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terça-feira, 14 de julho de 2015

[Conto] O Novo Produto

Sempre foi fácil arranjar crack no Rio de Janeiro, e isso só se tornou uma mentira nesse inverno de 1997. O produto simplesmente desapareceu das ruas, e você pode ver os viciados andando por aí sem rumo, tremendo e se coçando, e aprendendo que a palavra “vício” não se escreve assim à toa. Se você viu por aí um desses viciados que se denunciam nos músculos trêmulos, e se o cara em particular vestia uma camisa suja de uma banda qualquer e se ele parecia quase limpo, quase saudável e até um pouco inteligente, é capaz de você ter passado por mim. E a julgar pela intensidade dos pegajosos sons que se aproximam vindos do outro quarto, se você passou por mim antes, foi a última vez.
Eu não comecei pelo crack, é claro! Eu comecei alimentando as veias com heroína. Tinha algo de romântico, quase Goethiano, nas agulhas descartáveis que me veiculavam o transe. Eu comecei a me injetar porque era o que o William Burroughs fazia, era o que o Miles fazia, e o Cobain... Foi o que matou a porra do Tim Buckley, no fim das contas! As pessoas falam que tal droga ou tal outra droga são a porta de entrada para todo o resto, mas em geral são pessoas que não entendem nada disso. A indústria do cigarro entende as coisas bem melhor.
“Crianças começam a fumar ao verem os adultos fumando”. Isso não é advertência: Isso é propaganda!
Dizem que o ser humano aprende com os hábitos dos outros seres humanos, só não dizem quais são os hábitos que a gente tende a escolher para aprender. O primeiro vício de todo drogado de classe média como eu não é nada mais químico do que idolatria. A idolatria é a “porta de entrada”. Eu venerava os gênios “junkies” do passado, e quis me tornar como eles...
É bom saber que você não falhou de todo na vida, que pelo menos uma das partes do seu “Plano A” deu certo. É uma merda que o plano só tenha me trazido até aqui.
A primeira vez que tentei parar com a heroína foi em setembro de 92. Deu quase certo. Só que aí os meus bons amigos me deram um pico de aniversário, e arruinaram minha “cold turkey”. Da segunda vez foi minha namorada que me trouxe um troço doido de Amsterdã, que fez eu me sentir o John Travolta naquele “Pulp Fiction”. Pouco depois eu vendi a TV e o vídeocassete, e não tinha mais ídolos pra ver. Quando eu tentei vender a namorada, ela foi embora. Acho que foi sensato da parte dela. Daí em diante, não precisei mais de ajuda para boicotar a abstinência.
Apareci na casa da Monique, minha traficante no Humaitá, mas a desgraçada não estava. Minha pele já estava bronzeada como um gorgonzola, e não cheirava muito diferente de um. Andei até a Glória, suando mais de vinte litros para fora dos meus poros infectos, e não consegui nenhum opioide nas “farmácias de manipulação” que eu conhecia. Porra, Monique! Eu tava bem no meio da merda, até o meu cigarro já estava acabando. Já estava quase na Lapa quando caí vomitando no chão, e parecia que não ia sobrar muita coisa do velho Carlos depois daquele dia. Minha pele pegajosa se aderia à sujeira da calçada, e os moradores e turistas faziam questão de me evitar com largas passadas cheias de asco. Tim Buckley, é claro!
