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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

[Conto] Lenda Desconhecida

12 de agosto de 1997...

Minha irmã caçula acabara de completar seus três anos. Nunca conseguimos nos estabilizar economicamente. Meu pai foi demitido mais uma vez, e minha mãe insistiu que a melhor maneira de sairmos dessa crise era irmos morar com nossa vó. Nunca gostei do clima frio e sombrio que ficava por aqui ao anoitecer. No meu quarto havia uma janela no qual de dia me trouxera a paisagem de um belo rio, eu via crianças brincando na rua, trazia a imagem de quando eu passava as férias de verão implicando com a filha da vizinha. Tudo era o mesmo por aqui, o mesmo quarto, a mesma cadeira de balanço, a mesma estrada de terra, a mesma serra. A história das pessoas eram as mesmas, só o que mudara eram os protagonistas.
Da janela eu também deslumbrava o céu, o céu que eu havia deixado na cidade grande e me seguiu até aqui, embora eu houvesse percorrido alguns quilômetros, as nuvens tinham o mesmo formato redondo, o mesmo tom de azul. Sinto uma lágrima de saudade cair. Eu me afastava dos poucos amigos que tinha, que já eram, minha lastima é que já estava apegada a minha vida de antes, meus estudos, meus sonhos. Ao mesmo tempo sinto um pouco de medo, medo do desconhecido que me aguardava, das mudanças que seriam necessárias para minha a adaptação, medo de como as pessoas iriam encarar minha vinda. Aquele turbilhão de pensamentos me perturbou toda a manhã.
O dia todo parecia normal, os vizinhos calorosamente receptivos, naquela tarde quase todos vieram nos conhecer. Miranda, minha prima distante, logo veio me mostrar um livro velho sobre lendas do sertão, nunca fui crente ao se tratar de contos místicos. Ao abrir o livro, por ser antigo estava manchado, tentamos ler uma das frases que estavam escritas, Quem é este que entregaria a própria alma em favor da nossa no inferno?”. Apesar de não crer em lendas, a pergunta me provocou calafrios. Miranda viu que fiquei assustada, continuou a história.
– Diz à lenda que, uma família de bruxos se jogou no rio na noite de sexta-feira, o dia exato não se sabe. Contam que até hoje se ouve nas margens do rio, gritos do filho do casal que tinha apenas 10 anos no dia das mortes. Na noite de sexta-feira antes que chegue a lua, fechamos as portas das fazendas.
– O que significa a frase: “Quem é este que entregaria a própria alma em favor da nossa no inferno?”
– Suas almas estão destinadas ao inferno se não conseguirem quem entregue a própria alma em sacrifício das deles.
– Que história interessante, pena que eu não acredito em lendas.
Miranda anda em direção à janela, avista o rio e pergunta.
– Vês o rio?
– Sim, suas águas são escuras.
– É este o rio. São escuras por causa das almas que ficam presas todos os dias, menos na noite de sexta-feira. Chega de lendas! já está tarde e não quero que me tranquem do lado de fora da fazenda afinal, hoje é sexta-feira, dia ir dormir cedo. Boa noite.
– Enfim, realmente já é tardinha, nem vi as horas passar. Tenha uma boa noite.
Miranda guarda o livro de lendas e rapidamente vai pra casa.
 


