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segunda-feira, 27 de julho de 2015

[Conto] O Filho do Armário

Esse é mais um dos contos que foi enviado para participar de um concurso de histórias de terror que eu tinha lançado aqui no blog para sortear algumas edições do livro Folhas Secas Daquele Outono, que tem nome de livro de menininha, mas rola um terror gore no meio. Ò_Ò

Esse concurso acabou gerando dezenas de contos dos leitores, com estilos variados, alguns terríveis, outros maravilhosos, alguns psicológicos, outros completamente gore e sem economia na chacina, ou seja, se você é fã de histórias de terror, definitivamente vai gostar do que verá por aqui. Então não deixe de aproveitar!


1

Aquele olho, queria se lembrar de onde o vira antes. Ele evocava uma sensação de familiaridade que o seduzia, mas se misturava á um vago incomodo. Estava intumescido e semiaberto, onde a pupila se deslocava em um curto espaço com uma calma desconcertante. Viu ali um barco de brinquedo em uma bilha de água que poderia até esbarrar pelas bordas, mas continuaria limitado naquele interior. Piscou lento como se ainda fosse incapaz de compreender a necessidade disso. Havia uma negrura fosca, indistinta, e convergia para uma íris tão pretenciosa como a de um recém-nascido ainda tentando discernir as formas que vê.
 

De resto não havia mais nada, a coisa era apenas uma massa de carne flácida. Tampouco aquele olho estivera ali até pouco tempo atrás, pelo menos até onde Davi se lembrava. Era toda lisa e uniforme, rente até sua base, de proporções regulares e levemente achatadas. Sentiu um histricismo quando a voz de sua mãe irrompeu de súbito.
- Davi! Abra para mim! – Seguiram-se batidas pesadas apressando-o. Sua mãe esquecera as chaves de novo, ela sempre esquecia. A criança espiou novamente o olho, mas ele rolara na órbita escondendo-se do mundo. Davi fechou a porta do armário e correu rápido procurando o molho em cima da pequena estante sob a pressão cada vez mais impaciente do chamado da mãe. Ele girou a chave na fechadura e a mulher entrou carregando um miasma de álcool atrás de si. Ela fez um carinho rápido em sua cabeça bagunçando de leve os cachos que descansavam preguiçosamente. Depois andou até a cozinha bebendo direto do filtro. Davi acompanhou-a todo o percurso, em sua mente ele indagava se devia falar algo sobre seu armário. Mesmo fechado, dormindo ou fosse lá o que aquela coisa fazia ele imaginava o olho aberto, procurando-o. A mulher cambaleou apoiando-se na parede do corredor e entortando um quadro até o cômodo ao final do mesmo, deixando-se cair na cama.
 

O estômago do pequeno garoto roncava, mas ela se fora. Estava perdida no mesmo sono do olho. Ele correu, não para a cozinha tentar achar algo que pudesse comer, mas para seu quarto. Lá trancou-se no interior e sentou-se de frente ao robusto armário. Sabia o que o olho significava, a coisa estava mudando.

2

Recém-nascidos de algumas espécies são incapazes de protegerem a si mesmos, dependendo completamente dos pais nos primeiros anos de vida. Em particular na biologia humana o bebê fica totalmente á mercê, mal podendo mover-se sozinho. As pessoas costumam compadecer de seu tamanho miúdo e frágil, frequentemente associando-os com perfeição ou beleza, alguns supõe que este é o único mecanismo de defesa com o qual são protegidos: a capacidade de inspirar piedade. Assim era a coisa nos primeiros dias em que se desenvolveu no armário. O móvel parecera um útero a princípio, então ficara completamente limpo quando surgira aquela massa amorfa. Davi tocara nela e ela cedera sob seu toque.
 

Agora, apenas pouco menos de uma semana depois, havia duas partes toscas de músculos saindo do meio do tronco, de onde era possível perceber a formação de costelas protuberantes na carne flácida. Uma coisa grotesca semelhante á uma cabeça despontava de uma das extremidades, nela cavidades ossudas modelavam a pele fina. Seus olhos não eram mais foscos, mas polidos e terrivelmente conscientes.
 

