Agarrei o estojo com ânsia frenética, e, colocando algumas pedras sobre os ossos, parti apressado, pois não queria ser descoberto por camponeses desconfiados em um ato de aparente profanação.

De volta à minha câmara na taverna, abri o estojo e encontrei o pergaminho relativamente intacto; e havia algo mais ali,num pequeno objeto achatado, envolto em seda. Eu estava ansioso para sondar os segredos daquelas páginas amareladas, mas o cansaço me proibiu. Desde que deixei Stregoivacar eu mal havia dormido, e os esforços terríveis da noite anterior me superaram. Involuntariamente, fui forçado a me esticar em minha cama, e não acordei até o anoitecer.

Fiz uma rápida refeição, e, em seguida, à luz de uma vela bruxuleante, me sentei para ler os organizados caracteres turcos que cobriam o pergaminho. Foi um trabalho difícil, pois não sou profundamente versado na língua, e o estilo antigo da narrativa me confundia. Mas, à medida que trabalhava nele, uma palavra ou frase aqui e ali saltava em minha direção e um crescente terror indistinto me apertou em suas garras. Dobrei ferozmente minhas energias para a tarefa, e, como o conto se tornou mais claro e assumiu uma forma mais tangível, meu sangue gelou nas veias, meus cabelos arrepiaram e minha língua aderiu à minha boca. Todas as coisas externas participavam da loucura apavorante daquele manuscrito infernal; até os sons noturnos de insetos e criaturas na mata tomaram a forma de murmúrios medonhos e passos furtivos de horrores macabros, e o suspiro do vento noturno se transformava em riso de obscena exultação maligna sobre as almas dos homens.

Finalmente, quando o amanhecer cinzento se esgueirava pela janela de treliças, guardei o manuscrito e desembrulhei o objeto que estava no pedaço de seda. Olhando fixamente para ele com olhos fatigados, soube que a verdade do assunto estava decidida, mesmo que tenha sido possível duvidar da veracidade daquele terrível manuscrito.

Substituí os dois objetos obscenos no estojo e não descansei, dormi ou comi até que ele tivesse sido preenchido com pedras e arremessado na corrente mais profunda do Danúbio, a qual, Deus queira, o tenha levado de volta ao Inferno de onde veio.

Não foi um sonho que tive na Noite de Solstício de Verão, nas colinas sobre Stregoicavar. Bom para Justin Geoffrey que ele tenha permanecido ali apenas durante o dia e seguido seu caminho, pois tivesse ele contemplado a assembleia medonha, sua mente louca teria desabado diante disso. Como minha própria razão suportou, eu não sei.

Não, não foi um sonho; eu contemplei uma reunião repugnante de devotos há muito mortos, vindos do Inferno para adorar como antigamente; fantasmas que se curvavam diante de um fantasma, pois o Inferno há muito reivindicara seu deus horrendo. Ele habitou as colinas há muito, um vestígio perturbador de uma era ultrapassada, mas suas garras obscenas não mais buscam por almas de seres viventes; seu reino está morto, habitado apenas pelos fantasmas daqueles que o serviam em vida.

Por meio de qual alquimia medonha ou feitiçaria ateia os Portões do Inferno são abertos naquela noite horripilante eu não sei, mas vi com meus próprios olhos. E olhei para criaturas não viventes naquela noite, pois o manuscrito escrito pela cuidadosa mão de Selim Bahadur narrou detalhadamente o que ele e seus cavaleiros encontraram no vale de Stregoicavar; e eu li, em detalhes, as obscenidades blasfemas que a tortura arranca dos lábios de adoradores que gritam; e eu li, também, sobre a negra caverna sombria perdida nas colinas, onde os turcos horrorizados cercaram um ser monstruoso, inchado e chafurdante com aparência de sapo, e o mataram com fogo e aço antigo abençoado em tempos antigos por Muhammad, e com encantamentos que eram velhos quando a Arábia era jovem. E, mesmo firme, a velha mão de Selim tremeu quando ele registrou os cataclísmicos e estremecedores uivos de morte da monstruosidade, a qual não morreu sozinha; dez de seus assassinos pereceram com ele, de uma forma que Selim não quis ou não pode descrever.

E aquele ídolo achatado, esculpido em ouro e envolto em seda, era uma imagem dele, e Selim o arrancou da corrente de ouro do pescoço do sumo sacerdote mascarado assassinado.

Bom que os turcos varreram o vale sórdido com tochas e aço puro! Tais visões, as quais aquelas montanhas contemplativas haviam observado, pertenciam à escuridão e aos abismos de eras perdidas. Não, não é o medo do ser em forma de sapo que me faz estremecer à noite. Ele está preso no Inferno com sua horda nauseante, livre apenas por uma hora durante a noite mais estranha do ano, como eu vi. E de seus adoradores, nenhum permanece.

Mas é a constatação de tais coisas, que uma vez se agacharam como bestas sobre as almas dos homens, que me traz o suor frio à fronte; e eu temo espiar novamente as folhas da abominação de Von Junzt. Por ora, entendo sua frase repetida de “chaves”! Sim! Chaves para Portas Externas, conexões com um passado repugnante e, quem sabe, de repugnantes esferas do presente. E entendo que os penhascos se pareçam com muralhas ao luar e porque o sobrinho do taverneiro, assombrado por pesadelos, viu em seu sonho a Pedra Negra como um pináculo em um castelo negro ciclópico. Caso os homens algum dia tenham escavado entre aquelas montanhas, eles podem ter encontrado coisas incríveis abaixo daquelas encostas mascarantes. Pois, a caverna onde os turcos prenderam “a coisa” não era verdadeiramente uma caverna, e eu estremeci ao pensar sobre o gigantesco golfo de eras que devem se estender entre esta época e o tempo em a terra estremeceu e erigiu, como uma onda, aquelas montanhas azuis que, surgindo, envolveram coisas inimagináveis. Possa homem algum tentar arrancar aquele pináculo medonho que os homens chamam de Pedra Negra!

Uma Chave! Sim, é uma Chave, símbolo de um terror esquecido. Aquele terror despareceu no limbo do qual viera rastejando de maneira asquerosa, na aurora negra da terra. Mas, e quanto às outras possibilidades demoníacas, sugeridas por Von Junzt e quanto à monstruosa mão que sufocou sua vida? Desde que li o que Selim Bahadur escreveu, não posso mais duvidar de coisa alguma no Livro Negro. O homem não foi sempre o mestre da terra? E ele é agora?

E o pensamento retorna a mim, se uma entidade monstruosa como o Senhor do Monólito sobreviveu, de alguma maneira, à sua própria e distante época, quais as formas inomináveis que podem agora mesmo espreitar nos lugares escuros do mundo?
No original: “Midsummer´s Night”, refere-se ao solstício de verão, que acontece entre 21 e 25 de junho, a data exata varia em diferentes culturas. Na Igreja Católica, a data é 24 de junho, dia de São João.
Coven: assembleia de bruxas (especialmente um grupo de 13).

-Robert E. Howard-

Massa demais né? Esse é só um dos vários contos que foram lançados no livro "O Mundo Sombrio".


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