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quarta-feira, 22 de julho de 2015

[Conto] Férias de Inverno

Gosto dessa cidade, sinto que aqui posso fugir de tudo que me estressa. O ar bucólico pode irritar algumas pessoas, mas eu me sinto bem aqui. As ruas de pedra, os casarões antigos, o mar agitado de inverno que banha o centro da cidade e as pessoas simples e despreocupadas me transmitem paz. Venho para cá uma ou duas vezes ao ano apenas, meus avós moram aqui desde que nasceram e meus pais também, contudo, procuraram cidades grandes e agitadas para morarem logo após se casarem, foi então que eu nasci.
 
Não sou adulto, tão pouco experiente, tenho apenas quatorze anos e muito embora tenha um carinho especial por esta cidade, estou aliviado em voltar para a minha vida cotidiana. A razão em querer sair de um lugar que me fez tão bem foi um acontecimento na semana passada que vou relatar mais adiante.
 
Meus avós são pessoas simples, não possuem televisão a cabo ou qualquer outra distração semelhante. Meu pai não permitiu que eu trouxesse meu videogame e nem meus livros, disse que eu deveria aproveitar o ar livre e brincar na rua, as vezes penso que ele nem ao menos sabe a minha idade, mas não discuto. Tudo começou na tarde do dia seis de julho, uma quinta-feira, as ruas pouco movimentadas, comércio pacato. Saí a pé e pensei em procurar alguns amigos que fiz quando mais novo, mas meus pés me levaram a outros lugares. Por um momento sentei em um banco na rua de frente para o mar, o vento gelado cortava a minha pele, mas era bom. Não demorou muito para uma serração tomar conta do cenário e o mar se perdeu numa neblina espessa, pus meu capuz e fiquei ali por mais uns segundos, percebi que ia me molhar mais e fui para debaixo de uma proteção em um casarão antigo, fiquei pensando em voltar para casa ou esperar que as coisas melhorassem, infeliz escolha, pois a serração deu lugar a uma chuva fina, daquelas que te molham inteiro. Avancei mais uns metros e me deparei com a biblioteca municipal e logo pensei: “ótimo! Espero a chuva passar e ainda posso levar algum livro interessante para casa!”.
 
Entrei na biblioteca e a velha bibliotecária, ou quem quer que fosse não me cumprimentou apenas se deu o trabalho de erguer os olhos por cima dos óculos e voltou a sua atenção para um livro qualquer. O local era realmente majestoso, embora simples. Parecia que eu havia entrado em um túnel do tempo, o piso e as prateleiras de madeira, móveis provençais e uma infinidade de livros exóticos, não aqueles que se encontra em qualquer biblioteca pública como livros educativos e apostilas de estudos, aqui havia livros realmente antigos. Além de mim e a velha senhora não havia mais ninguém, pude me espreitar pelos corredores pouco iluminados deslizando meus dedos pelos livros empoeirados. A velha senhora então veio até mim e perguntou se eu procurava algo especifico, eu disse que não, expliquei que estava esperando a chuva passar, ela então retrucou dizendo que a biblioteca iria mudar para um prédio mais novo e que eu era a primeira pessoa a entrar ali em semanas, dei um sorriso amarelo para ela e me voltei para os livros novamente. Fiquei perambulando ali por uns minutos quando um livro em particular me chamou a atenção, estava no alto e sinceramente não sei o porquê ele se fez notar, talvez por que destoava dos demais na prateleira em que se encontrava, olhei para a velha senhora e não a achei então peguei uma cadeira próxima e com um pouco de esforço alcancei o tal livro. Era de fato muito antigo, dava de perceber que ele foi remendado várias vezes, as páginas quase se esfarelavam em minhas mãos, o título era: “Sobre Sociedades Iniciáticas” e no rodapé havia uma data: “1921”. É claro que logo isso me chamou a atenção e iria levá-lo para casa, mas como a chuva continuava a surrar as janelas da biblioteca permaneci em uma de suas confortáveis poltronas e li um capítulo inteiro antes de ser bruscamente interrompido pela bibliotecária, ela tirou o livro de minhas mãos e com um tom de espanto disse:
 
- Onde conseguiu esse livro?
- Peguei na prateleira de cima. – Eu disse e apontei o local.
- Mentira! Esse livro faz parte da coleção restrita, você não pode ter pegado dali. Escolha outro para ler!
 
