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segunda-feira, 10 de agosto de 2015

[Conto] A Casa Rubra

A história que lhe vou contar, só farei isso por ter sido testemunha ocular, pois mesmo estando lá chego a duvidar, já que o seu fim causa incerteza até no narrador, iremos para o começo.
A historia passou-se em Suplicar, uma cidadezinha do interior, como moradores de um pequeno povoado é natural que todos conheçam todos, de modo que o nosso tempo ocioso é completado com historias obscuras de cada morador, tanto que mesmo que diretamente não conhecemos tal sujeito, não há duvida que o conhecemos melhor ou igual a sua própria mãe. Em um desses dias serenamente normais, minha vizinha gritou chamando por minha esposa, entre a sua ofegante voz, havia um olhar de antipatia, um brilho negro de desforra cumprida, instintivamente sabia que alguma coisa de ruim aconteceu com uma das mulheres, minhas suspeitas se confirmaram, quando minha esposa contara que Eriberto fugira com a empregada, levando todo o dinheiro, deixando apenas para esposa: o casarão da família, um punhado de terras e um filho em seu ventre.
A muito contara que Ariana nunca batera bem da cabeça, talvez esse seja o motivo da fuga, mas após essa noite, sua razão nunca voltara totalmente para si, seus primeiros sinais fora uma proteção descabida a seu filho recém-nascido. Com as vendas das propriedades, deixando apenas o casarão e o terreno a sua volta, Ariana garantiu um bom dinheiro, sendo a maior parte gasta com os mega cuidados de seu filho Esteban. Os leitores, principalmente os de alto cunho materno, podem argumentar que é natural o elevado amor de uma mãe a sua cria, mas não existe amor materno admissível nestes termos, Ariana concentrou toda a sua vida na criança, tantas cautelas que a pequena criança, nunca pisara os pés na rua enquanto a sua mãe ainda estivera viva. As poucas pessoas que entraram no casarão, disseram que mais parecia um hospital, tudo dentro era branco, o garoto não podia sair de seu quarto,toda a comida/bebida era levada por sua mãe e alimentada diretamente por ela, alias era única que tinha permissão de entrar no quarto, não havia nenhuma entrada de luz ou ar natural, apenas a frialdade de um leito hospitalar. Quando alguém tinha a coragem de perguntar o motivo disso tudo, Ariana respondia que o seu filho era muito doente e frágil, tanto que não aguentava contato direto com: sol, poeira, água não mineral, pessoas e etc. A lista é tão grande que precisaria de um livro de anexo. Mas um dia Esteban ficara realmente doente, sua mãe ficou tão preocupada que trouxe um esquadrão de médicos da capital, o medico que o examinava, contou que não havia nada de anormal, exceto uma gripe passageira e que se o seu estado parecia tão mal, era exatamente por tantos anteparos. Ao escutar a analise medica, a mãe perturbada teve um ataque, espumando, expulsou os médicos aos gritos, seus gritos foram tão altos e estridentes que mesmo sendo um povoado, a distancia de um extremo ao outro é considerável, mas não para os berros da demente mulher.
Anteriormente comentei que a casa internamente lembrava um hospital, essa observação de nada vale ao seu exterior, ao contrario havia uma aparência de repugnante apodrecimento, nada ao redor continha vida, antes da fuga noturna todas as propriedades de Eriberto ostentava uma combinação perfeita de harmonia e beleza,
agora em nada lembra uma residência, pensando bem nem um hospital, estava mais para um manicômio contornado pelo vale da morte.