Quando o Perneta me ofereceu o cachimbo, falei comigo mesmo: “Não é a velha H, é verdade, mas já é alguma coisa”, e com essa sinapse de fogo, fiz as brancas pedras estalarem sua ignição corrosiva. Não era bem o que eu queria estar fazendo, mas aquela euforia me pegou de jeito, e seria como flutuar numa cidadela fosca de fumaça se não fosse a abstinência dinamitando a porra do meu tronco cerebral com a necessidade por mais morfina. Mais tarde, quando o efeito passou, eu me sentei com outros moradores de rua e me apliquei agulhas que continham de tudo. A sorte é que o HIV não estava no pacote. As misturas de crack com heroína eram tipo os rótulos daqueles biscoitinhos: “Pode conter traços de opioides pesados”. Depois de alguns dias, eu não ligava mais para a falta dos picos, e o que me importava era o estalar das pedras brancas. As pedras estavam em todo lugar, pelo menos até esse inverno. Eram mais baratas e mais acessíveis do que os opioides, e o efeito não era nada mal.
Alguns diriam que se não fosse por aquele dia, eu teria salvação. Aquela foi minha última oportunidade de escapar de um destino de químicos mal-purificados, da perda de peso e de dentes, e da incapacidade de uma cognição normal. Mais do que isso, foi a oportunidade dourada de escapar do inominável destino metálico sobre o qual repousam agora meus cinquenta e dois quilos de estranha calma. Mas isso seria romântico demais, e eu deixei o romantismo descer pela descarga junto com a minha primeira diarreia causada pelas lágrimas da papoula. A verdade é que desperdicei todas as chances de salvação que tive. E se tivesse tido outras, sei que as desperdiçaria da mesma forma. Eu tive diversos momentos em que eu quis, em que eu pude, em que eu quase consegui deixar as drogas de lado, mas diluí esses momentos em água destilada e os mandei para dentro também. Talvez me faltasse uma causa maior que me forçasse a ficar limpo.
Há ainda um problema epistemológico maior nesse exercício intelectual, válido para os poucos babacas que acreditam em algum tipo de Destino que rege os assuntos humanos: Eu nunca tive escapatória, e a prova disso é que estou aqui. Desde que nasci comecei a rumar para essa noite de hoje. Pavimentei esse caminho com baseados e carreirinhas, e cada gota de sêmen que verti em vão, cada lágrima que extraí das pessoas à minha volta, cada joia que roubei para garantir mais um momento de “barato” refletia um portal que me traria até aqui. “Inexorabilidade”. Se eu conseguir extrair alguma resignação dessa palavra, talvez aguente meu destino, ainda retendo as últimas migalhas de humanidade que possam haver dentro de mim. Mesmo que os acontecimentos desse dia tenham sido mais danosos à minha alma do que a maneira que eu a vim tratando desde os quinze, talvez haja alguma verdade escondida em meio a todos esses fragmentos de loucura. Eu tenho de procurar por ela, procurar pelos grânulos de iluminação que talvez estejam nesse quebra-cabeças de dor e caos que é o dia de hoje.
Mando o Carlos por baixo dessa tripa disforme respirar fundo e parar de tremer. Não sei o que é isso que aconteceu comigo, mas sei que eu e esse resto de Carlos não temos muito tempo até que os tais “bebês” cheguem aqui.
Li em algum lugar que “temos de trabalhar com o que nos é dado”. Havia, é claro, mais de Carlos e menos de tripa em quem leu isso.

