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domingo, 12 de julho de 2015

[Conto] A última chance

Definitivamente, eu acho que estava com sorte. Ou seria o destino? Ou um aviso de Deus, ou uma alma amiga, ou qualquer outro milagre? Não quero pensar nisso. Não estou preparado para investigar isso ainda. Meu nome é Edvard, e tudo o que posso falar, é que algo superior me salvou, algo que abriu meus olhos fechados pelo medo para uma realidade que eu antes, consciente e sabiamente, ignorava. Mas agora, o que posso fazer, é ajudar os outros a entender os riscos de tentar enxergar também. E avisar: Não cheguem nem perto daquela cidade abominável que tive de habitar durante uma terrível noite. 
Eu queria muito viajar e descansar, mesmo sem ter dinheiro sobrando. Durante a semana, tive muito trabalho acumulado na empresa, um trabalho que eu não conseguia fingir que me importava. Eu sempre fui um ótimo contador, mas isso não significa que eu goste disso. E neste momento, eu pretendia descansar em minha cidade natal, no belo litoral do Paraná, junto dos meus pais. Na ânsia de rever minha família, não comprei mapa algum, muito menos um GPS, pois naqueles dourados anos do século 20, quando comprei meu primeiro carro, um fusca orgulhosamente movido a álcool, eu nunca tinha nem ouvido falar de GPS. Eu confiava nas placas da rodovia, dirigia alegre e empolgado, ouvindo Erasmo e Roberto Carlos em meu toca fitas, quando acabei pegando, sem perceber, a direção errada em uma das placas. Andei muitos quilômetros, e não vi sinal de civilização. Quando meu tanque entrou na reserva, me desesperei.
Eu estava no meio do nada, o asfalto já não estava mais lá, eu dirigia em uma estrada mal cuidada de chão, num final de tarde muito frio de julho, com a lua indiferente começando a resplandecer no céu, sobre os morros escuros, a neblina pesada e os pinheiros intocados daquele lúgubre lugar. A paisagem se completava, para o alívio de minha alma, com uma Igreja antiga, construída em um estilo barroco, com suas características colunas gregas, torres altas e sinos, no topo de uma colina, indicando a proximidade com uma cidade. Depois de estacionar, decidi ir a pé, pois talvez conseguisse alguma ajuda com o padre na Igreja. Já preparando um discurso, coloquei minha jaqueta, peguei minha lanterna, sai de meu carro quente, mas confortável, para o meio daquele ar gelado e vento cortante, que fez doer minhas orelhas. Para diminuir a distância, em vez de seguir a estrada, cortei caminho pela grama baixa até aquela capela.
Ao me aproximar, pude ver, com a luz de minha lanterna, que ela estava completamente decorada, o que durante o dia seria belo, mas durante a noite soava macabro. Ignorei estes detalhes, pois eu estava com frio e com pressa. Não consegui achar ali perto casa alguma, o que significava que não havia padre, e assim, não havia ajuda. A notícia boa é que ali do alto, avistei próxima de mim uma pequena localidade, e nela um posto de combustível. Porém, a estrada era visivelmente ainda pior, e meu fusca não conseguiria passar por lá. Decidi que valia a pena tentar obter ajuda lá, e com o meu pouco de dinheiro, comprar um galão de álcool. O fato de não haver luz acesa não me intimidou, pois julguei que a neblina estava encobrindo qualquer claridade. Comecei a descer a colina, deixando aquela igreja solitária, para traz.
Houve muito barro no meu caminho para aquela localidade, e eu comecei a perceber que algo estava errado: Não havia luz alguma nas casas, nem som de conversas, nem de animais. Apenas eu e minha sombra andávamos pelas ruas. Achei finalmente o posto de combustível, ele tinha uma lâmpada acesa, para minha tranquilidade, mas não vi nenhum funcionário. Achei um galão sujo nas proximidades, e segui a instrução da placa afixada nas bombas: “ABASTEÇA SOZINHO E PAGUE NO CAIXA”. Qual foi minha surpresa que, ao entrar para pagar, não achei ninguém, e as luzes que estavam acesas apagaram. Ouvi passos, tomei coragem e falei:
-Olá? Alguém ai?
Sai após bater palmas para o vazio e inutilmente chamar algum atendente por vários minutos. Quando eu fiz meu caminho de volta, senti uma vertigem. Quanto mais eu andava, mais longe parecia ficar a igreja. Em pouco tempo, eu não via mais a cidade ou a igreja. Me apavorei, e corri na direção que eu acreditava estar meu carro. Mas cheguei novamente na frente cidade, passando por baixo de um arco de boas vindas parcialmente pichado, formando a mensagem “BEM-VINDO A CAMPOS NEGROS”. Ao atravessar, gritei de desespero ao ver uma figura escura, de capa negra, emitindo uma luz avermelhada, que me segurou apenas com seu olhar, e falou com uma voz grave e profunda, como um trovão:

- Kabllaiug Uoy Evas Dluohs Rohtua Eht Elttab Siht Niw Ot!
Eu senti como se a vida escapasse de meu corpo, eu já não sentia o frio cortante daquela noite. Me debati, tentei escapar com toda a força que me restava, e quando estava jogando a toalha, vi a capela que eu estava tentando alcançar começando a brilhar, com uma luz dourada, muito forte, essa luz se aproximou de forma muito rápida, e eu senti que ela me invadia, me devolvendo energia, enquanto a criatura escura estava se tornando cada vez mais transparente. Quando ela finalmente desapareceu, a luz também cessou, e eu desmaiei.
Tive um sonho estranho, em que me encontrei com uma versão diferente de mim mesmo, que ao mesmo tempo tinha as minhas características e as que eu gostaria de ter. Eu perguntei:
- O que é você?
- Você logo irá saber. Não há tempo, você deve despertar e ir novamente para casa. E tome cuidado!
- O que você quer dizer com isso?
-Este monstro não é da forma que você viu. Sua visão que está fechada. Mas se você voltar aqui, as energias deste lugar vão obrigar ela se abrir, e você verá coisas piores, terrores que você nunca experimentou. Desta vez eu paguei o combustível, e a um preço muito alto, mas não posso salvar a vida de alguém duas vezes.
Quando abri os olhos, estava ao lado da igreja, com meu carro a poucos metros de mim, e o galão cheio de álcool sobre o capô. Mas o que me fez acreditar na noite anterior, e dirigir loucamente para casa, foi ver a estátua, que antes não estava lá, apontando na direção contrária ao litoral: Um anjo, de feições tristes, escrito em letras cursivas no pedestal da obra:
Emmanuel.
Ao chegar em casa, o jornal comprovou o que eu já pressentia: Acidente na BR-277 mata todos os envolvidos. Essa é a estrada que eu estava seguindo, até me perder.

Autor: Állan Guilherme

Esse é um dos contos que concorreu no concurso de contos de terror do blog.

Um comentário:

Matt Kist disse...

To win this battle the author should save you guiallbak.
Hehehehehe, ele se encontrou com uma versão dele mesmo, o author.
guiallbak deve ser um acrônimo do nome do author. Gui All Bak (Guilherme, Állan e Bak???).
Heheheh bom conto, a regra do concurso dizia que o personagem deveria entrar em contato com uma criatura que "não é deste mundo", foi uma boa sacada fazer o personagem se encontrar com o author.