 


Se o que já narrei é motivo mais que suficiente para ter pena do pobre garoto, isso só aumentou, ao completar 11 anos suas feições físicas mudaram, nas rodas de conversas falavam que a cada dia ficara mais parecido com o seu pai, tanto que a simples entonação da voz mais profunda igual à de Eriberto fora o estopim de uma catastrófica e inescrupulosa revolta de Ariana. De modo que a primeira fase já passada fora os cuidados excessivos, agora ela o odiava, depositara a raiva pela fuga, em seu filho e com uma mente transtornada não há dificuldade de aplicar desculpas aos seus castigos. Todos os dias Esteban era molestado por agressões físicas e insultos, sempre vociferando que ele era desprezível como o pai, e que um dia mesmo com todo o amor seria miseravelmente traída, e nas elevadas horas da noite sanava as escoriações latentes e o mimava de forma que Esteban até o ultimo dia sempre achou que iria ficar tudo bem, mas na aurora do outro dia sempre fora mutilado ainda mais. Nos duros anos que se seguiram fomos completamente impotentes, tentamos mover os meios legais, mas nada podiam fazer pois para a lei era uma tutora licita, os representantes de fora da cidade, mesmo alertados por nós moradores, foram ludibriados pelas artimanhas de Ariana, e os de percepção critica real, infelizmente não possuía coragem no mesmo patamar para enfrentar uma maníaca possessiva. Quando cansamos de esperar a ajuda superior (LEI), nos reunimos para decidir a nossa interferência direta, nas primeiras investidas, já fomos nocauteados pelas grandes dificuldades do terreno, o vale da morte era de descomunal aleivosia, todos que fora tentar entrar individualmente, antes de chegar a porta foram cortados, arranhados e aterrorizados. Reunimos-nos novamente e dessa vez decidimos que todos os homens de força e índole inabalável se organizariam e juntos percorreríamos os cursos da mata até a casa, mas pouco a pouco meus companheiros foram ficando pelo caminho, sem olhar para trás continuamos até que ao avistar a porta já era menos que uma dúzia de homens, mas antes mesmo de descansarmos e aproveitarmos a conquista única, fomos abatidos pela ira de Ariana, quando perturbada e achando-se provocada sua força física aumentava extraordinariamente, tanto que parecia possuída pelo demônio, mas o seu demônio era a insanidade, voltamos para casa derrotados e desolados, tendo como som de fundo os gritos dolorosos de Esteban.
Em uma noite de lua cheia, a escuridão, neblina e silencio foram retalhadas pelo bradar agonizante de Ariana, não eram os gritos comuns de cólera, eram pedidos de socorro e a dor que segue antes da morte, abri a porta, e olhei para a visão do casarão tenebroso acima da colina sendo iluminado pela lua amarela, envolto pela escuridão turva da floresta, todos fizeram o mesmo, ficamos olhando para a mansão, enquanto processamos aquele diferente acontecimento, não conseguia raciocinar direito, pois nunca havia escutado uma criatura em tamanho tom de apavoro, seu grito era tão estrepitante e medonhos que enquanto intercalava na sua frequência mais constante, me vi obrigado a levar a mão aos ouvidos e todos que me rodeavam seguiram a mesma atitude, até mesmo os animais por não conseguirem interromper os sons, correram em
busca de segurança. Ao termino da ultima e pior toada, segui alguns bons homens que marchavam rumo ao casarão, dessa vez o caminho estava acessível, ao defrontar com a fachada sombria, paramos em hesitação de continuar, devemos forçar a entrada? E se sim, o que nos aguardaria após? Olhamos um para os olhos do outro, era muito tarde para voltar atrás, continuamos a ideia inicial e entramos na casa. Nunca poderia descrever o tamanho horror que habitava aquela maldita residência, se antes tapara o ouvido, agora seguia as minhas mãos para as narinas e só não fechara meus olhos com medo de não mais abrir. Achava que o pior estado possível de podridão fora a densa relva que contornava todo o casarão, doce engano, tudo dentro daquela casa levava a crer que o próprio diabo havia projetado a edificação, com o mesmo empenho que fizera os seus 7 círculos. As paredes que me contaram que já foram brancas agora eram de um vermelho tão intenso, que não seria possível ser tingido por tintas, meu companheiro que estava ao lado, caminhou em direção a divisória mais próxima, e com uma expressão pálida, gritou:
- Isso é sangue!
- Sangue? Repetimos abismados.
