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sábado, 8 de agosto de 2015

[Conto] Um pouco mais abaixo

É incrível como algumas coisas simples podem ter reações catastróficas. Alguns minutinhos insignificantes perdidos em conversas desnecessárias depois da aula e eu perco meu ônibus. Chego a tempo de ainda vê-lo quase desaparecer na penumbra e me xingo por dentro por não ter considerado que alguns minutinhos insignificantes significam alguma coisa se somados a outros. Depois, xingo o motorista por, pela milagrosa primeira vez, ter sido pontual.
Essa foi a minha deixa para, naquela noite, me aventurar pelas ruas escuras até a minha remota casa. A outra opção era esperar pelo próximo ônibus; mas esperar sentado por uma hora e meia num banco rígido e desconfortável não me era muito factível.
Aquele era um caminho que eu nunca tinha feito por completo à pé e, sendo uma pessoa moderadamente curiosa, comecei a reparar na cidade à minha volta alguns detalhes que eu nunca havia percebido. Lojas, construções antigas, tipos arquitetônicos singulares e qualquer coisa que me chamasse a atenção. O tempo passava depressa e, sem perceber, eu já estava quase na metade do percurso.
Foi então que ouvi um barulhinho que muito provavelmente não teria escutado se não fosse pelo silêncio e pela serenidade do ambiente. Era uma batida leve, de uma tampa de bueiro uns dois metros ao meu lado. Foi como se ela tivesse sido aberta alguns poucos centímetros e depois largada novamente. O som me fez parar por um instante; mas, sem me preocupar muito, logo voltei ao meu caminho.
Embora estivesse calmo, o barulho havia desvirtuado bruscamente meus pensamentos e, com dificuldade retomá-los, a viagem voltou a ser que eu imaginei de início que seria: chata e cansativa. Já estava exausto e irritado quando, dobrando uma esquina, ouvi o exato mesmo som. Olhei para trás e vi uma tampa de bueiro ali, aos mesmos chutados dois metros de distância. Estacionei por algum tempo observando o artefato. Naquele momento, a sugestão já havia invadido minha mente e comecei a ficar levemente amedrontado.
Imediatamente acelerei o passo. Meus instintos estavam aguçados como costuma acontecer quando se está nervoso. Qualquer som, mesmo a longas distâncias, era audível e me alarmava. Imagens surgiam onde elas não existiam. Eu me arrependia — mesmo que nada tivesse realmente acontecido — de não ter esperado pelo próximo ônibus no ponto, onde ao mínimo existia algum movimento.
Quando já estava relativamente próximo do meu bairro avistei no chão, a alguns passos, um bueiro aberto, com a tampa jogada um pouco ao seu lado. Eu poderia livremente atravessar a rua e continuar pela outra calçada, mas às vezes acontece de você querer provar algo para si mesmo. Então engoli o medo e segui reto, à passos largos e com os braços cruzados, imaginando mil coisas que poderiam estar ali dentro, à espreita.
 


Mas por fim passei o bueiro intacto e, quando já estava certa distância à frente, o alivio começou a surgir. Foi depois de um suspiro eufórico que passos subindo os degraus ecoaram por dentro do buraco. Os passos eram de início lentos, mas começaram a ficar progressivamente mais velozes. Quando o que quer que fosse que sobia as escadas já estava perto da saída eu disparei tão rápido quanto não imaginava que podia.
Corri por 2 quarteirões sem olhar para trás. Pelo jeito também não estava olhando para os lados, pois um carro que cruzava a rua esbarrou em mim quando eu atravessava uma encruzilhada. O homem, um velho simpático em seus 60 e poucos anos, saiu para me socorrer. “Você está bem?!”. “O que você fazia correndo por aí sozinho a essa hora, garoto?”. A batida não havia sido realmente grave e eu até me sentia inusitadamente confortável por ter uma companhia naquele momento.
O homem voltou para o carro para para buscar o celular e chamar uma ambulância enquanto eu tentava me acalmar um pouco. Foi nesse momento que, sentado no meio da estrada, o temível barulho soou em meus ouvidos mais uma vez. Virei bruscamente para o automóvel e vi que, embaixo dele, uma tampa de bueiro se movia.
Algo no subsolo, com uma força absurda, levantou a tampa e a arrastou para o lado. Eu gritava para o motorista sair dali, que me retornava um olhar atônito pela janela do carro sem entender o que estava acontecendo.
De repente, algo como um braço saiu do buraco e atravessou o veículo ferozmente, agarrando sua perna e o puxando bruscamente para baixo. A própria escuridão do cenário somada ás sombras que o carro fazia dificultaram definir ao certo a natureza daquele membro que puxava o velho senhor, mas posso afirmar com toda certeza que aquilo não era humano.
Eu observava paralisado a expressão do homem amedrontada pelo vidro. Ele mal conseguia gritar; tudo o que podia emitir eram alguns rugidos roucos e trêmulos enquanto se empenhava desesperadamente em se segurar no banco. Já sem forças, foi carregado para dentro do bueiro tentando, com seus últimos esforços, se agarrar nas bordas externas. A última coisa que pude ver foram seus olhos lacrimejantes e melancólicos encarando os meus antes de ele ser completamente sugado para o subterrâneo.
Sem conseguir mover um músculo, observei a impiedosa criatura que, por dentro do bueiro, pegava a tampa para cobrir o buraco de volta; e, antes de tapar-se completamente, trocou comigo um último olhar. Foi só então que pude ver — mesmo que muito vagamente — o semblante daquela coisa. Seus olhos eram brilhosos e amarelados e um sorriso sarcástico e anormalmente gigantesco estava estampado em seu rosto.
Muito tempo já se passou e nunca presenciei nenhuma outra experiência similar. Mesmo assim, me mantenho de todas as maneiras longe das ruas à noite. Se leio notícias sobre desaparecimentos em regiões próximas, logo a possível causa já me vem a mente. E qualquer simples som que, pelo mínimo que seja, me faça lembrar do barulho da tampa do bueiro, imediatamente congela meus ossos e me faz recordar da coisa que vive apenas um pouco mais abaixo. É incrível como algumas coisas simples podem ter reações catastróficas.

Autor: Bruno Vieira

Esse é um dos contos que concorreu no concurso de contos de terror do blog.

2 comentários:

Matt Kist disse...

Bom conto.
Está apenas "um pouco mais abaixo" do que os contos que mais gostei desse concurso até então.

Miya Seat Lee disse...

É mesmo incrível como pequenas coisas acabam tendo resultados tão significativos...
Bom conto, estas criaturas dos esgotos são sempre apavorantes!