***

Acordei hoje sem aguentar mais o cheiro do meu apartamento. Mais do que os restos de comida e o suor e as cinzas de estimulante que sobraram de maio, o cheiro que incomodava era o das coisas antigas. O resto da colônia que minha mãe me deu, os sabonetes que o coroa manda do exterior, o xarope de bordo em cima da torrada carbonizada. Eu não aguento mais o cheiro dessas antigas porras que eu não consegui vender, lembranças de uns quilos atrás, quando eu ainda fazia “facul” e só brincava com agulhas no fim de semana. Eu queria sair um pouco, arranjar um bagulho interessante, comprar algo no McD’s e ficar em casa ouvindo Primus ou algo assim.
Depois de pôr o pé na rua eu lembrei que não tinha bagulho interessante na cidade. Já tinha seis dias que tava assim, desde que os últimos estoques de pedra ruim foram comprados pelas mãos invisíveis do exército do crack, e usadas para fazê-los sonhar um sonho breve com o poder oculto. Em mais duas semanas, eles estariam tentando fumar até sabão de coco. Em um mês, estariam tacando fogo na rua, alucinando que os vapores sujos da cidade poderiam lhes trazer algum delírio.
Peguei um metrô, ainda assim, rumo ao Centro. Minha conexão na Cinelândia talvez tivesse alguma coisa.
A desigualdade é um demônio de dois rostos. Um deles sorri dentes apodrecidos nas esquinas da Zona Norte, padece com o calor e a chuva na face escura da Zona Oeste, e cruza a Avenida Brasil de pés descalços. O outro rosto não enxerga o primeiro, mesmo olhando diretamente em sua direção, pelo vidro fumê de um táxi ou de uma limo. Não vê as lágrimas nos olhos do primeiro rosto nem mesmo quando sobe em seu território pra se entorpecer, não entende por que eles não têm estudo, por que roubam ou matam para sobreviver. Mascaram os olhos com o liberalismo ignorante absorvido nos bares do Humaitá e da Lagoa, ou com um ativismo apaixonado em adoração a uma esquerda torpe e sedutora. Na real, a desigualdade é um demônio de infinitas faces, e todas elas estão erradas, porque trabalham em diversos meios para manter o demônio vivo.
O metrô abre espaço como um parasita pelas veias do demônio.
Saindo da estação, senti uma mão pesada a me puxar o ombro. Como carrego a marca do anjo da abstinência, o puxão doeu mais do que os habituais prefácios de dura. Olhei para o rosto do meu captor. Detetive Inspetor Mauro Santanna, Polícia Federal. Velho amigo...
Sentamos numa salinha cheirando café e boquete (é impressionante o que a abstinência faz com a acuidade dos seus sentidos), e ele começou a velha palhaçada de tentar me usar de informante. O Mauro tá na cola da Monique há uns anos, e fica tentando chegar a ela através das minhas veias de tempos em tempos, quando outros serviços de investigação começam a ficar chatos demais. Pobre Mauro... Pobre e burro Mauro...
— Se você olhasse bem pra mim, cara, veria que eu claramente tô fora da heroína há um tempo.
Mauro me olhou.
— Eu sei disso, ô, babaca! Tô te seguindo há bastante tempo.
Ergui mãos trêmulas no ar, dando de ombros. Meus olhos acompanharam o maço de cigarros no bolso da camisa dele. Pareceu uma eternidade até ele entender e oferecer um trago. Estendo a mão para pegar aquela nicotina deliciosa, e é quando começa:
O fato de você entender como uma coisa funciona dentro da sua cabeça não adianta de muita coisa no que diz respeito a evitá-la. Eu sinto minúsculos flagelos a bater por dentro dos meus tendões, gerando o tremor que possui minhas mãos. Eu sinto a cócega das patas e o serpentear dos corpos pelo meu abdômen constipado e, por um momento, tenho certeza de que os insetos e os protistas estão dentro de mim, movendo cada pedaço de carne e órgão que me compõe. Tento falar alguma coisa, mas tenho certeza de que minha língua se transformou numa barata.
— Que foi, ô, crackudo de merda? Desistiu do cigarro?
Qual é mesmo o nome da síndrome? Ek... Ek... Ekbom! Síndrome de Ekbom, ou parasitose ilusória: A crença de que há parasitas infestando um paciente ou sua casa, muito comum em usuários crônicos de estimulantes como o fodido narrador de vocês. Não há insetos ou protozoários em mim (ou talvez é isso o que eles querem que eu pense). De qualquer maneira, ouvi dizer que tem veneno de barata no cigarro agora, então controlo meu pânico e agarro unzinho.
—Tava pensando que eu devia parar com o tabaco. — Meu sorriso para ele espelhava o do demônio de mil cabeças. — Se você sabe que eu tô limpo, qual o intuito dessa dura? Só me encher o saco?
Mauro quase injetou piedade nos olhos ao entender o que estava por trás da minha pressa.
— Tem alguém aqui que quer te ver, Carlos. Ela pediu pra eu te trazer aqui.
Acendi o meu cigarro, ignorante em relação o que viria a seguir. O Detetive Santanna se levantou em direção à porta da sala, e percebi certa hesitação em seu andar.
— Sabe de uma coisa, cara? A função de vocês devia ser outra! Era pra vocês segurarem o tal lobo do Hobbes, e não se tornarem o... Ah, você não se importa, né?
Mauro olhou para baixo.
— A sua revolta morre num cachimbo, Carlos... — Suspirou. — É uma pena que tenha de ser assim.
A porta se fechou, deixando-me sozinho. Afanei rapidamente o maço de cigarros, torcendo para que os tais insetos fossem embora.