No momento eu fiquei muito enfurecido e geralmente quando isso acontece eu transpareço, pois fico muito vermelho, mas não poderia levantar a voz para uma velha senhora, ainda mais na biblioteca pública, o que meus pais fariam se chegasse uma reclamação de algo do gênero em casa? Não queria nem pensar nisso. Enquanto me acalmava acompanhei o destino do livro e percebi que ela não o guardou em um lugar especial ou algo assim, ela simplesmente o colocou em uma sacola plástica e depois dentro de uma bolsa, como se fosse leva-lo para casa! Isso me indignou ainda mais, pois como pode ela tirar o livro de mim com a desculpa de que era um livro especial e depois se apoderar dele? Enfim, tenho apenas quatorze anos não ia adiantar de nada comprar essa briga.
 
Procurei mais uns livros e me contentei com uma coletânea de Júlio Verne, a chuva havia diminuído um pouco, então fui para casa a passos largos. Já pela noite tentei ler o livro que havia pegado, mas não me saia da cabeça aquela obra antiga e todos os segredos que ela podia me revelar, essa sensação estranha perdurou até o dia seguinte, na sexta-feira, e sumiu.
 
No sábado pela manhã, Pedro, um colega, me chamou para ir a casa dele jogar alguns jogos, contei a ele o ocorrido e ele me disse que a velha bibliotecária se chamava Glória e era meio maluca mesmo. Ele me mostrou em que rua ela morava, ficava relativamente próxima a casa dele. A mãe do menino me convidou para almoçar com eles, mas não podia sem avisar meus pais, então resolvi voltar para casa. Já pela tarde eu peguei a velha bicicleta de meu pai e voltei até a casa de Pedro e juntos planejamos algo mirabolante. Pedro ficara tão interessado no velho livro quanto eu, então resolvemos pegá-lo de volta, afinal os livros da biblioteca são públicos, não são? Mas para isso não bastava apenas pedir a bibliotecária, teríamos que invadir sua casa. Pedro tratou de colocar os tênis e partimos até o final da rua.
 
A casa da bibliotecária era simples, tinha uma arquitetura meio alemã ou holandesa, tanto faz, e era cercada de árvores e um quintal vasto. A rua em que se encontrava não era muito movimentada ainda mais em um sábado à tarde, por isso colocamos as bicicletas em meio à cerca viva na lateral da casa. Pedro disse que todo sábado pela tarde ela saia para se encontrar com outras senhoras, mas que não sabia a hora, então sentamos na calçada e ficamos esperando por muito tempo, jogamos todo tipo de conversa fora e parecia que o tempo se arrastava, por fim depois de quase duas horas esperando a velha bibliotecária resolveu sair, quando estava quase fora do quintal de casa ela voltou para se certificar que a porta estava trancada, percebi então que a bolsa que carregava era diferente daquela que a vi colocando o livro, então havia uma grande chance de estar dentro da casa de fato.
 