Temendo o que poderíamos descobrir, caminhamos sem perguntar ou averiguar nada, cheio de duvidas em minha mente, abaixei a cabeça em reflexão, como é possível que toda a mansão fosse pintada por sangue? E de quem pertencia? Olhei para os meus colegas, não era o único com a cabeça oscilando, o motivo daquilo tudo não estava na razão, era obra da loucura e perversão ao extremo, mas antes que pudesse concluir esse pensamento, o odor forte e repugnante que dominava tudo, atravessou a minha vã tentativa de barreira, aquele cheiro asqueroso não era percebido pelos sentidos, entrava pela alma, alias tudo que habitava na casa, se debatia com a vida de nossos peitos, não foi difícil pensar que com muito tempo em contato com os diversos tentáculos da morte presente naquele pavoroso ambiente, seria o suficiente para sermos mais um dos enfeites daquele pernicioso lugar. Como o tempo era precioso, fomos o mais rápido possível para o quarto, à fonte mais provável dos gritos, após o segundo lance de escada, ficamos frente a frente com a porta branca de maçaneta com forma de uma mão vermelha, coloquei a minha mão sobre a mão desenhada, girei e empurrei a porta, vagarosamente o quarto iria se revelando, ao termino da panorâmica, podíamos ver a trilha de sangue que levava ao corpo estendido de Ariana, próximo a cama encharcada de sangue pingando desta para o assoalho apático de madeira, soando um som constante e incomodante. O corpo alem de amplos sinais de cortes, o pescoço também havia sido estrangulado com tamanha força, comparável com que eu quebro um graveto. Ao fundo do quarto estava Esteban, sobre as brisas do vento, em um buraco que ele usava de janela, feito com uma marreta que estava no chão. A lua cheia projetando sua iluminação sobre a janela improvisada, recaia exatamente aos olhos arregalados do cadáver, olhei mais tempo que os outros, para as retinas pálidas, com a Iris completamente atravessadas por estremecidas linhas vermelhas, a luz lunar revelava todo o aspectos da tortura, uma tortura que não importará o tempo, nunca se
apaziguará,creio que se não fosse a própria recaída pelo chão, Ariana adoraria mais aquele deplorável ornamento para decorar seu castelo de horrores.
Ao recompusermos do espanto inicial da cena, interrogamos a Esteban o que aconteceu no quarto, ele ainda sobre o vento, olhando para lua, respondeu que sua mãe estava indo em direção a cama onde ele estava deitado para o “cuidar”, mas antes escorregara e batera a cabeça, gritando algumas vezes antes de se silenciar para sempre.Deixamo-lo no quarto, e nos reunimos fora da casa, nunca saberemos como aconteceu, mas sem duvidas sabemos o que aconteceu, novamente nos olhamos, analisando a expressão de cada um, optamos pela misericórdia do pobre miserável, que por toda a sua vida fora vitima de uma violência passiva e ativa provindo de uma insana mãe. Noticiamos para Esteban que amanhã providenciaríamos o enterro, e continuamos por horas falando para ele, desde assuntos emocionais até os meios legais, mas em tudo o silencio reinava por Esteban, menos quando o perguntamos se ele queria morar na casa de algum de nós, com a expressão fria e um olhar sádico respondeu:
- Agora essa é a minha casa.
Com a débil e ríspida conclusão em nossas consciências, andamos para nossos lares, a minha mente ainda não alertava do grande erro que nós cometemos naquela noite, o certo era que nunca mais dormiria ao escuro com as terríveis visões do casarão e o olhar mutilado de Ariana.
