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sexta-feira, 3 de julho de 2015

[Conto] Não acredite no medo

O farol da moto do vigilante da pequena cidade de Aldrovanda vagava pelas ruas observando minuciosamente qualquer perturbação. Todas as casas sob vigia, quase simultânea, do olheiro ubíquo. Kevin percorre o frio e calmo labirinto urbano, na companhia apenas de sua moto.
Responsável pela segurança da cidade à noite, para em um café vinte e quatro horas em meio à madrugada gélida. Pede a Carol, a atendente, o de sempre. Ela lhe trás um café com leite e um cachorro quente.
Após o café, o vigilante recoloca o capacete e pilota em direção ao próximo bairro. Acelera por algumas quadras vazias, certo momento ouve pelas redondezas um barulho demasiado alto, ele segue até o local e nota que se trata de uma festa adolescente. Ele estaciona do outro lado da rua e caminha em direção da festa, um amontoado de jovens dançam no jardim ao som de uma musica estrangeira.
- Vocês poderiam diminuir o volume? – Pergunta ao rapaz sentado na calçada. Ele parece ignorar. Então Kevin toca seu ombro e grita. – Quem mora ai?
- Sou eu. – Emerge entre os que dançam sob a grama um adolescente vestindo uma camisa sem mangas mesmo ante o frio assolador. – Algum problema?
- Onde estão seus pais?
- Viajaram! – Responde, o cheiro do álcool em sua boca espalha-se, substituindo o oxigênio, como um spray de torpe, contra o nariz do motoqueiro, que recua. – Por que esta aqui
- Você precisa baixar a musica. Está muito tarde! – Rapidamente o rapaz entra na casa, ouve-se o som diminuir até tornasse um, ritmado, sussurro a distancia, abafado pelas paredes da casa. – Obrigado. – Afastas-se Kevin observando a festa continuar com o som reduzido.
De volta à ronda, passa as próximas duas horas ziguezagueando entre as ruas dos bairros seguintes. Faltando apenas uma ultima patrulha antes de voltar para casa, Kevin abastece a moto em um posto de gasolina próximo ao café, lugar que costuma ser o seu marco inicial entre uma patrulha e outra.
Ele passa pela rua da festa, porém ele notas as luzes da casa já apagadas e no jardim dançam, ao vento, copos plásticos vazios. Na esquina seguinte, nota, ao longe, uma mulher a correr, brandindo o vestido com seus movimentos exaltados, em meio ao silencio negro dos céus. Mesmo distante, percebe-se sua agonia, seu disparar eufórico adentrando a, solitária, noite nublada.
O motoqueiro acelera para alcançá-la, e a perde de vista no momento que ela dobra a esquina. Chegando lá, há vê caída na calçada, duas casas adiante, debatendo-se, em baixo de uma arvore, que sacode bruscamente por um instante, caindo assim, lentamente, centenas de folhas.
Ele desce da moto com a intenção de prestar ajuda o corpo em espasmos grotescos, mas ao se aproximar, a mulher grita, num ultimo berro cessando a convulsão. Kevin repara que a familiar garota está morta. Rosto pálido, olhos ainda arregalados, lábios roxos, talhos profundos no busto e folhas caídas da arvore repousadas no sangue ensopado em seu vestido. Kevin encara incrédulo, o cadáver da mulher.
Desesperado, olha em sua volta a procura do assassino, teme pela sua vida. Imagina-se estendido no chão, decide de imediato, fugir. Ouve-se um sibilo ensurdecedor, como um urro animalesco, O medo lhe preenche os ossos, imóvel, Kevin vê surgir em sua frente um ser mais negro que a escuridão, Uma presença soberana preenche o meio. Com onipotentes, rubros, olhos subjugantes deixando-o a mercê de sua aniquiladora existência. Um pequeno silencio toma conta.
- Covarde. – Diz uma grave voz 
sarcástica. – Já estava indo embora, antes de entrar para a festa. Estou a te esperar aqui dentro. Caminhe.
