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quarta-feira, 29 de julho de 2015

[Conto] A coisa daquela noite...

Era um dia tedioso como qualquer outro, as aulas maçantes e muitas vezes, tediosas, levavam meu cérebro ao limite diariamente. Eu sempre achei que esse limite tenderia a aumentar, mas todos os dias eu o atingia e, a partir daquele ponto, não conseguia enfiar nenhuma informação a mais.
A faculdade de Medicina Veterinária era para fortes. A rotina era exaustiva! Assim como dizia nosso marketing: "Você acha que medicina humana é difícil? Ela é como uma medicina veterinária que só sabe cuidar de uma espécie!" Nos Gabávamos.
O que me salvava de não enlouquecer com aquele peso sob os ombros de uma vez só era o estágio. Desde o início do curso, lá estava eu, no hospital de animais silvestres implorando para que me deixassem ser útil lá de alguma forma.
E por incrível que pareça, fui aceito! Não sei o que a residente viu em mim, mas por algum motivo, ela me botou na frente de uma fila de aspirantes a estagiários e me deixou trabalhar ali.
Eu amava aquela realidade. Estar perto de águias, corujas, cobras, macacos e todo o tipo de animal diariamente até que suas presenças se tornassem tão comuns quanto um cão ou um gato. Ajudá-los, salvá-los, ver a vida voltando aos seus olhos novamente com o passar dos tratamentos.
E finalmente, vê-los voltando ao seu habitat. Vê-los literalmente, voltando à vida graças aos médicos veterinários responsáveis (e a mim, indiretamente). Aquilo sem dúvida, fazia valer a pena todo o trabalho duro e as horas com a cara enfiada nos livros.

E aquela era uma noite de inverno, e como havia acontecido com uma frequência quase exata de "dia sim, dia não", a chuva castigava impiedosamente tudo o que podia alcançar. O céu parecia estar desabando enquanto o volume dos rios subia, principalmente nesse anoitecer, em especial.
Eu estava de plantão na clínica. Há alguns dias, haviam chegado dois macacos-prego resgatados de um cativeiro clandestino, ambos muito debilitados e necessitando de um cuidado mais intensivo, logo, foram designados alguns plantões para estagiários e residentes.
Naquela noite, eu estava confinado no hospital, sem nada para fazer por algumas horas além de mexer no celular e observar a chuva cair lá fora.
Sim, na maior parte do tempo, era terrivelmente tedioso. Todavia, eu preferia assim, obviamente. Primeiro porque ter mais movimento significaria que algum animal passou mal, esegundo porque se tudo estivesse tranquilo, eu poderia até dar algumas cochiladas.
Mas quando justamente eu pensava isso, avistei através da janela de vidro, as luzes do carro de bombeiros.
- Dr. Vanessa! - Chamei a residente - Acho que tá chegando animal aí.
A médica se aproximou da janela, com uma cara desgostosa.
- Putz. Isso só acontece no meu plantão! – Reclamou, abrindo a porta para receber os visitantes.
O carro parou na frente das portas do hospital e um bombeiro desceu, as luzes vermelhas do giroflex giravam de maneira vertiginosa, lançando sombras nas árvores da floresta ao redor da faculdade.
- Doutora? - Perguntou ele, protegendo-se da chuva. O homem parecia ofegante, á claridade de uma lâmpada fluorescente que ficava acima da entrada, podia-se ver que suas roupas tinham grandes rasgos e seu olhar parecia um bocado abalado, quase... chocado - Tem um negócio pra senhora lá dentro.
- Ai meu deus. Uma hora dessas... O que é que cês tem aí?
- Aí que tá - Disse ele, coçando a cabeça, desconfortável, o olhar dele decididamente parecia perdido - Eu sei lá que porra é essa! Mas tava dando um puta trabalho pro pessoal do bairro novo.
Senti algo revirar-se em meu estômago, mas tentei ignorar, sem entender.
- Como foi isso já? O que ele parece, na sua opinião? - Perguntou a médica, com a curiosidade despertada.
- Sei não, melhor a senhora pegar ele, disseram pra deixar aqui - Percebi que ele parecia apressado - Ele assustou um bocado de gente lá nas redondezas do bairro, depois entrou numa garagem e fecharam a porta. Conseguindo trancar ele. Deu maior trabalho pra pegar.
A doutora pediu para olhar o tal "bicho estranho". O bombeiro foi até os fundos do caminhão e retirou e lá uma caixa grande de contenção e carregou-a com dificuldade até a recepção do hospital.
Após isso, pediu para que a médica "vigiasse" a caixa enquanto ele ia até o caminhão pegar os documentos de entrega. Mas em vez disso, ele simplesmente entrou no veículo e acelerou como se sua vida dependesse disso.
Eu e a médica residente assistimos, impotentes, o bombeiro sumir na escuridão chuvosa.
Que filho da puta! Pensei. Mas, após alguns minutos, não tivemos escolha a não ser entrar e deixar o animal, seja lá o que fosse, no hospital mesmo. A mulher a minha frente estava incrédula com a atitude estranha e inédita do homem.
Aproximamo-nos então, da caixa de contenção. Ela era toda de aço e com a tampa em plástico duro e fosco, tornando impossível ver algo do que estava lá dentro. Mas o mais estranho era o absoluto silêncio do animal. Ele estava imóvel e não emitia um único som que fosse.
Perguntei a doutora o que ela achava que era. A única resposta foi um dar de ombros. Ela estava tão intrigada quanto eu.
O animal ali dentro não vocalizava, mas eu sentia a caixa vibrar quase que imperceptivelmente. Percebi naquele instante que não queria abri-la.
Aquilo era mal, muito mal. Não cheirava bem desde o momento em que vi o caminhão dos bombeiros freando aqui na frente.
As roupas rasgadas... O olhar perdido...
Perguntei á médica se não era melhor deixarmos a caixa ali para abrirmos apenas no dia seguinte, não! Eu não conseguiria ficar em paz com aquilo por perto. Eu estava com MEDO! Mas de quê?

