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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O cão de caça - Veja a primeira aparição do Necronomicon

Acredito que todos já devem ter ouvido falar ao menos uma vez no Necronomicon, o livro dos mortos, que muitos acreditam ser real, mas na verdade foi uma criação de H.P Lovecraft, só que a sua primeira aparição foi um tanto tímida, apenas uma citação em um conto de 1922, que foi publicado em 1924 na revista Weird Tales.

O conto se chama na versão original "The Hound", que é traduzido como "O sabujo", sendo que sabujo é referência a um grupo de cães especializados em farejar por ter um olfato poderoso, servindo perfeitamente como cão de caça, como é um grupo que varia um bocado em seus estilos, variando desde o fofíssimo e pequeno Basset até o um tanto mais atlético Foxhound americano, portanto achei que o nome do conto acabava sendo traduzido melhor como "O cão de caça", pois creio que o autor não pensou exatamente em um cão fofinho na hora de escrever, pelo menos a sensação que tive ao ler não foi essa, sendo assim é algo que fica livre.

A aparição do livro dos mortos aqui é apenas de uma citação que aparece, mas o autor fictício do livro, o árabe louco Abdul Alhazred já tinha dado as caras na obra de Lovecraft um ano antes, no conto A cidade sem nome, de 1921, só que nada foi falado sobre a macabra criação desse personagem. Já aqui além dele ser citado também, por um momento o protagonista comenta sobre o livro, mas também é de forma bem breve e sem grandes explicações, mesmo assim é um momento marcante, afinal de contas estamos falando de um dos artefatos fictícios mais conhecidos e usados na cultura pop.

Sobre a história, eu realmente gostei muito, e apesar de ser notável as características lovecraftianas, achei os personagens um tanto diferentes. Dessa vez são apresentados dois amigos que na época moderna eu os veria como góticos excêntricos viciados em ocultismo e em quebrar regras fazendo coisas macabras. Apesar disso há todo aquele toque de pessoa muito culta que os personagens do autor sempre tem, fazendo assim com que pareça uma versão revoltada de intelectuais.

A forma com que a história é conduzida, como sempre é bem espetacular, com todo aquele toquezinho de perseguição, de uma coisa maldita estar vindo de algum lugar que não se sabe onde é e que a qualquer momento pode te pegar. Mas agora chega de papo e vamos para o conto:



O cão de caça

Em meu torturado ouvido ressoa incessante um guinchar e farfalhar vindo de um pesadelo, e um uivo débil e distante que parece vir de um cão gigantesco. Não é um sonho - não é, eu temo, sequer loucura - pois muito já me aconteceu para que tal dúvida ainda exista.

St John está todo mutilado; Só eu conheço o porquê, e tanto é meu conhecimento que estou prestes a estourar meus miolos por medo de ser mutilado da mesma maneira. É fundo em escuros e intermináveis corredores de sinistra fantasia que rodeia o meu Nêmese negro e sem forma que me leva à auto-aniquilação.

Que os céus perdoem a tolice e morbidez que nos trouxe a um tão monstruoso destino!
Fatigado das trivialidades de um mundo prosaico; onde até os prazeres do romance e da aventura logo se tornaram banais, St John e eu seguíamos com entusiasmo cada movimento estético e intelectual que prometia um adiamento de nosso tédio devastante. Os enigmas dos simbolistas e os êxtases dos pré-Raphaelitas todos foram nossos em seus tempos, mas cada ânimo novo se drenava cedo demais, de seu apelo e sua inovação distrativa.

Só a sombria filosofia dos decadentes podia nos ajudar, e até isso só nos era efetivo ao aumentarmos gradualmente a profundidade e diabrura de nossas penetrações.
Baudelaire e Huysmans logo estavam logo esgotados de emoção, até que finalmente restou a nós apenas o mais direto estimulo de aventuras e experiências anormais pessoais. Foi essa terrível necessidade emocional que eventualmente nos levou a essa detestável conduta que até mesmo em meu horror presente eu menciono com vergonha e timidez - esse extremo hediondo de atentado à humanidade, a abominável prática de roubar túmulos.