A sombra se desfaz junto com os olhos carmesin. Kevin não consegue se mover ou falar, apenas sentir o medo pulsar em suas veias, a respiração quase negando-se a acontecer. Seu pé, arrasta-se pelo asfalto sem ser comandado, o outro força para ergue-se e dar um passo. Sem o controle do próprio corpo, o pânico lhe assola ainda mais. Suas forças se esgotam tentando parar de mover-se, em vão. Continua a avançar ladeira a cima, nota então, que está indo, a força, para a casa onde aconteceu a festa. A cada passo o terror aumenta, o silencio lhe tortura. Após alguns minutos, Kevin está de frente a casa, vê pelas janelas uma fraca luz acessa como a chama de uma vela iluminando o local. Passa lentamente pelo Jardim, atravessando o gramado enquanto lágrimas escorrem pelas bochechas e pingam no caminho de concreto.
- Entre. – Diz uma voz do outro lado da porta. A mão de Kevin se ergue como a de uma marionete e pega no trinco gelado. Ele fecha os olhos, apertando com força. E adentra o local.
Ainda de olhos fechados, Kevin ouve a porta bater atrás de si. Ouve o salivar de uma criatura que rosna ao respirar. O cheiro de lama lhe revira o estômago.
- Abra os olhos e veja. – Kevin fica desnorteado, tonto. E quando abre os olhos, sua cabeça gira zonza passando a vista pelo local. O que vê, é um homem de terno, um homem velho, porém elegante, e sem braços. Dos seus ombros saem correntes ensanguentadas, a do lado esquerdo arrasta pelo chão e se prende a uma coleira de couro no pescoço de uma mulher sem roupas sentada no chão de madeira. A pele descorada da mulher destaca o sangue acerejado escorrendo do seu rosto, pelo seu corpo, o sangue desliza por cima de uma serie de cicatrizes em seu ombro, marcas disformes encanecidas de sentimentos distantes. Ela segura um castiçal com cinco velas que iluminam o local. Do lado direito do velho, a corrente arrasta pelo chão, e leva à criatura mais grotesca, sua visão corrompe o olhar. Kevin vê, algo semelhante a um rato de dois metros de altura, sem pelos, com bolhas vermelhas de sangue saindo de sua pele, algumas estouradas, outras não. A criatura usa os braços para ergue-se em um monumento de corpos, Kevin reconhece as cabeças de alguns adolescentes que viu dançando no jardim mais cedo. Todos os membros de cada um foram arrancados e colocados na pilha de forma embelezar a escultura de corpos. O monstro dá a volta na obra e olha para Kevin com sua cara enrugada, a pele rosa e boca, com dentes brutais, que escorrem sangue.
- Quem são vocês? – Kevin pergunta anestesiado pelo medo. Quase em transe, por pouco não desmaiando.
- O medo. O criador. O artista. E agora preciso de você, com a cabeça bem ali. – O velho fala, e a mulher aponta para o monumento. Como um conjunto.
A criatura avança em direção de Kevin, que ouve o som do metal das correntes arrastar pelo chão, o desespero aumenta. Toma conta novamente do seu corpo, e vira-se de costas, tentando abrir a porta.
As cinco velas se apagam, e o que ouve-se, é apenas um grito.

Autor: Jonathan Lucas

Esse é um dos contos que concorreu no concurso de contos de terror do blog

3 comentários:

Matt Kist disse...

Olá só! Gostei!
Que linguagem rebuscada hein Jonathan!
Kevin era realmente um olheiro ubíquo. hehehehe.
Parabéns.
O conto que eu escrevi para o NerdMaldito também tem mulher pelada e uma linguagem esquisita, hehehe.
Ficou bem redondinho e bem escrito, parabéns.
Abraços

Miya Seat Lee disse...

Muito bom o conto! Boa estória, desenvolvimento muito bom, muito sangue...
Parabéns!!!

alex5432 disse...

Só eu que lembrei do DollMaker de Alice Madness Returns?