A doutora me olhou como se eu fosse louco, explicou que não poderíamos fazer isso porque se o animal morresse, a responsabilidade cairia para cima do hospital, por negar-se a atender o paciente.
Silêncio. Quebrado apenas pelo som da chuva martelando o telhado acima de nós.
Eu podia sentir a ansiedade da criatura ali dentro, como se escutasse o que falávamos, como se esperasse pacientemente. Eu sentia os olhar como se ele atravessasse a parede de aço e me atingisse como uma flecha.
Aquela vibração, ainda que discreta, mexia com os batimentos do meu coração. Arrepiei-me, ao perceber aquilo. Meu estômago protestava e ameaçava regurgitar todo o conteúdo.
Fiz o possível para disfarçar, não poderia me dar ao luxo de arriscar meu estágio por causa de um medo irracional.
A médica pediu que eu preparasse uma ampola de tranquilizante e trouxesse a "pistola". Obedeci, embora com certa dificuldade, pois minhas mãos tremiam mais do que eu gostaria de admitir.
Entreguei á mulher e ela, sem muita enrolação, abriu a tampa da caixa de contenção apenas um centímetro, se muito, e na fresta, pôs a ponta da pistola de tranquilizante e atirou uma vez, depois parou, como se ouvisse uma vozinha da segurança na cabeça, e então atirou mais 2 vezes.
O animal lá dentro se mexeu, batendo nas paredes de aço da caixa, mas ainda assim, não vocalizou. O completo silêncio dele me assustava mais que qualquer outra coisa. Após administrar a dose, a doutora fechou a caixa novamente e esperamos por alguns minutos até ter certeza que o bicho ali dentro já teria apagado.
Temi, por instantes, que a veterinária me convidasse para abrir a caixa ali mesmo, para finalmente podermos encarar o que estava encerrado ali dentro. Mas ela não o fez, em vez disso, sugeriu que dali, colocássemos direto em uma das gaiolas. Assim tudo seria mais seguro.
Levantei então, o objeto, ele pesava bastante para o tamanho, e a vibração, graças a Deus, tinha parado. Mas, embora tudo estivesse “nos eixos”, eu tinha uma sensação inconsciente de estar tocando em uma coisa infectada. Mal podia esperar para lavar as mãos.
Carreguei-a até a beira de uma das jaulas que já esperava aberta. E apoiei ali, eu suava frio, ainda lembrando da expressão do bombeiro
- Pronta? – Perguntei á médica, que estava em posição para fechar a jaula. Ela confirmou com a cabeça.
Abri a tampa da caixa e inclinei-a para deixar o animal escorregar para fora. Esperei... E então a caixa voltou a vibrar.
Tudo aconteceu rápido como um piscar de olhos, algo saiu rapidamente e a caixa foi empurrada de volta com força descomunal direto no meu rosto.
Fiquei tão desnorteado que, na hora, mal senti a dor da minha mandíbula e do osso malar (ou maçã do rosto) quebrando. Cai no chão, com o sangue vertendo da minha bochecha. Em meio a tontura, apenas pude avistar algo grande saindo da jaula, algo que não deveria ser possível ter estado dentro da caixa de contenção.
Era grande, esguio, sibilava como uma serpente, sua pele era escura e brilhava em cores sombrias conforme ele caminhava, hora em duas, hora em quatro patas. Seu corpo reluzia como que coberto por um óleo escuro e fétido.
O pior eram seus olhos, eles faiscavam numa cor amarela berrante, indecente. O simples ato de encará-los parecia uma perversão do que podia ser dito como “natural” (nesse ponto, meus próprios olhos já estavam embaçados de sangue).
Um cheiro acre preencheu minhas narinas, algo tão podre quando mil corpos decompostos, fedor aquele que parecia impossível de ser exalado de um único ser. O ar havia se tornado pesado, viscoso, viciado!
É uma sensação complicada de entender, difícil de lembrar e quase impossível de explicar, mas naquele momento, eu apenas queria morrer. Um sentimento de sufocante e angustiante se apossou de mim de uma forma que eu julgaria impossível. Se houvesse qualquer coisa cortante ao meu alcance, talvez minha vida tivesse acabado ali mesmo.
Lembro de ouvir os longínquos gritos da doutora Vanessa.
Especialmente quando a criatura se curvou sobre ela, segurou-a pelos braços e pernas e começou a rasgar sua roupa. Não sei bem o que aconteceu, ou pelo menos, tento me convencer que não sei, mas desmaiei algum tempo depois.

