[Conto] Não acredite no medo

O farol da moto do vigilante da pequena cidade de Aldrovanda vagava pelas ruas observando minuciosamente qualquer perturbação. Todas as casas sob vigia, quase simultânea, do olheiro ubíquo. Kevin percorre o frio e calmo labirinto urbano, na companhia apenas de sua moto.
Responsável pela segurança da cidade à noite, para em um café vinte e quatro horas em meio à madrugada gélida. Pede a Carol, a atendente, o de sempre. Ela lhe trás um café com leite e um cachorro quente.
Após o café, o vigilante recoloca o capacete e pilota em direção ao próximo bairro. Acelera por algumas quadras vazias, certo momento ouve pelas redondezas um barulho demasiado alto, ele segue até o local e nota que se trata de uma festa adolescente. Ele estaciona do outro lado da rua e caminha em direção da festa, um amontoado de jovens dançam no jardim ao som de uma musica estrangeira.
- Vocês poderiam diminuir o volume? – Pergunta ao rapaz sentado na calçada. Ele parece ignorar. Então Kevin toca seu ombro e grita. – Quem mora ai?
- Sou eu. – Emerge entre os que dançam sob a grama um adolescente vestindo uma camisa sem mangas mesmo ante o frio assolador. – Algum problema?
- Onde estão seus pais?
- Viajaram! – Responde, o cheiro do álcool em sua boca espalha-se, substituindo o oxigênio, como um spray de torpe, contra o nariz do motoqueiro, que recua. – Por que esta aqui
- Você precisa baixar a musica. Está muito tarde! – Rapidamente o rapaz entra na casa, ouve-se o som diminuir até tornasse um, ritmado, sussurro a distancia, abafado pelas paredes da casa. – Obrigado. – Afastas-se Kevin observando a festa continuar com o som reduzido.
De volta à ronda, passa as próximas duas horas ziguezagueando entre as ruas dos bairros seguintes. Faltando apenas uma ultima patrulha antes de voltar para casa, Kevin abastece a moto em um posto de gasolina próximo ao café, lugar que costuma ser o seu marco inicial entre uma patrulha e outra.
Ele passa pela rua da festa, porém ele notas as luzes da casa já apagadas e no jardim dançam, ao vento, copos plásticos vazios. Na esquina seguinte, nota, ao longe, uma mulher a correr, brandindo o vestido com seus movimentos exaltados, em meio ao silencio negro dos céus. Mesmo distante, percebe-se sua agonia, seu disparar eufórico adentrando a, solitária, noite nublada.
O motoqueiro acelera para alcançá-la, e a perde de vista no momento que ela dobra a esquina. Chegando lá, há vê caída na calçada, duas casas adiante, debatendo-se, em baixo de uma arvore, que sacode bruscamente por um instante, caindo assim, lentamente, centenas de folhas.
Ele desce da moto com a intenção de prestar ajuda o corpo em espasmos grotescos, mas ao se aproximar, a mulher grita, num ultimo berro cessando a convulsão. Kevin repara que a familiar garota está morta. Rosto pálido, olhos ainda arregalados, lábios roxos, talhos profundos no busto e folhas caídas da arvore repousadas no sangue ensopado em seu vestido. Kevin encara incrédulo, o cadáver da mulher.
Desesperado, olha em sua volta a procura do assassino, teme pela sua vida. Imagina-se estendido no chão, decide de imediato, fugir. Ouve-se um sibilo ensurdecedor, como um urro animalesco, O medo lhe preenche os ossos, imóvel, Kevin vê surgir em sua frente um ser mais negro que a escuridão, Uma presença soberana preenche o meio. Com onipotentes, rubros, olhos subjugantes deixando-o a mercê de sua aniquiladora existência. Um pequeno silencio toma conta.
- Covarde. – Diz uma grave voz 
sarcástica. – Já estava indo embora, antes de entrar para a festa. Estou a te esperar aqui dentro. Caminhe.