***

Meu Deus, a gente costumava transar!
Recosto-me num muro e deixo nele um “grafitti” pintado com o meu café da manhã. O que foi aquela porra que aconteceu?
Acendo um cigarro para combater o mau-hálito e continuo correndo. Desço as escadarias do metrô tropeçando nos próprios pés e esbarrando nas pessoas. Tenho de tomar cuidado... Com essa aparência doente, daqui a pouco um segurança me bota para fora.
A porta tinha se aberto novamente, minutos depois de o Mauro me deixar sozinho. Pelo portal de madeira adentrou mais um eco do meu passado, mas o tipo de eco inconveniente que se compara a um moleque cantando Gangrena Gasosa na missa. Era a Monique, minha antiga traficante. Num escritório da Divisão de Controle de Produtos Químicos!
— Oi, Carlos. Eu... Eu queria falar contigo.
Entro no metrô, tentando arrancar o rosto dela de dentro do meu cérebro. Espero estar na direção certa.
Ela colocou a mão sobre a minha, e a mão dela tremia também. Tinha um calor naquela mão, um calor que a Monique nunca irradiou. Um calor falso demais, gritante demais, como se aquela mão quisesse se passar por humana. Parecia uma mão humana... Talvez até fosse uma mão humana. Mas não era a mão da Monique que eu conhecia.
Meu Deus, a gente costumava transar. Às vezes eu não tinha a grana toda pra um fim de semana, e ela me fazia um desconto na dose. Depois a gente se deitava juntos e ela me emprestava uma seringa. A Monique nunca se aplicava.
Era o mais próximo que eu tinha de uma namorada, naquele tempo.
A própria ideia de sexo me parece grotesca agora. O toque da mão dela na minha já era desagradável demais, quase machucava... Imaginar um toque daqueles se acelerando e avolumando no meu pau parecia a descrição de um tipo de tortura. Minha pele formigava. Eu queria sair dali. Demorei mais de um minuto até responder:
— Você tá com essa gente agora?
— Eu estou preocupada com você, Carlos. — Ela não parecia me ouvir. Olhava bem no fundo do meu rosto, mas também não parecia me ver. Seus olhos estavam diferentes, eles pareciam abrigar um eclipse, com pupilas bipartidas que desenhavam meias-luas e estrelas. Eram lindos e frios, exatamente como o cosmos lá fora. E tão distantes quanto. — Eu sei que você está em outros produtos agora, eu sei que está usando outras coisas...
— Tenho usado uma coisa só, Monique. E não tem mais dela nas ruas, ao que parece! — Olho para o cigarro aceso. — Bem, você tem o seu plural aqui... Mas você não me respondeu, garota... Você tá com essa gente agora?
— Eu tenho medo de você voltar aos velhos hábitos, Carlos! Eu não vou ter mais como te proteger... Meu Deus, Carlos, você parece muito, muito fodido, meu bem... — Ela toca meu rosto com aquela mão desagradável, mais quente e mais macia do que uma mão deveria ser. — Você tá me ouvindo? Aconteça o que acontecer, não se piq...
— Eu tô te ouvindo, sua doida! Você que não parece estar ligando a mínima para o que eu tô falando!
Monique me olha assustada. Os olhos dela parecem carregar um bando de parasitas também, parasitas feitos de medo, diferentes daqueles que saturam o ar desse lugar, uma comunidade complexa de bactérias e mofo, e frio e desespero. Por trás dos olhos falsos de boneca, eu sei que existe alguém em quem eu posso confiar, sei que existe uma traficante legítima e honesta, que não se aliaria aos “canas” e não viria com esse discurso maternal pra cima de mim, apenas respeitaria o meu direito de foder minha própria saúde e arranjar minha própria vibração de consciência, e cobraria o pedágio para essa liberdade.
Sou eu que estou preocupado com ela agora. Fizeram alguma coisa com a menina. Eu tenho que me concentrar nessa conversa, nesse cigarro, e deixar o formigamento e a paranóia de lado.
Porém a última frase dela torna tudo isso impossível:
— É melhor correr para longe daqui! Eles vão te seguir, mas fuja. — Ela falava por detrás de uma muralha de insetos e estática. — Fuja e arranje um jeito pra acabar com essa merda, Carlos! E se der, me salve, OK?
Eu me levanto, e a menina esconde o rosto nas mãos. Já estou fora da sala há muito tempo, quando sua voz, séria e abafada me diz: “Próxima Estação, Botafogo.”