Ao final do enterro, Esteban seguiu para o cartório, onde recebeu o direito de ter o dinheiro da família e ao longo dos anos multiplicando esse. Realmente o garoto tinha um senso para os negócios, todo o resplendor capital retornara, até mesmo o casarão depois de tantos anos no limbo voltara para a nobreza. Mas conforme cada temporada sepultava a anterior, Esteban alem de mais rico, fora ficando cada vez mais maléfico. Ainda quando criança, um ano após o fim de sua matriarca, durante o dia ele era apenas uma criança simples e pura brincando com os animais, uma criança doce, mais na manhã seguinte, quando acordávamos encontrávamos os mesmo animais de ontem mortos pelos cantos turvos da cidade, fomos relevando todos os seus atos, sem dificuldade ele foi evoluído na quantidade e tamanho dos animais, o desejo de prover a morte o acompanhava, mas conforme percebíamos, a tortura simplesmente animal não era mais o bastante, ele aguçava por escutar os mesmos gritos de rogo pela vida que escutou na noite de sua liberdade . Esteban herdara os genes de seus progenitores e foi moldado pelas cruas circunstâncias, do pai a sedução física e mental e o abandono e da mãe a loucura, crueldade, cinismo e a liberdade distorcida. Possuía tanta ardilosidade, que perante o dia, afastado das tentações noturnas, conseguia entreter todos com as suas conversas, mesmo o resentimento era diluído pelo charme e eloquência pela personalidade viva do jovem Esteban. Mas aos anos de sua fase adulta, desistimos da crença de que era algo temporário, e não uma sociopatia degenerativa, até mesmo a piedade pelo seu transtornado passado, já não significava nada comparado com as suas ações presentes. Principalmente quando ele começou ao cenário de céu noturno iluminado pela lua cheia, a chamar em uma por uma das casas, convidado para que os
respectivos moradores saíssem de seus lares, para acompanhá-lo no que ele chamava de “passeio”, nas casas iniciais possuía um sorriso falso de euforia ocultando um maléfico verdadeiro, mas conforme ia acabando as opções, seu turbido ia aumentando, completamente desesperado, falhando em atrair uma vitima para sua teia mortal, com o desejo incontrolável não correspondido, voltava aos animais com uma bestialidade e agressividade que dava ânsia só de pensar.
Desistindo de uma vez por toda de nos raptar pelas antimanhas, começou a viajar para as cidades vizinhas, para conseguir o que tanto desejava, seduzia as moças e as convenciam a o acompanharem até a sua mansão, durante um mês, eram tempos de pura satisfação para com as moças, nem uma princesa recebiam os privilégios que Esteban dedicara a suas conquistas, mas chegando a fatídica noite, com todas as semelhanças da primeira ceifada, na minha teoria acho que ele sempre ansiava por reencontrar aquele sentimento, mas era na noite de lua cheia que o desejo atingia o êxtase do prazer supremo para um homicida. As pobres coitadas, na infeliz e elevada noite, escutávamos gritos, era som da inocência se esvaindo, da forma mais brusca possível executada por um doente, essa era a melodia preferida de Esteban, o corpo era um instrumento musical que ressoava clemência e pavor e Esteban o maestro das trevas que habilidosamente provocava as variações segundo sua demente cabeça. Nas primeiras vezes corremos ao socorro, mas quando chegamos nada de anormal estava presente, nem os vestígios da morte prematura, e cinicamente indignado, o dono da casa respondia que era os animais pela floresta que balbuciavam este som e a donzela que residia temporariamente em sua casa, já tinha partido.
Com a ira pela frustração pulsando em nossas veias, planejamos com antecedência que na próxima vez o pegaríamos em flagrante, Esteban metodicamente seguiu os protocolos anteriores, mas desta vez na noite de lua cheia, estaríamos esperando nos arredores da casa, só aguardando o sinal, os mesmo homens que irresponsavelmente fora conivente há anos atrás no seu matricídio, agora se reunira para essa emboscada e a redenção, ao deitar de animais e o levantar de outros, quando a noite atinge a sua paleta de cor mais escura, um montava guarda por vez, até os gritos começarem e despertaram-nos, instantaneamente já estávamos passando por cima de todos os obstáculos, mas para a nossa infeliz surpresa nos defrontamos apenas com Esteban, novamente não havia nenhum sinal da moça, não fazia sentido algum, acabara de começar, não daria tempo nem ao menos para finalizar, ainda mais para ocultar o cadáver, atônitos não acreditávamos no que acabara de acontecer, penosos olhamos todos os cantos, no fim com um sorriso sádico Esteban deu tchau, completamente abatidos caminhamos a passos lentos, não nos restava nada, perdemos os resquícios de dignidade, não sobrou alternativas, sem provas claras e com todo o dinheiro de Esteban, não há como o acusar, o maximo que poderíamos fazer é tentar alertar as vitimas sobre o seu futuro certo. Foram poucas as que escutaram, não existem nenhum motivo para sorrir ou viver plenamente, apenas rezar pelas almas das que foram e as que vão, e principalmente para que um dia tudo isso acabe.