Eu sou incapaz de revelar os detalhes de nossas chocantes expedições, ou de catalogar sequer parcialmente os piores dos troféus que adornam o museu sem nome que preparamos na grande casa de pedra onde coabitávamos, sozinhos e sem servos. Nosso museu era um lugar blasfemo, impensável, onde com o gosto satânico de nossa virtude neurótica construímos um universo de terror e decadência para excitar nossa sensibilidade desgastada. Era uma sala secreta, distante, distante, no subsolo; onde enormes demônios alados esculpidos em basalto e ônix vomitavam de suas largas bocas sorridentes uma estranha luz verde e laranja, e canos pneumáticos ocultos bombeavam danças caleidoscópicas de morte, fileiras de trapos mortuários vermelhos costurados em volumosos penduricalhos pretos. Por esses canos vinha a vontade os odores que nossos humores mais desejavam; as vezes o perfume de pálidos lírios funerários; as vezes o narcótico incenso oriental dos mortos nobres, e por vezes - como me arrepio de lembrar! - o aterrorizante, desalmante fedor do túmulo descoberto.

Por volta das paredes dessa câmara repelente haviam sarcófagos de múmias antigas alternados com vívidos cadáveres formosos, perfeitamente empalhados e cuidados pela arte da taxidermia, e com lápides apanhadas dos mais velhos adros do mundo. Vasos aqui e ali continham crânios de todas as formas, e cabeças preservadas em diversos estágios de dissolução. Ali era possível encontrar as cacholas carecas e apodrecidas de famosos nobres, e as frescas e radiantes cabeças de natimortos.
Também estavam lá estátuas e pinturas, todas de natureza diabólica e algumas feitas por St John e por eu mesmo. Uma pasta trancada, encapada com pele humana curtida, continha desconhecidas e inomináveis gravuras que, segundo rumores, foram feitas por Goya que não ousava reconhecê-las. Haviam ali nauseantes instrumentos musicais, de corda e de sopro, nos quais St John e eu por vezes produzíamos dissonâncias de requintada morbidez e cacodemônico pavor; enquanto numa multitude de gabinetes de ébano repousava a mais incrível e inimaginável variedade de pilhagens vindas de túmulos já reunida pela loucura e perversidade humana. E são desses despojos em particular dos quais eu não devo falar - graças a Deus eu tive a coragem de destruí-los muito antes de considerar destruir a mim mesmo!

As excursões predatórias durante as quais nós coletamos nossos imencionáveis tesouros eram sempre eventos artisticamente memoráveis. Não éramos carniçais vulgares, trabalhávamos apenas sob condições específicas de humor, paisagem, ambiente, clima, estação, e luz da lua. Esse passatempo era para nós a mais única forma de expressão estética, e dávamos aos detalhes os mais meticulosos cuidados técnicos. Um horário impróprio, um efeito de luz dissonante, ou uma manipulação desajeitada da terra úmida, destruiriam quase que totalmente aquela titilação doentia que acompanhava a exumação de qualquer segredo agorento da terra. Nossa busca por cenas singulares e condições picantes era febril e insaciável - St John era sempre o líder, e ele foi quem conduziu o caminho até aquele maldito lugar que nos trouxe nosso horrível e inevitável destino.

Por que maligna fatalidade fomos atraídos até aquele terrível adro holandês? Penso eu que foram os rumores e lendas obscuras, os contos de um homem enterrado por cinco séculos, que havia sido ele mesmo um carniceiro em seu tempo e que havia roubado algo perigoso de uma possante sepultura. Eu posso me lembrar da cena nesses momentos finais - a pálida lua de outono por sobre as lápides, projetando longas e horríveis sombras; as árvores grotescas, se inclinando carrancudas de encontro ao mato negligenciado e as lápides desgastadas; as vastas legiões de estranhamente colossais morcegos que voavam contra a lua; a antiga igreja coberta de heras apontado um enorme dedo espectral para o céu; os insetos fosforescentes que dançavam como fogos-fátuos debaixo dos teixos em um canto distante; os odores de mofo, vegetação, e coisa mais difíceis de se explicar se misturavam debilmente com o vento da noite vindo de distantes pântanos e oceanos; e, o pior de tudo, o fraco uivar grave de algum cão gigantesco que não conseguíamos nem ver nem apontar a origem. Estremecemos quando ouvimos essa sugestão de uivo, nos lembrando das histórias dos camponeses; de que aquele que nós buscávamos havia há séculos sido encontrado nesse mesmo lugar, destroçado e mutilado pelas garras e presas de alguma besta inimaginável.

Eu me lembro de como nós mergulhamos no túmulo do carniceiro com nossas pás, e como nos excitamos com a estética de nós, o túmulo, a lua pálida nos observado, as sombras horríveis, as árvores grotescas, os morcegos titânicos, a igreja arcaica, os vagalumes dançando, os odores nauseantes, o gemido gentil do vento da noite, e o estranho, meio-ouvido uivar sem direção do qual mal tínhamos certeza de que existia.