***

Sou recepcionado pela “Dona Velha”, uma vizinha que eu adorava imitar quando eu e a Monique fumávamos um. Ela está de camisola, jogando fora umas garrafas de vinho e umas embalagens de salmão. Comenta que eu perdi peso, que eu estou corado, que eu pareço saudável.
Velha retardada.
A porta do apartamento da Monique está trancada.
— E se der, me salve, OK?
Eu ainda ouço ela dizendo isso, como se ainda estivesse dentro da sala de interrogatório. Como é que eu poderia salvar você, Monique?
Sento-me ao lado da porta trancada, perspirando o suor de uma febre gelada. Começo a tossir, e tenho medo de vomitar novamente. Então me lembro que não comi nada ainda, então fico um pouco mais aliviado. Por um lado, é uma pena: Seria legal vomitar no carpete da Dona Velha. Encosto a cabeça para trás, tonto que estou, e fico num quase desmaio sem saber o que fazer.
Passa um tempo até que eu perceba que há um som repetitivo vindo de dentro do apartamento. É algo tão familiar, tão subliminar, que não me puxou a atenção nos primeiros cinco minutos que ali fiquei. Parece que antes de ela sair (ou o que quer que tenha acontecido à Monique que eu conhecia), a moça deixou o “Sgt. Pepper’s” girando no toca-discos, e o vinil ficou preso no “loop” infinito que encerra “A Day in the Life”. Ao meu paranóico ouvido de viciado, as vozes parecem dizer algo além de “blablabla”: Elas parecem dizer uma verdade que eu ignorei por anos e anos ouvindo Beatles.
As vozes repetem um endereço. Elas têm repetido esse endereço milhões e milhões de vezes desde 1967. E tem gente que achava que o Paul tava morto!
Um endereço... Talvez a menina não tenha esquecido o disco rodando à toa, no fim das contas.