A sombra se desfaz junto com os olhos carmesin. Kevin não consegue se mover ou falar, apenas sentir o medo pulsar em suas veias, a respiração quase negando-se a acontecer. Seu pé, arrasta-se pelo asfalto sem ser comandado, o outro força para ergue-se e dar um passo. Sem o controle do próprio corpo, o pânico lhe assola ainda mais. Suas forças se esgotam tentando parar de mover-se, em vão. Continua a avançar ladeira a cima, nota então, que está indo, a força, para a casa onde aconteceu a festa. A cada passo o terror aumenta, o silencio lhe tortura. Após alguns minutos, Kevin está de frente a casa, vê pelas janelas uma fraca luz acessa como a chama de uma vela iluminando o local. Passa lentamente pelo Jardim, atravessando o gramado enquanto lágrimas escorrem pelas bochechas e pingam no caminho de concreto.
- Entre. – Diz uma voz do outro lado da porta. A mão de Kevin se ergue como a de uma marionete e pega no trinco gelado. Ele fecha os olhos, apertando com força. E adentra o local.
Ainda de olhos fechados, Kevin ouve a porta bater atrás de si. Ouve o salivar de uma criatura que rosna ao respirar. O cheiro de lama lhe revira o estômago.
- Abra os olhos e veja. – Kevin fica desnorteado, tonto. E quando abre os olhos, sua cabeça gira zonza passando a vista pelo local. O que vê, é um homem de terno, um homem velho, porém elegante, e sem braços. Dos seus ombros saem correntes ensanguentadas, a do lado esquerdo arrasta pelo chão e se prende a uma coleira de couro no pescoço de uma mulher sem roupas sentada no chão de madeira. A pele descorada da mulher destaca o sangue acerejado escorrendo do seu rosto, pelo seu corpo, o sangue desliza por cima de uma serie de cicatrizes em seu ombro, marcas disformes encanecidas de sentimentos distantes. Ela segura um castiçal com cinco velas que iluminam o local. Do lado direito do velho, a corrente arrasta pelo chão, e leva à criatura mais grotesca, sua visão corrompe o olhar. Kevin vê, algo semelhante a um rato de dois metros de altura, sem pelos, com bolhas vermelhas de sangue saindo de sua pele, algumas estouradas, outras não. A criatura usa os braços para ergue-se em um monumento de corpos, Kevin reconhece as cabeças de alguns adolescentes que viu dançando no jardim mais cedo. Todos os membros de cada um foram arrancados e colocados na pilha de forma embelezar a escultura de corpos. O monstro dá a volta na obra e olha para Kevin com sua cara enrugada, a pele rosa e boca, com dentes brutais, que escorrem sangue.
- Quem são vocês? – Kevin pergunta anestesiado pelo medo. Quase em transe, por pouco não desmaiando.
- O medo. O criador. O artista. E agora preciso de você, com a cabeça bem ali. – O velho fala, e a mulher aponta para o monumento. Como um conjunto.
A criatura avança em direção de Kevin, que ouve o som do metal das correntes arrastar pelo chão, o desespero aumenta. Toma conta novamente do seu corpo, e vira-se de costas, tentando abrir a porta.
As cinco velas se apagam, e o que ouve-se, é apenas um grito.

Autor: Jonathan Lucas

Esse é um dos contos que concorreu no concurso de contos de terror do blog

Comentários

Matt Kist disse…
Olá só! Gostei!
Que linguagem rebuscada hein Jonathan!
Kevin era realmente um olheiro ubíquo. hehehehe.
Parabéns.
O conto que eu escrevi para o NerdMaldito também tem mulher pelada e uma linguagem esquisita, hehehe.
Ficou bem redondinho e bem escrito, parabéns.
Abraços
Miya Seat Lee disse…
Muito bom o conto! Boa estória, desenvolvimento muito bom, muito sangue...
Parabéns!!!
Anônimo disse…
Só eu que lembrei do DollMaker de Alice Madness Returns?