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terça-feira, 11 de agosto de 2015

[Conto] Rituais

“Não tema, minha criança, você ainda sofrerá muito mas irá viver e amadurecer. Irei lhe guiar, disciplinar, e amanhã quando eu partir deste mundo você carregará parte de mim.” Diz uma jovem mãe muito atenciosa com seu filho, enquanto o põe no berço já adormecido.
O pai, um rapaz jovem, chega tarde em casa, fedendo à álcool e sem falar nada para sua esposa, aproxima-se da criança para a observar dormindo.
“O que te preocupa, meu marido?” pergunta a jovem. “Você todas as noites bebe e chega tarde em casa, é o trabalho ou foi algo que te fiz?”
O rapaz permanece em silêncio, observando a criança.
“Sei que tivemos que amadurecer muito cedo,...” continua a jovem. “Nossa criança, o casamento, aconteceu tudo muito rápido em nossas vidas.”
“Aconteceu...” murmura o rapaz.
“Mas estamos unidos nesse e em todos os próximos desafios.” Enfatiza a jovem.
“Estamos?” Interrompe o rapaz em tom nervoso. “Lembro quando me apaixonei por você, você era outra pessoa, uma garota aventureira, rebelde, cheia de desejos e de vida, e isso foi há apenas dois anos.”
A jovem não responde.
“O que aconteceu? Não foi nossa criança que te mudou. Você já estava diferente antes de descobrir estar grávida. Hoje eu lembrei claramente. Aquela queda da janela do quarto da república na qual você morava com aquelas garotas , a qual cortou e contundiu todo seu corpo, deixando essas marcas. Foi após este episódio que, por algum motivo, você virou a mulher séria e fria que agora conheço.” O rapaz pausa para se controlar e não acordar a criança com seu tom já alterado.
“O que aconteceu naquele dia?” pergunta o rapaz. “Me diz, por favor, eu preciso entender o que se passa com você, com nossa criança, com nosso casamento”.
A jovem, com lágrimas em seus olhos, olha para o marido e se abre, como nunca antes havia feito. “Não aconteceu naquele dia. Foi na noite do dia anterior.”
O rapaz, apreensivo, remove sua atenção da criança e vira-se em direção à sua esposa.
“Era um final de semana, e já que todas as outras garotas foram visitar seus pais eu era a única garota na república aquela noite.” Continua a jovem. “Como você já sabe, nós tínhamos alguns rituais esquisitos naquela casa, coisas de república. Sempre achei que os rituais eram uma forma de manter hierarquia e ordem entre as estudantes, enquanto ao mesmo tempo serviam para atrair curiosos e criar popularidade entre as demais repúblicas. ”
 