***

— Cara, que mansão irada essa daqui, hein?
Cigarro.
O guarda-costas não fala muita coisa, apenas comenta que o patrão é “um homem próspero”. Tem um sotaque residual na voz desse cara. Algo que vem se diluindo no carioquês há gerações e gerações, mas que ainda aponta para cidadezinhas na Itália rural, onde algum “Don” da vida perdeu a virgindade antes de ir ganhar dinheiro em Chicago. “Um homem próspero”.
Existe uma coisa sobre fornecedores de narcóticos, a Monique me disse... Eles não se parecem com ninguém que você já tenha visto na vida. Talvez se você já esbarrou com um multimilionário faça alguma ideia de como são esses caras. Gosto refinado, unhas feitas, ternos impecáveis... Homens de classe, de fala pomposa e arrastada, que negociam ao telefone sem dar a menor pista a respeito do produto por trás daquelas cifras. Não era bem assim o homem que me esperava no escritório.
— Sente-se, senhor... Está tudo bem?
Arranco um pedaço de unha com os dentes e sento-me no estofado de couro importado. Piscinas não são tão macias. O homem à minha frente é franzino, cabeçudo, ligeiramente calvo e desengonçado. Seu tom de voz é constantemente apologético, como se fosse uma vergonha ser quem ele era.
— Você vem em nome da senhorita Alvarenga, certo? — O homenzinho também tem a mania de sorrir excessivamente. Todas as coisas nele fazem-me pensar em um frango que não foi abatido por ter crescido muito pouco.
— É, sim. A Monique está por aqui? Ela tinha dito que ia tentar me encontrar aqui nessa... Mansão, e tudo mais.
O Homem-Frango ri uma convulsão e abre uma gaveta em sua cômoda de móvel. Perto da gaveta, a estatueta de uma barata com uma maçã enterrada nas costas me faz ter calafrios.
— A senhorita Alvarenga tem trabalhado como infiltrada para nós, senhor Brás. Mas meu superior pediu que os convidados dela fossem tratados com todos os privilégios que ele daria aos seus próprios convidados. — Ele coloca um baú sobre a mesa, feito com madeira de verdade, adornado com prata e um “T” de couro.
— Seu superior? — A coceira nos braços não me deixa parar quieto um segundo. — Eu pensei que você fosse o fod... Pensei que o senhor desse as ordens por aqui.
Ele ri de novo. Acho que eu deveria ficar quieto pra ver se o palhaço para com essas risadas terríveis.
— Senhor Brás, senhor Brás... Todo mundo tem um superior em algum momento, e você sabe disso. Até mesmo um anarquista sem aspirações como você tem de se reportar a um mestre... — Ele empurra o baú na minha direção. Algo parece zumbir ali dentro. — Não é mesmo?
— Você está falando de crack? Tem crack nessa caixa? — Minhas mãos voam para o tampo do baú, involuntariamente. Percebo que, nesse momento, elas não tremem mais.
— Infelizmente, eu diria que não, senhor Brás. Sinto muito. — Ele realmente parece sentir. — Ninguém tem crack nessa cidade, não até que meu superior ache que é a hora certa. Mas há algo muito melhor nessa caixa, você verá... — Ele dá um sorriso tímido e desvia o olhar, como um menino envergonhado. — Nostalgicamente bom, eu creio.
Repousando sobre o veludo vermelho que forra o interior do baú está uma seringa, adornada com um laço carinhosamente feito com um torniquete de borracha. Algumas pessoas entendem de verdade do ofício do doentio.
Confesso que ver a Monique mais cedo, mesmo com a “bad trip” dos insetos e a preocupação superficial quanto ao que tinha lhe ocorrido, me fez lembrar com carinho da época dos picos. Querendo ou não, o “ritual da junk” tinha certa classe, e a transcendência do baque era sedutora como uma súcubo opioide. Além disso, dessa vez eram as pedras que tinham desaparecido, e o “tigre branco” rondava as ruas do Rio de Janeiro, soberano. Havia mais razões para pegar a seringa (ela estava morna) do que para recusar. E tinha a questão de que eu estava conduzindo uma investigação ali, e precisava entrar no personagem.
— Faz muito tempo, meu amigo. Muito, muito, muito tempo.
O Homem-Frango sorri frente ao meu comentário, e pela primeira vez vejo uma nota em seu sorriso que condiz com a descrição de um fornecedor. Ninguém nunca foi tão altivo.
— O senhor quer uma enfermeira, senhor Brás? Qualquer coisa, você sabe, para deixá-lo mais confortável, — ele falava em câmera lenta, enquanto eu apertava a borracha em torno do braço esquerdo, e observava o emergir da desejosa veia, que subia de seu refúgio de pele com os sedentos lábios abertos. Se eu já não via motivos para vacilar até aqui, foram suas últimas palavras que impulsionaram o êmbolo. — antes de conhecer meu empregador.
O baque me agracia os músculos com um relaxamento antinatural. Pendulo para trás e abro a boca, algo pastoso a dançar na minha língua com gosto de cigarro velho, os olhos semicerrando-se para enxergar o paraíso circunscrito nas pálpebras. Porra, eu tô chapado! Puta que pariu, esse troço é forte. Todos os insetos do meu corpo voltam a ser meros tendões e músculos e pele, esparramados sobre os ossos, que nunca fizeram tanto sentido assim. Quando olho novamente para o Homem-Frango, vejo que ele está mudado. Vejo que é seu empregador que está ali.