Entramos no quintal e percebemos que não havia como entrar na casa, tudo estava devidamente trancado e depois de algumas voltas Pedro apontou para uma pequena janela basculante na parte de trás da casa. Nós dois somos magros o suficientes para passar por aquela janela, mas ele resolveu que eu deveria ir primeiro, com sua ajuda eu subi na janela e consegui entrar, andei um pouco e abri a janela da cozinha para que ele pudesse pular para dentro. A casa em si não me surpreendeu, era bem parecida com a casa de meus avós, acho que depois de certa idade a decoração da casa passa a ser meio padrão. Não perdemos muito tempo e reviramos o que pudemos na parte debaixo do imóvel, mas havia ainda a parte de cima e Pedro se recusou a subir, disse que preferia ficar perto da porta vigiando caso ela voltasse, em minha empolgação eu concordei e subi sozinho. A escada era de madeira e estreita, cada degrau rangia de forma diferente, não tinha como não fazer barulho, na parte de cima o cheiro do piso de madeira encerado preencheu meus pulmões, me deparei com um corredor escuro e comprido, havia quadros nas paredes, fotografias de famílias, uma delas pude reconhecer a senhora Glória, mas onde estaria sua família agora? Entrei em cada um dos três quartos e não achei nada, mas havia ainda uma quarta porta que me surpreendeu ao final do corredor, uma salinha pequena com uma janela minúscula, era uma espécie de biblioteca particular, olhei pela janelinha para me dar conta de onde estava e vi a rua e o quintal, estava bem na parte da frente da casa, a pouca luz que entrava na salinha não ajudava e então acendi uma luminária que ficava ao lado de uma pequena mesinha de canto e ao iluminar aquele pequeno cômodo eu achei o bendito livro, em cima da mesinha, dentro da sacola plástica, não acreditava que estava com ele em mãos, sentei rapidamente no chão e comecei a folhear suas páginas antigas, por alguns segundos esqueci-me de Pedro e da missão, mas não tardei a voltar a realidade, pois um forte cheiro de podre substituiu rapidamente o cheiro da madeira e minha expressão mudou rapidamente, levantei e quando fui sair da salinha percebi que havia alguma coisa ali, na velocidade de meus pensamentos imaginei um rato morto ou um gato, voltei meus olhos para a sombra do canto esquerdo do pequeno cômodo onde a luz da luminária e nem da janela alcançavam, parecia repelir todo tipo de luz, eu podia ver a poeira pairando no ar, mas não podia penetrar minha visão naquela escuridão.
 
Ouvi Pedro me chamar algumas vezes na escada, mas não podia respondê-lo, pois isso assustaria a coisa que se escondia na sombra, me aproximei com cuidado e juro que na minha cabeça deveria ser um gato ou um rato acuado, mas não, a criatura se esgueirou até mim, como se quisesse fazer contato e o que meus olhos contemplaram foi o horror de um corpo em decomposição, não era animal, nem humano, era repugnante e causava asco. O ser tinha o tamanho de um gato como eu pensei, mas era apenas uma carcaça de gordura com alguns pelos escuros saindo de uma extremidade e havia uma cauda sem pelos, a criatura tinha olhos como de um sapo, grandes e fixos em mim, ela rastejava, mas tinha patas, moles como se não pudesse as mexer, o fedor era indescritível, quanto mais se aproximava mais exalava e não me contive e vomitei ali mesmo, ouvi então Pedro me dizer que viu a velha bibliotecária voltando no começo da rua junto com mais uma senhora. Eu permaneci imóvel com medo de me mexer e a coisa pular em mim, foi então que Pedro subiu e correndo veio até a minha direção, quando entrou na salinha e tocou as minhas costas a criatura pulou nele num piscar de olhos e o atacou com sua boca escondida embaixo de seu corpo, como um polvo. Pedro gritava e isso me deixava mais nervoso, pois estava com medo, medo da velha, medo da criatura e temia por meu amigo. Peguei a luminária e golpeei como pude, a coisa se voltou contra mim e pulou, bati novamente com a luminária e ela se escondeu na escuridão do canto da salinha. Ergui Pedro e desci as escadas de qualquer jeito, deixei um rastro de vomito e sangue pela casa e fui até a janela da sala perto da porta ver se bibliotecária ainda estava vindo, por sorte ela estava do outro lado da rua conversando com outra mulher e parecia não ter a intenção imediata de entrar em casa.
 
Pedro parecia que ia desmaiar e havia muito sangue em sua roupa, minha esperança era sair pela janela da cozinha e pegar as bicicletas para sair pela lateral da casa, mas ouvi uns guinchos estranhos e quando percebi a criatura estava empoleirada no corrimão da escada me olhando fixamente com seus olhos anfíbios, eu estava preso, pois se saísse pela sala seria flagrado e se passasse pela escada em direção à cozinha a coisa pularia em nós dois. Deitei Pedro no chão e peguei um vaso próximo, fiz menção de arremessar o vaso e a coisa se retraiu, os guinchos ficaram mais fortes e eu sabia que ela pularia a qualquer instante, então joguei o vaso mesmo assim, mas eu tremia tanto que errei e ela pulou e grudou em minha mão, senti sua boca mastigar meu punho e tanta era a dor que gritei, eu batia a criatura contra o chão, mas ela nada sentia aparentemente, naquele momento Pedro retomou a consciência e chutou a criatura como podia, até que ela me largou e se esgueirou até o sofá da sala, onde se escondeu embaixo. Minha mão estava parcialmente comida, mas consegui me levantar e sair correndo junto com Pedro, pulei a janela da cozinha de qualquer jeito e cai no quintal, quando escutei uma chave destrancar a porta, eu olhei para Pedro e ele se virou em direção a sala, por um segundo eu vi o rosto da velha bibliotecária na porta de entrada da sala e eu sei que ela me viu também, eu disse para Pedro pular, mas quando ele se voltou para mim novamente a janela havia fechado abruptamente.
 