Depois do jantar todos fomos dormir e eu estava sozinha naquela imensidão que parecia meu quarto, a escuridão deixava-o mais vazio. Da janela invadia uma brisa serena e fria que chegava até meu cobertor. Eu não tinha sono, nem vontade de dormir, eu somente queria ouvir histórias e mais histórias de lendas, apesar de serem fantasiosas elas me intrigavam. Meus pensamentos me deixaram desperta, eram tão intensos que saiam de mim, flutuavam e ecoavam no ambiente; eles perguntavam, “Quem é este que entregaria a própria alma em favor da nossa no inferno?”, “Por qual motivo as águas do rio são escuras?”, “Não seria somente um favor científico?” De repente escuto uma voz de criança, que dizia: “Renata”, era uma voz serena e fria como a brisa que invadia meu quarto. Eu estremeci, me encolhi na cama, aquela voz ao mesmo tempo em que me lembrava de calma, gelava o meu espírito e eu não sabia de onde vinha, não assemelhava a um dos meus pensamentos. A voz mais uma vez me chamou: “Renata, Renata”, dessa vez eu perdi a fala, não saia palavras de minha boca. Percebi que a voz vinha da janela e depois de me recuperar levante-me da cama, todo o meu quarto estava assombroso, tudo estava frio, a janela estava como sempre, de lá avistei o rio e suas águas que refletiam a lua. A voz outra vez falou comigo, me pediu para pular da janela e ir até o rio.
Eu não conseguia nem mover minhas pernas, eu tinha medo, ao pensar que seria a oportunidade da minha vida, que seria a experiência mais empolgante que haveria de acontecer comigo, que quando alguém me perguntasse como foi que aconteceu, eu seria importante mesmo que seja momentaneamente. Meu medo não foi maior que meu desejo, encontrei coragem e pulei a janela, nas margens do rio havia sombras escuras que se movimentavam rapidamente da medida em que eu andava na margem do rio, uma delas se transfigurou em um ser, cinza e triste que me olhava com inquieto. O ser era como uma criança incrivelmente bela e não aparentava mais que 11 anos, seu olhar era vago, faltava vida, seu rosto era pálido e seu corpo era comum. Olhei para baixo e não consegui olhar seus pés, notei que na terra onde ele estava saiam bichos, eram larvas enormes andando abaixo do ser que voava, aquilo me assustou, eu gritei.
-- Não grite, não tenha medo.
-- Oque você quer de mim?
-- Eu só preciso de um espaço?
-- Um espaço pra quê?
Eu mal terminara de falar, o ser se transformou em fumaça e entrou pelas minhas narinas. Sentir como se ele estivesse em mim, meus pensamentos estavam sendo desvendados. Eu escutei a mesma voz, dessa vez veio de dentro de mim como se fosse um pensamento:
-- Quem é você? Pequena, frágil mortal. Sua vida medíocre a trouxera para nós e precisamos dela para a nossa libertação.
Aquilo era incontrolável e me controlava.
-- O que é isso? Quem são vocês?
-- Você queria voltar para suas origens? Eu sei que sim, não sei por qual motivo pois, ninguém onde morava gostava de você. Você não faz falta a ninguém. Teve que ir até mim para tentar ser alguém interessante para as pessoas.
-- Para! Vocês não sabem nem da metade da minha vida.
Aquilo me abalou emocionalmente, eles sabiam de tudo o que eu sentia, das minhas frustrações quando criança, da crise econômica da minha família que me levaram até aqui. Quanto mais eu pensava nisso eu me amedrontava e o pior é que eu entendia que ele já sabia de tudo isso.
-- Sei quem é você, uma garota que ousa em sonhar, mas não conquista, não tem força pois é sozinha.
Minha dor era perceber que tudo aquilo tinha razão. Eu realmente sou desprezível, não tenho amigos, nem ninguém, por isso meus pais não se preocupam, eu não faço diferença mesmo, talvez eu não conseguisse nem ser amiga de alguém como eu se eu não estivesse no meu corpo. Sinto-me presa as minhas frustrações, não consigo nem controlar minha insônia, só escuta a mim mesma, os meus pensamentos me trouxeram a esse pesadelo. Eu quero muito voltar pro meu lar, eu quero muito acordar.
Quando olhei a minha volta tudo era escuro, eu já estava afundando nas águas do rio.

Autora: Andréia Alcântaras Moura

Esse é um dos contos que concorreu no concurso de contos de terror do blog.

Um comentário:

Matt Kist disse...

Não conhecia essa lenda...