— Oh, se Nyarlathotep soubesse o quanto isso é mais fácil... — Ele sorri, com os dentes que antes eram do Frango, mas que agora veiculam uma malícia que nunca existiu em nenhum homem biológico. — Muito mais eficaz do que invadir os sonhos de vocês, e a produção é toda em larga escala... Às vezes eu adoro os velhos deuses.
Seus olhos também carregam dois eclipses, mas percebo agora que as estrelas são outra coisa que não reflexos do indiferente cosmos... São as pontas de seus apêndices, dos fios com os quais ele move as marionetes. São as ventosas na ponta dos tentáculos, a transparecer pelo vácuo dos olhos, e eles se prolongam para fora, etéreos, abandonando a nuca do fornecedor e indo reunir-se a outros ramos de tentáculos que conduzem, finalmente, a ELE.
Todos os traficantes do mundo convergem para a grande entidade que agora me encara. Seus tentáculos serpenteiam sobre o mundo mortal, lançando sombras invisíveis sobre as grandes cidades, desembocando em fantoches vendendo morfina em antros de Bombahim e do Marrocos, nos negociadores de haxixe de Amsterdã, movendo as pautas nas reuniões em cartéis da América do Sul, e veiculando o mandarim na língua dos Barões de Ópio da China. Todos aqueles homens e mulheres altos e sorridentes são, na verdade, os discretos avatares d’O Traficante que, colossal e infinito em sua imensa sala extraplanar de estrelas mortas, move seus cinzentos e pegajosos apêndices, falando os mesmos evangelhos em todas as línguas terrenas.
Sua pele é uma amálgama de escotomas vazios e abstinência e sinapses rotas, e por suas veias correm as cifras de todo o dinheiro do mundo, a seiva do capital e da luxúria, que nutre seus estranhos órgãos que tudo sintetizam, que ovipõem, que trituram e enxergam a alma e a carne de outros iguais a mim com suas rádulas calcárias e ancestrais. Os olhos cegos d’O Traficante captam os versículos do PCP, os Upanishads do Ecstasy e do Ácido Lisérgico, dão-nos a verdade vazia do THC e da codeína, e as fórmulas e os ritos xamânicos de amareladas gotas-totem-ketamina.
Sua gosmenta imensidão de cinza e brasa, sua venenosa pele gotejante sobre a pedra limosa onde repousa desde que éramos os mais simples primatas a andar sobre a Terra, e suas veias podres e roxas deveriam me aterrorizar e enlouquecer até que eu arrancasse os olhos, e os nervos por trás dos olhos, e a memória do córtex por trás dos nervos. Mas são exatamente sua imensidão e imponência que me impedem de encará-lo com qualquer coisa mais que não reverência e deslumbramento.
— Por que tirar o crack das ruas, mestre?
— Para gerar o desespero nos exércitos, e ver como reagem as almas à falta de suas estalantes hóstias. Para criar uma demanda que impulsionará um produto novo que chegará às ruas. Para chegar até você, Carlos Brás. — O homem à minha frente sorri, e sorriem diversos rostos de diversos homens e mulheres ao redor do globo, negociando com pessoas como eu, nos termos da única voz por trás de todos eles. — Há inúmeras respostas para isso. Você tem mais uma pergunta. Eu lhe permito fazê-la.
Eu tremo novamente, e agora sim eu percebo o medo que essa coisa me traz.
— O que eu posso fazer pela causa?
— Você é um rapaz inteligente. Deverá se purificar, e se deixar ser o profeta do novo produto. Temos enfrentado concorrência nas ruas. Há a demanda por vendedores leais.
A heroína deixa a respiração líquida e a fala confusa. Fico feliz de esse ser meu último pico, mas não consigo veicular essa gratidão de maneira coerente. Toda a cadeia produtiva, toda a política de guerra às drogas, o DCPQ, os traficantes, o Mauro, os viciados que circulam as ruas assaltando, pedindo, arranjando meios para comprar seus escapes, as crianças de rua cheirando cola... Os executivos das indústrias do tabaco e da bebida, os contrabandistas de armas e pessoas... Todos temos o toque, o estigma d’O Traficante, e operamos secretamente sob seus auspícios. Mesmo a Mo...
— Por que a Monique pediu para que eu a salvasse?
O Homem-Frango abre sua boca e uma língua pálida, branca, saudável como um peixe morto se projeta para fora. Demoro a perceber que é um tentáculo, e que é através dele que fluem as palavras:
— De que outra forma você viria a nós tão rápido, Carlos Brás? — O tentáculo se aproxima do meu rosto, e eu quase acho isso engraçado. — Não se preocupe, sua amiga passou pelo que é necessário para ser leal à causa, e agora ela está bem. E em breve, Carlos Brás, você também vai estar.
Um vapor escuro deixa a ponta do tentáculo em um jato forte, e eu caio para trás, com a cadeira e tudo.