Cinco meses se passaram desde aquela noite.
Meu rosto ainda está uma merda, provavelmente nunca mais voltará a ter um formato natural de novo. Mas tudo bem, o importante é estar vivo.
Saí do curso. Não consigo mais entrar naquela faculdade novamente sem ter uma crise de pânico. Mas novamente, isso não importa! Eu estou vivo!
Aquilo... A criatura... Ela sumiu, fugiu porta á fora e se embrenhou nas florestas ao redor da faculdade, ela pode ter iguais chances de ficar lá eternamente ou simplesmente migrar para outras regiões. A busca da polícia para encontrá-la foi completamente infrutífera.
Melhor assim, eu acho.

E quanto a médica? Bem, Vanessa está viva. Está internada em um hospital psiquiátrico daqui da região, tive notícias dela, recentemente.
Ela está grávida. E se o que eu penso que vi está certo.
Tenho medo do que possa nascer.

Autor: João Victor S. de Araújo

Esse é um dos contos que concorreu no concurso de contos de terror do blog.

3 comentários:

Matt Kist disse...

Hahahahha!
Desculpe, por algum motivo achei graça no final do conto. Mas quero dizer que gostei muito do conto. Muito detalhado. Poderia até virar uma lenda real de alguma universidade.

Só não gostei da atitude do bombeiro, o filho da puta teve um trabalhão pra pegar esse monstro e daí simplesmente vai embora ao invés de ajudar a conter a criatura. Azar o dele, vai ter mais trabalho agora.

Eduardo disse...

Plot twist: A criatura era Lúcifer e o bombeiro um cultista.

Miya Seat Lee disse...

Muito bom! Fiquei ansiosa pelo final, estou esperando uma continuação!