Foi então que acertamos uma substância mais dura do que o mofo úmido, e nos deparamos com uma podre caixa retangular encrustada de depósitos minerais do terreno que por tanto tempo não foi perturbado. Ele era incrivelmente forte e grosso, mas tão velho que nós finalmente o forçamos a se abrir e nos deleitamos com a visão de seu interior.

Muito - surpreendentemente muito - ainda restava do sujeito apesar do passar de quinhentos anos. O esqueleto, apesar de esmagado em algumas partes pelas mandíbulas da coisa que o havia matado, se manteve inteiro com surpreendente firmeza, e nós nos deliciamos com o crânio limpo e branco e os longos, firmes dentes e os buracos vazios dos olhos que algum dia já brilharam em febre mortuária tais quais os nossos brilhavam naquele momento. No caixão estava posto um amuleto de aparência exótica e curiosa, que aparentemente costumava ser usado em volta do pescoço do falecido. Ele tinha a estranhamente convencional forma de um cão alado agachado, ou uma esfinge com a face semi-canina, e o amuleto era requintadamente esculpido em clássico estilo oriental a partir de uma pequena peça de jade verde. A expressão em suas feições era de extrema repelência, com notas de morte, bestialidade e malevolência. Ao redor da base estava escrito algo em uma linguagem que nem eu nem St John conseguimos identificar; e no fundo, estava gravado um grotesco e formidável crânio, como se fosse a marca de seu criador.

Foi imediatamente após contemplarmos esse amuleto que nós sabíamos que precisávamos possuí-lo; que tão somente aquela relíquia seria nosso tesouro daquele túmulo centenário. Mesmo que sua forma não nos fosse familiar nós a teríamos almejado, mas conforme observamos mais de perto nós vimos que ela não nos era de toda desconhecida. O amuleto era de fato alheio a toda a arte e literatura que leitores sãos e equilibrados conhecem, mas nós o reconhecemos como o artefato mencionado no proibido Necronomicon do Árabe Enlouquecido Abdul Alhazred; o símbolo espiritual pavoroso do culto comedor de corpos da inacessível Leng, na Asia Central. Com todo o cuidado nós traçamos as sinistras origens descritas pelo velho demonologista árabe; origens, ele escreveu, vindas da manifestação obscura sobrenatural das almas daqueles que aborreceram e abocanharam os mortos.
Tomando o objeto de jade verde, tivemos nosso ultimo vislumbre da cor esbranquiçada e do olhar cavernoso de seu dono e fechamos o túmulo como estava quando o encontramos. Enquanto nos apressamos para fora daquele lugar repugnante, o amuleto roubado no bolso de St John, nós pensamos ter visto os morcegos descendo em formação até a terra que nós tão recentemente havíamos vasculhado, como se procurassem por alguma maldita nutrição profana. Mas a lua de outono brilhava fraca e pálida, então não podíamos ter certeza.

Então, novamente, enquanto zarpávamos no dia seguinte para longe da Holanda e de volta para nosso lar, pensamos ter ouvido ao fundo o uivar distante de algum cão gigantesco. Mas o vento do outono gemia triste e abatido, então não podíamos ter certeza.

Pouco menos que uma semana após nosso retorno à Inglaterra, coisas estranhas começaram a acontecer. Nós vivíamos em reclusão; sozinhos, sem amigos, e sem servos em alguns poucos quartos de nosso pequeno casarão em um ermo e afastado brejo; assim nossas portas eram raramente perturbadas pelas batidas de um visitante.

Desde então, no entanto, nós passamos a ser perturbados por o que parecia ser um frequente farfalhar na noite, não só ao redor das portas mas também das janelas, tanto as de cima quanto as de baixo. Em uma ocasião pensamos ter visto um grande e opaco corpo escurecendo a janela da biblioteca enquanto a lua brilhava contra ela, e em outra vez acreditamos ter ouvido guinchos e asas batendo não muito longe. Em cada ocasião nossa investigação não revelava nada, e nós começamos a aceitar as ocorrências como se fossem fruto de nossas imaginações que ainda ecoavam em nossos ouvidos o distante uivar que pensamos ter ouvido no adro holandês. O amuleto de jade então repousava em um nicho no nosso museu, e por vezes nós queimávamos uma estranhamente perfumada vela perante ele. Nós lemos muito no Necronomicon de Alhazred sobre suas propriedades, e sobre a sua relação com os espíritos e os objetos que ele simbolizava; e ficamos perturbados com o lemos.