Os anos passaram turvos e sanguíneos, a boa vida dos cidadãos de Suplicar acabou-se há muito tempo, durante os dias apenas nos lamentamos, não há sorriso que sobreviva em nossos peitos, e durante a longa noite ignoramos qualquer som afora, assim mascarando a dura realidade. Um dia nosso débil cotidiano, foi diferente por alguns minutos, ao entardecer, todas as carrancas da cidade, viraram-se os rostos para uma forasteira de beleza formidável, trajando-se completamente em preto, caminhou serenamente, mas com os olhos fixados no espectro casarão.
- Coitada não sabe que está caminhando em direção à morte. Minha mulher sussurrou em meus ouvidos.
Mas a mulher ignorava a tudo e a todos, não existia nada alem do caminho para a mansão, ao chegar ao seu destino, chamou pelo dono da residência, este ao perceber a voz feminina, pensou que a sua “diversão” foi mandado por delivery, rindo, fitou pela primeira vez os olhos da moça desconhecida, Esteban foi completamente apaziguado, toda a sua fortaleza foi destruída por ela, e ela ao abrir a boca com uma eloquência privilegiada, facilmente conseguiu se instalar na casa. Não sei ao certo, se por querer elevar o nível de sua “diversão”, curiosidade ou até amor, dessa vez foi diferente, 3 luas cheias se passaram e ela continuava viva e intacta, e quem por qualquer motivo tinha que falar com Esteban, jurava que seu comportamento estava diferente, mesmo assim fui surpreendido com a chegada de uma carta em minha residência convidado para o casamento do Sr. E. Muniz & A. Legionem, a ser realizado no casarão, daqui a 7 dias, o convite era reservando apenas a mim, nem mesmo a minha família poderia me acompanhar, e especificava que eu seria testemunha legal da união. Desconfiado e indignado, rasguei o convite, não seria cúmplice de mais uma das doentias brincadeiras de Esteban, eles que procurassem outra pessoa, mas na noite marcada dois capangas bateram em minha porta, me encontraram firme em minha negação, mas quando fechava a minha porta, fui interrompido pelo primeiro com pé, enquanto fazia gesto de futuras agressões físicas com as mãos e o segundo com o rosto sombrio, falou imperativamente:
- Sua importância é tão grande para o evento, que creio que não recusará, né?
Não possuindo escapatórias, acompanhei-os na trilha noturna até o casório, iluminado pela lua, ao chegar à propriedade, que tinha adquirido decoração com a temática casamento, sentia até mesmo um excesso de “pureza” e “delicadeza”, mas mesmo com aquela roupagem nova ainda possuía obscuridade de outros tempos, caminhei desta vez sozinho ao palco da cerimônia, no hall principal, estava completamente vazio, a impaciência de ir para casa nunca me deixara e procurando rotas de fugas, desisti com a entrada do padre com todas as suas convenções, mas enquanto atuava notei uma sobresalência no bolso esquerdo da batina, aposto que era o suborno dado pelo noivo, pois nenhum homem honesto aceitaria o encargo desta união, o padre no fim ativou uma reprodução das canções núpcias, o vil noivo entrou sorridente, e após a sua noiva também sorrindo, com uma felicidade de algo a mais do que um simples casamento, estampada em seu rosto. Todos os protocolos foram
iniciados, assumi a posição de testemunha do noivo, enquanto que a da noiva estava vazia, mas isso não importava pois poderia ser facilmente falsificado depois, o padre começou o seu monologo, finalmente após esse blá-blá-blá interminável, o noivo assinava o contrato da união, sonolento eu olhava a noiva, essa de tão ansiosa, estava tremendo, como alguém que está próximo de realizar um desejo enorme, e com as mãos tremulas e um sorriso sinistro ela assina, agora é a minha vez, termino e caminho em direção à saída, mas antes de chegar a porta, bruscamente as luzes se apagam, maldito casamento que só me infortuna, procuro o meu caminho no escuro, quando as luzes voltam, mas invés de olhar a saída, meus olhos são levados ao que antes era um lugar vazio onde deveria estar a testemunha, agora era ocupado por um SER de gargalhada sinistra, vestindo uma mortalha densa e negra que cobria todo o seu