Após uma pequena pausa, a jovem continua: “Eu estava entediada, e na minha inocência e curiosidade fui até o porão, um lugar escuro, húmido e frio, onde as anciãs faziam seus rituais internos, escondidas das demais garotas. Era um lugar proibido e pelas regras da casa eu não deveria entrar lá. Mas eu era muito curiosa.” Fala a jovem, chorando.
“O lugar era sujo e antigo. Cera de vela por todo o assoalho de madeira. O teto era muito baixo, mas eu conseguia me manter em pé. Era um único cômodo, repleto de estantes e tralhas espalhadas pelas quatro paredes. O cômodo era vazio em seu centro, com excessão de uma única cadeira de madeira, pregada ao chão. Tigelas, livros, velas e muitos potes com conteúdos ireeconhecíveis, nojentos e por vezes surreais. Seria um lugar extremamente sombrio e opressor se não houvesse uma lareira em um dos cantos.” Continua.
“Eu não entendo onde você quer chegar com isso.” Interrompe o rapaz.
“Acendi a lareira, esta que era a única fonte de luz daquele porão.” Continua a jovem, ignorando o comentário do rapaz. “Fui tentada pelo clima sombrio e ao mesmo tempo acolhedor daquele lugar maldito e daquele fogo inquieto que aos poucos queimava a lenha avermelhada. Lembrei-me de um ritual de evocação de uma entidade, que uma colega me ensinara em uma noite em que bebemos em nosso quarto e compartilhamos histórias de terror. Seria um ritual para obter conhecimento, de uma entidade capaz de responder à qualquer pergunta.”
O rapaz se inquieta com a história, já prevendo onde sua esposa pretende chegar. Essa previsão o inquieta ainda mais. Mas o rapaz não a interrompe desta vez, pois precisa entender.
“Vendei-me, sentei-me nua na cadeira do centro e repeti.”A jovem continua.“Eis sua oferenda, de olhos vendados; abaixo do solo como ordenado; entrego-a a seus agrados; e com sua sabedoria que eu seja amaldiçoado.”
A criança acorda. E chora. O pai a acolhe junto ao corpo e a balança para voltar a durmir, repetindo, como que em um ritual criado por esta família, a frase que repetiam para a criança todas as noites. “Não tema, minha criança, você ainda sofrerá muito mas irá viver e amadurecer. Irei lhe guiar, disciplinar, e amanhã quando eu partir deste mundo você carregará parte de mim.” Termina, devolvendo a criança ao berço.
“Onde você quer chegar com essa história de rituais e entidades, minha esposa? E afinal, como você se feriu? Não foi uma queda da janela, foi? Alguem te machucou naquela noite?” Pergunta o rapaz, repleto de dúvidas, inquietações e confusão.
“Eu não caí da janela. Naquela noite, tive muitas respostas. O ritual é real, marido.” Responde a jovem, ainda aos prantos. “Primeiro senti a lareira apagar, e o som de seu fogo já não ocultava o silêncio daquele porão. Senti receio de passar frio, nua naquela cadeira, misturado à ansiedade e medo do desconhecido, medo do ritual que estava fazendo, sozinha naquela gigantesca casa, longe de tudo. Ao me levantar, ainda vendada, senti uma fonte de calor, em minha frente, uma presença perturbante, paralisei de medo por alguns intantes antes de estender minha mão e o tocar ...”
“Como assim?! Tocar?!” Indaga o rapaz.
“Sim! Eu o toquei!” Responde a jovem, com a mesma fúria que domina uma pessoa incompreendida. ”Sua pele tinha uma textura comum como a pele de uma pessoa qualquer, mas dura, como se abaixo dela não houvesse carne, mas sim ossos ou cartilagens, e completamente irregular, com várias saliências acentuadas, uma forma irreconhecível e indescritível, por vezes pontiaguda, afundada, reta, torta. E sua voz... quando finalmente ouvi a voz! Não era apenas produto da minha imaginação, quando ouvi a voz, meu corpo, de estado rígido de tensão passou a estremecer ininterruptamente, e meus músculos desfaleceram de completo horror. Sua voz, diferente de qualquer voz humana, não se assemelhava à nenhum som animal, parecia uma combinação de estática, sons oriundos de madeira, estalar de brasa e demais sons comuns e incomuns.” Confunde-se a jovem com sua própria descrição. ” Ele me disse...”
“O que ele disse?” Pergunta intrigado o rapaz.
A jovem pausa, desvia seu olhar para a criança e diz “Não tema, minha criança, você ainda sofrerá muito mas irá viver e amadurecer. Irei lhe guiar, disciplinar, e amanhã quando eu partir deste mundo você carregará parte de mim.”

Autor: Matt Kist

Esse é um dos contos que concorreu no concurso de contos de terror do blog.

2 comentários:

Miya Seat Lee disse...

Olha que louco! Ela ganhou sabedoria e levou um bebê de cortesia, é isso Matt? Foi atacada pela entidade que resolveu plantar uma sementinha nela! Ou ela ficou possuída para todo o sempre?
O nome dela é Rosemary? Hehe

Matt Kist disse...

É, Miya, você entendeu. Acho que esse bebê não é de Deus.
Hehehehe
Esse conto ficou ó..... uma bosta!
Mas eu jamais deixaria de participar do concurso de contos do meu blog preferido!
Então ta aí. Pari esse pedaço de "cruz-credo" que vós vistes.

A ideia era ter um "plot twist" e um trocadilho/mal-entendido quanto ao título. Não foi bem executado, sei. Assim que idealizei o conto eu o escrevi em uma manhã ensolarada, no trabalho, enquanto corrigia bugs de sistema e enviava e-mail para clientes.

Segundo a definição, de origem latim, ritual é celebração de um rito. Um rito é um costume ou cerimônia que se repete de forma invariável. Praticamos rituais todos os dias, desde o "bom dia" dado aos colegas de trabalho até a hora de deitar na cama para dormir.
Precisa ficar ligado nos rituais que praticamos diariamente ò_ó, afinal você sabe porque pratica certos rituais diários?! Você sabia que diariamente e esporadicamente pratica os mais variados rituais religiosos? Sabia que alguns destes foram criados por pessoas com os mais sombrios pensamentos e objetivos religiosos? Abra o olho! ò_ó