Então o terror veio.

Na noite de 24 de Setembro, 19--, eu ouvi uma batida na porta de meu aposento. Imaginando que fosse St John, pedi ao batente que entrasse, mas fui respondido apenas por um riso estridente. Não havia ninguém no corredor. Quando eu levantei St John de seu sono, ele declarou total ignorância desse evento, e se preocupou tanto quanto eu mesmo. Foi nessa noite que o distante, inquietante uivar por cima do brejo se tornou uma certa e pavorosa realidade.

Quatro dias depois, enquanto estávamos ambos no museu escondido, por lá começou um silencioso, cuidadoso arranhar na única porta que levava para a escadaria secreta da biblioteca. Nosso terror era agora dividido, sendo que, além de nosso medo do desconhecido, havíamos sempre considerado o temor de que nossa coleção macabra fosse descoberta. Apagando todas as luzes, nós fomos até a porta e a abrimos de supetão; onde então sentimos uma inexplicável corrente de vento, e ouvimos, como se fosse muito ao longe, uma excêntrica combinação de farfalhares, risos abafados, e um tagarelar articulado. Se estávamos loucos, sonhando, ou em sã consciência, não não tentamos determinar. Nós apenas percebemos, com a mais sombria das apreensões, que o tagarelar aparentemente desencarnado era sem sombra de dúvidas era na língua holandesa.

Depois disso nós vivemos em crescente horror e fascinação. Nos mantemos sobretudo na teoria de que estávamos juntamente enlouquecendo em consequência de nossa vida de excitações perversas, mas por vezes nos era mais prazeroso dramatizarmo-nos como as vitimas de algum temível terror rastejante. As manifestações bizarras eram agora frequentes demais para se manter a conta. Nossa casa solitária estava aparentemente viva com a presença de algum ser maligno cuja natureza não podíamos adivinhar, e por todas as noites aquele uivar demoníaco rolava junto ao vento do brejo, sempre mais e mais alto. Em 29 de Outubro nós encontramos, na terra macia debaixo da janela da biblioteca, uma série de pegadas absolutamente impossíveis de se descrever. Elas eram tão desconcertantes quanto as hordas de grandes morcegos que assombravam o velho casarão em números crescentes nunca antes vistos.

O horror alcançou o cúmulo em 18 de Novembro, quando St John, que andava para casa depois do anoitecer vindo da sombria estação ferroviária, foi abordado por alguma coisa carnívora terrível que o rasgou em fatias. Seus gritos chegaram até a casa, e eu corri até a terrível cena a tempo de ouvir o zunido de asas e de ver uma vaga sombra nebulosa em silhueta contra a lua que se erguia.
Meu amigo estava morrendo quando falei com ele, e ele não podia me responder com coerência. Tudo que ele podia fazer era sussurrar, “O amuleto - aquela coisa maldita -”
E então ele desabou, uma massa inerte de carne mutilada.

Eu o enterrei na madrugada seguinte em um de nossos jardins negligenciados, e murmurei por cima de seu corpo um dos rituais demoníacos que ele amara em vida. E conforme eu pronunciava a última sentença demoníaca eu ouvi ao longe no brejo o distante uivar de algum cão gigantesco. A lua estava em pino, mas eu não ousei olhar para lá. E quando eu vi no brejo pouco iluminado uma larga sombra nebulosa deslizando de uma colina para a outra, eu fechei meus olhos e me joguei com o rosto contra o chão. Quando eu me ergui, trêmulo, não sei quanto tempo depois, eu cambaleei para dentro de casa e fiz chocantes reverências perante o amuleto consagrado de jade verde.

Agora com medo de viver sozinho na antiga casa no brejo, eu parti no dia seguinte para Londres, levando comigo o amuleto depois de destruir com fogo e enterros o resto da coleção impia do museu. Mas depois de três noites eu já ouvia o uivar novamente, e antes de se passar uma semana sentia estranhos olhares sobre mim sempre que estava no escuro. Em um fim de tarde enquanto eu caminhava pelo Victoria Ebankment para tomar um muito necessário ar fresco, eu vi uma forma negra obscurecer o reflexo na água de uma das lâmpadas. Um vento, mais forte que o vento da noite, lançou-se por cima de mim, e eu soube então que o que quer que tenha pego St John logo pegaria a mim.