Davi decidiu matar a coisa quando viu os dentes finos se formando. Pegou na cozinha uma faca de cortar carne do tamanho de seu antebraço, mas quando chegou ao quarto e abriu a porta do armário cedeu sob sua própria incapacidade. A coisa percebeu a ameaça e debateu-se espasmodicamente, oscilando em sua envergadura disforme como uma tartaruga virada para baixo. Davi deixou a lâmina cair quando escutou a prosaica violência contra a porta da frente.
- Davi! Querido! Abra para mim! – A solução brotou em sua mente pictórica. Ele correu para a porta atrapalhando-se com o molho de chaves. Quando a abriu, insistiu para a mãe o seguir, puxando-a pela manga. Sem falar apontou em direção ao quarto fazendo sinais. Ela seria capaz de matar a criatura, assim que a visse pegaria a faca e enterraria no monstro.
 

Qualquer pensamento que tentou formular sumiu na palidez de seu rosto ao chegarem no armário e se depararem com ele vazio.

3

Achava que a coisa de alguma forma fora capaz de arrastar-se em direção á sua liberdade. Havia uma janela solitária em seu quarto que percebera estar aberta depois de recuperar-se do torpor. Durante dias remoeu aquilo em sua mente, sempre consciente do perigo de algo á espreita e por fim o medo cedeu á distrações cotidianas. Guardou a lembrança em um canto escuro que tinha o hábito desagradável de aparecer somente á noite. Por fim a memória se reduziu á uma vaga incerteza, reproduzida mais pela imaginação do que realmente experiência empírica.

4

Era uma noite chuvosa quando escutou a batida do lado de fora, correu para a porta de imediato como sempre fazia. Quando o som se repetiu ele reconheceu que não viera da sala, mas de seu quarto. Caminhou com o sangue gelando em seu corpo e cada passo que dava sentia a distância tortura-lo ainda mais. Ele olhou para o armário, mas o móvel robusto continuava imerso em seu mórbido silêncio. O vidro tremeu com o batuque, era o mesmo que sua mãe fazia quando chegava da rua e esquecia a chave.
 

Finalmente percebeu porque os olhos daquela coisa tinham lhe despertado tanta familiaridade. Agarrada ao vidro de forma a ocultar a paisagem de concreto além, via um reflexo de si mesmo desfocado pela água que escorria. A imagem turva ainda lhe permitia perceber os plenos movimentos de seu outro eu, não tinha dúvidas de que era a criatura que tentara em vão matar e fora gerada no interior de seu armário. A boca retraiu-se deixando as mandíbulas á mostra quase como se a pele da nuca tivesse sido puxada por uma mão invisível. Estava sorrindo.
 

Davi tentou gritar, mas jamais fora capaz disso. Afastou-se um passo quando percebeu um objeto familiar na mão plenamente formada do monstro, reconheceu a lâmina com a qual o ameaçara. Ela era balançada para cima e para baixo, para um lado e para outro. Fora mudo durante sua vida inteira então era mais do que capaz de compreender o que aqueles gestos comunicavam.

5

- Abra... para... mim... – Davi escutou pela primeira vez a sua voz enquanto se escondia no armário.

Autor: Danilo Mattos

Esse é um dos contos que concorreu no concurso de contos de terror do blog.

6 comentários:

Matt Kist disse...

Esse conto é muito bom!!!!
O que mais me chamou atenção é a surpresa de que a criança é muda, no fim do conto. Muito foda este conto, mesmo!!! Muito bom!
E que mãe desnaturada, hein! Sai todas as noites para a festa! Todas as noites!! E nem dá comida para o filho, que é incapaz de pedir por comida. Senti pena dessa filho da puta, literalmente.

Miya Seat Lee disse...

Gostei bastante da história! Achei legal descobrir no final que a criança era incapaz de falar, tb com uma mãe como aquela dá até para compreender facilmente que ele tivesse algum trauma... Só tem de tomar cuidado para não parecer que a criança é muda pq daí ela teria de ser surda tb!

Super Suporte disse...

Bolado! Gostei do conto, é engraçado perceber como que surge o medo através do contato com desconhecido, só no final fiquei confuso, o bixo estava no armario e ele foi lá entrou na bagaça?

Alex 5432 disse...

Existem pessoas que são apenas mudas no mundo mas ouvem normalmente, isso acontece pela má formação das cordas vocais...

Alex 5432 disse...

Não, a criatura estava na janela... Pendurada do lado de fora...

Miya Seat Lee disse...

A falta da capacidade da fala normalmente ocorre por afasias, mas a pessoa já foi capaz de falar anteriormente. Má formação das cordas vocais vem acompanhada de outras más formações, o que não parecia ser o caso do personagem. Somente para ajudar o autor a evitar discussões deste tipo resolvi incluir esta questão no comentário...