***

E então, eu acordei nesse lugar. A pedra nas paredes e no chão parece a mesma que compõe o lar de origem d’O Traficante, e o aroma pungente de laboratório também é o mesmo que exalava de dentro do Homem-Frango quando eu tive minha visão. Há lágrimas nos meus olhos quando acordo, que temo serem de compreensão e medo.
O Traficante deposita ovos com imensos bebês que nascem mortos. Seus âmnios são mais antigos do que o manto terrestre, e suas conchas têm fragmentos de asteróides em sua composição. Assim que acordam, os bebês precisam se nutrir de algo vivo, de algo insano que se debata e que implore, de algo que sangre contra a vontade e que chore ao ver suas partes sendo decepadas por seus apetites vorazes. Assim que acordam, eles precisam devorar algo com consciência, e é isso que os faz voltar à vida e construir uma crisálida, de onde emergirão indistinguíveis daquilo que devoraram.
Dizem que da crisálida dos bebês é possível extrair um composto viscoso, a droga mais potente que já existiu, contendo em um só baque toda a paz, a iluminação e o controle que uma pessoa possa desejar. Esse composto é metabolizado a partir do hospedeiro devorado, pois sempre esteve em seu cerne até a hora da morte. Chamam essa droga de “Nirvana”.
Quando a silhueta viscosa se ergue das sombras do outro aposento, eu não fecho meus olhos. Quando ela avança para cima de mim, brandindo as espículas no ar e chorando um choro vagamente humano, eu não tento me desvencilhar das correntes que me prendem à bandeja prateada. Apenas penso no gosmento Nirvana que me compõe, e que continuará aqui até que meu encéfalo seja dilacerado pela criatura que precisa de mim para viver. Um último cigarro não ia mal, mas não preciso dele.
Sempre foi fácil arranjar crack no Rio de Janeiro, e isso só se tornou uma mentira nesse inverno de 1997. Mas antes que chegue a primavera, um novo produto alcançará as ruas. Se você olhar com atenção, verá que as mãos do homem que vende esse produto se parecerão com as minhas.

Autor: Bruno de Sousa Moraes

Baita conto não acham? Com alguns elementos lovecraftianos bem interessantes. Confiram também a página do livro do cara, se chama Monarca Azul

Esse é um dos contos que concorreu no concurso de contos de terror do blog.

4 comentários:

Matt Kist disse...

Caraca...
Que produto esse Bruno precisou usar para escrever isso tudo?

Miya Seat Lee disse...

Caramba, grande mesmo esse conto! Mas valeu a pena tê-lo lido.
Conto muito bem escrito, chega até a causar estranheza... Gostei muito de dar uma de flaneur e circular pelos redutos lado B do Rio.

alex5432 disse...

Okay, um bom conto, mas horrível pelo tema. Sério não tem nada de terror.

Bom nem sei dizer se um conto foi, foi algo como uma incrível história, o cara devia escrever um livro.

Bruno Moraes disse...

Opa! Que surpresa três comments no meu conto! :D

Matt Kist, não uso drogas pesadas, fique despreocupado. Nenhum produto além de cafeína foi utilizado para escrever esse conto, hehehe!

Miya, muito grato pelos elogios, fico feliz demais em lê-los. O RJ tem umas quebradas muito loucas mesmo, hehehe.

Alex, para fazer terror eu acabo não fugindo muito da influência do Lovecraft, que tem esse estilo mais arrastado e a ver com "momentum" psicológico do que horror-gore em si. Mas concordo que o conto, como um todo, tem bem menos horror do que o esperado para um concurso de, bem... Horror! Acho que me empolguei pela proposta do Nerd de pintar um protagonista com uma vida ordinária que se depara pontualmente com o sobrenatural na forma de uma criatura inexplicável. E se quiser conferir, eu escrevi um livro pouco antes de parir "O Novo Produto". O título é "A Chave do Monarca Azul", e segue mais ou menos nessa linha (com menos substâncias químicas, porém :P) www.catarse.me/LivroMonarcaAzul