No dia seguinte eu cuidadosamente empacotei o amuleto de jade verde e naveguei de volta para a Holanda. Que piedade me seria dada por devolve essa coisa para seu silencioso dono adormecido eu sequer imaginava; mas eu sentia que precisava tentar tomar qualquer atitude concebivelmente lógica. O que o cão era, e por que ele me perseguira até então, ainda eram questões vagas; mas eu ouvi o uivar pela primeira vez naquele adro antigo, e todos os eventos subsequentes incluindo o sussurro de morte de St John serviram para conectar a maldição com o nosso roubo do amuleto. Por isso eu afundei nos mais profundos abismos do desespero quando, em uma estalagem em Rotterdam, eu descobri que ladrões haviam me despojado desse meu único meio de salvação.

O uivar estava alto naquela noite, e pela manhã eu li sobre um feito anônimo no quarteirão mais vil da cidade. A ralé estava em pânico, pois naquela criminosa habitação coletiva fora feita uma matança que ultrapassara os limites de qualquer outro crime cometido na vizinhança. Naquele ninho esquálido de ladrões uma família inteira havia sido rasgada e mutilada por uma coisa desconhecida que não deixou nenhum traço, e aqueles por perto ouviram por toda a noite um distante, profundo e insistente uivar como o de um cão gigante.

Foi então enfim que me pus de pé novamente no insalubre adro em que uma pálida lua de inverno projetava sombras medonhas e árvores sem folhas se curvavam carrancudas de encontro a grama murcha, geada e às lapides trincadas, e a igreja coberta de vinhas apontava um irrisório dedo para um céu nada amigável, e o vento da noite rugia maníaco vindo de pântano congelados e mares frígidos. O uivar estava então muito distante, e cessou completamente enquanto eu me aproximava do túmulo que por uma vez já havia violado, e fui assustado por uma enorme horda anormal de morcegos que pairavam estranhamente ao meu redor.

Eu não sei por que fui até lá vindo de tão longe senão para rezar, ou balbuciar súplicas insanas e pedir desculpas para a calma coisa branca que lá dentro repousava; mas, qualquer que fosse minha motivação, eu ataquei a terra meio congelada com um desespero parte meu e parte vindo de uma força dominante além de eu mesmo. A escavação foi muito mais fácil do que eu esperava, mesmo que em um ponto eu tenha encontrado uma interrupção bizarra; quando um abutre magro se arremessou do céu frio e se pôs a bicar freneticamente a terra do túmulo até que eu o matei com um golpe de minha pá. Eu finalmente alcancei a caixa retangular apodrecida e removi a tampa úmida. Esse foi o ultimo ato racional que eu realizei em minha vida.

Pois enfiado naquele caixão centenário, coberto por uma série de morcegos enormes e sinuosos que dormiam, estava a coisa ossuda que meu amigo e eu havíamos assaltado; não limpo e plácido como nós tínhamos o visto antes, mas coberto de sangue pisado e farrapos alheios de carne e cabelo, e ele me encarava com malícia e consciência com os buracos dos olhos fosforescentes e presas pontiagudas e ensanguentadas que bocejavam zombeteiras do meu destino inevitável. E foi quando aquilo uivou de sua mandíbula sorridente um uivar profundo e desdenhoso como o de um cão gigantesco, e eu vi que ele segurava em suas garras sangrentas e imundas o perdido e fatídico amuleto de jade verde, que eu apenas berrei e corri para longe como um idiota, meus gritos logo se dissolvendo em repiques de riso histérico.

A loucura corre pelo vento das estrelas… garras e presas afiadas em séculos de corpos… gotejando morte montado numa legião de morcegos vinda das ruínas preto-noite dos templos enterrados de Belial… Agora, enquanto o uivar daquela monstruosidade morta e sem carne se torna mais e mais alto, e o farfalhar e guinchar dos malditos diabos alados se torna mais e mais próximo, eu devo buscar com meu revolver o esquecimento que é meu único refúgio do que não tem nome e que não deve ser nomeado.

(Tradução atrasadíssima feita pelo meu amigo Vírgula de Copas, e que eu tive que dar uma surra no infeliz pra ele terminar de fazer, portanto os créditos são para esse vagabundo, apesar de que paguei pro infeliz è__é).

Nossa, eu não sei vocês, mas esse cachorro me lembrou um bocado os Cães do Inferno, que aparecem no seriado Supernatural, se eles foram baseados em Lovecraft não seria uma surpresa, afinal de contas o próprio autor é interpretado na série em um dos episódios. Mas e vocês, o que acharam?

Um comentário:

JUCA disse...

o medo à espreita e outras histórias abrange este e outros contos, publicados para a revista. é imperdível!