 Fiquei paralisado olhando a mão de Pedro bater no vidro fosco da janela enquanto que uma sombra grande e poderosa surgiu atrás dele, ele bateu mais algumas vezes enquanto gritava e depois parou, fiquei imóvel por alguns segundos e não ouvi mais nada, como se não houvesse mais ninguém na casa, sai correndo, peguei a bicicleta e desci a rua tão rápido como o vento, lembro que não queria olhar para trás, mas não resisti e olhei para a casa, já a uma distância segura e lá do alto da casa, na janelinha da pequena sala onde encontrei a criatura eu a vi, me olhando, a velha bibliotecária. Um calafrio percorreu a minha espinha e impulsionou minhas pernas, pedalei muito rápido e cheguei a minha casa.
 
 Por sorte só estava meu avô que era mais tranquilo, ele me viu catatônico e perguntou o que havia acontecido, mostrei a ele minha mão mastigada e ele se assustou, como não pronunciei qualquer palavra ele deduziu que um cachorro havia me atacado, eu apenas concordei com um acena de cabeça, ele me levou para o hospital onde fizeram curativos, minha mãe estava muito preocupada, pois segundo ela o “cachorro” que me mordeu podia ter o vírus da raiva, mas eu disse que não, isso não adiantou muito e fizeram uma série de exames em mim, na cama do hospital eu me perguntava o que teria acontecido ao Pedro, tudo era tão irreal que eu não acreditava, pensava que no dia seguinte ele me ligaria para jogarmos videogame ou fazer qualquer coisa, mas não, não fiquei mais sabendo dele e pelo o que entendi nem os pais de Pedro sabiam que ele havia saído comigo naquela tarde de sábado.
 
 A cidade ficou perplexa com o paradeiro de Pedro e eu sabia o que havia acontecido, muitas pessoas vieram me perguntar se ele não havia me dito nada sobre fugir ou se estava com algum problema, disse que não sabia de nada e meus pais resolveram voltar para a cidade grande.
 
 Quanto a velha bibliotecária? Bom, quando estava indo embora com meus pais de carro, passamos pela frente da velha biblioteca e ela estava fechada, havia uma placa indicando o novo local, mas não dei importância. Se ela era uma bruxa ou o que era exatamente aquela coisa eu não sei dizer, mas em meu bolso guardei uma página do livro que rasguei no momento de euforia na casa da velha, era uma página já bem deteriorada, mas nela era possível ler um pequeno trecho que dizia: “existem certas coisas que fogem do consenso humano, isso não quer dizer que essas coisas não existem no nosso mundo, quer dizer que você deve procurar entende-las em sua essência, do contrário, é melhor nunca mexer com o que você não conhece.”.

Autor: André Freitas

Esse é um dos contos que concorreu no concurso de contos de terror do blog.

3 comentários:

Matt Kist disse...

Caraca! Muito bom!!
Parabéns André, esse é, por enquanto, meu conto favorito. (Melhor que aquele do drogadinho)
Gostei da construção dele, o enredo é muito bem amarrado, cheio de detalhes, sem pontas soltas e sem maluquices sem sentido. Eu lhe apoio à escrever mais contos desses. Eu leria mais contos seus. Parabéns.

Miya Seat Lee disse...

Super concordo com o comentário acima!
Parabéns!

Super Suporte disse...

Impressionante! E muito, muito bem escrito, que talento minha gente! que talento!

Quanto ao Pedro, coitado, acho q virou ração pro satanas Ò.Ó