corpo, apenas descobertas as mãos formadas apenas por ossos e as duas esferas vermelhas na escuridão projetada pelo capuz, tremendo dos pés a cabeça sem saber o que estava acontecendo, só pela aparição repentina e a risada mortal, cai sentado sobre um dos bancos vazios, completamente paralisado apenas meus olhos possuíam movidade e faziam questão de seguir o ser estranho, e esse caminhou calmamente até a mesa dos documentos, passou pelo noivo pasmo, o padre segurando o crucifixo, a noiva sorrindo, pegou a caneta e escreveu abaixo do meu nome, enrolou o papel, fez uma marca com o seu dedo e a entregou para a mulher sorridente, novamente a luz foi apagada, todo o meu como arrepiou de uma forma jamais feita antes, se o meu sangue corria lentamente, o medo esse se espalhava por todas as veias de forma frenética, não sabia o que esperar, encolhi o meu corpo, como se isso me protegesse de algo, quando as luzes se acenderam o ser estava no mesmo lugar, de braços cruzados, mas a noiva havia desaparecido, os globos da criatura fitavam a porta atrás de mim, vagarosamente olhei para trás, me arrependendo instantaneamente, igual a uma acrofobo que olha para baixo em um precipício, exatamente lá estava a noiva com o vestido completamente respingado de sangue, com uma aparência de podridão fúnebre, o ser que ainda estava no altar, deu uma tossida chamando atenção para suas palavras:
- Oi, muito prazer para todos, podem me chamar de Morte, estou aqui porque as senhoras (apontando para a noiva) me invocaram das profundezas do purgatório, chorando e suplicando por mim, para uma cerimônia muito especial, como sou justa, aqui estou.
Escutando atenciosamente, senti pisando sobre algo molhado, olhando para baixo, percebi ser sangue, e esse já havia possuído todo o piso, e a fonte era a noiva, seu vestido começou a rasgar, a mulher fúnebre que antes ainda tinha aparência humana, agora se desfigurou desaparecendo com os traços humanos, formando um amontoado de massa com a anuência de rostos, alguns reconheci como sendo das moças assassinadas, e enquanto formavam e deformavam, balbuciavam palavras como: vingança, justiça, ódio... O chão começava a ceder, já era possível ver rachaduras sobre todo o casarão, novamente olhei para o altar atraído pela voz fria da morte.
-Senhoras podem levar o marido, (olhando para o noivo que estava próximo) meu querido você acha que era tortura o que você fazia? Você nem consegue imaginar o que
lhe aguarda nas profundezas do inferno eternamente com essas moças sedentas por vingança. Gargalhou sinistramente.
A massa já escorregava em direção ao alvo, que estava abismado, infinitamente temeroso, empurrou o padre na direção mortal e tentou correr em vão, a massa de cabeças cresceu imensuravelmente e formou uma espécie de onda diabólica, tragando todo o canto onde o noivo tropeçara, e antes do destino opróbrio de Esteban iniciar, a Morte rindo, disse:
-Não se esqueça de mandar um beijo para a sua mãe.
No lugar onde a massa engoliu o assassino incrédulo, cresceu as chamas do inferno que rapidamente devoraria toda a casa, e antes da morte desaparecer na escuridão, olhou com seus olhos rubros bem no fundo dos meus, como se falasse: eu poderia te levar agora, mas ainda não é a sua vez. Temendo ser obliterado pelas chamas e com a cabeça confusa, corri para a segurança do lado de fora, no buraco que se formava no assoalho de madeira consegui ver as enormes pilhas de ossos, corri ainda mais rapidamente, sem olhar para trás, enquanto o casarão era completamente consumido pelas chamas infernais, nunca mais alguém seria torturado pelas loucuras e maldades provindas do casarão.

Autor: Bruno J. Santos

Esse é um dos contos que concorreu no concurso de contos de terror do blog.

2 comentários:

Miya Seat Lee disse...

Aleivosia, acrófobo, opróbrio... Estou impressionada com a quantidade de palavras pouco usadas aplicadas ao conto e essas três eu nem conhecia!
Fiquei achando que o conto seria somente sobre a psicopatia... me enganei! Muito bom, parabéns!

Matt Kist disse...

Você demonstra extrema erudição, Bruno.
Conto muito pulcro.
Parabéns.