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quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Som de gotas na escuridão

Dirijo o meu carro pensativo, tudo está muito silencioso, é madrugada... Mas o som do gotejar é constante, essas malditas gotas... É engraçado, sempre me senti muito seguro em minha vida, acho que quase todo mundo se sente assim, sempre olhamos para problemas imensos que outras pessoas passam, e nunca pensamos que aquilo pode acontecer conosco, esquecemos que aquelas pessoas são exatamente iguais a nós e que elas não escolheram. Eu pensava assim até acontecer comigo...

Nunca fui uma pessoa religiosa, ou algo assim, mas sempre acreditei em espíritos, sempre vi pessoas possuídas, ou perturbadas e achava interessante, mas nunca pensei profundamente sobre isso, porém há uns três meses atrás tudo mudou. Eu não sei dizer exatamente quando percebi, mas de repente notei o som de gotas, um gotejar constante, lembro que quando comecei a procurar a origem do som, eu já o ouvia há muito tempo, foi como de repente despertar e perceber que aquele som estava ali. Na minha primeira busca eu vasculhei a casa inteira, depois tentei procurar outros lugares, mas nada de achar as malditas gotas. Claro que não demorou muito para eu perceber que não era na casa, era em toda parte, não importava onde eu estivesse, lá estava o som.

Passei a ouvir música constantemente, ou a ir em lugares agitados para abafar o som, porém durante a noite, na hora de dormir, lá estava ele novamente, o som das gotas. Isso me levou a ir a especialistas, onde fiz vários testes, e não encontraram nada. Não havia nenhuma indicação de algum tipo de demência, era como se eu estivesse inventando isso. Passei a ficar estressado, já não tinha mais paz, eu nunca podia ficar no silêncio por um instante, essas gostas são uma tortura que não tem fim.

Mas isso só foi o começo do pesadelo, as coisas realmente começaram a piorar um dia enquanto olhava antigas fotos da família. Eu notei que em uma foto havia um homem vestido de preto, sentado do meu lado em uma imagem com outros familiares, porém eu não lembrava dele... E foi então que percebi que não era apenas aquela foto, em todas as minhas fotos ele aparecia, sempre com aqueles olhos profundos, olhando diretamente para a câmera. É claro que me arrepiou, eu não sabia quem ele era e porque estava em todas as fotos, de todos os álbuns, inclusive fotos que eu tinha certeza que estava sozinho.

E então começaram as lembranças... Acho que todo mundo um dia se lembra de algo que tinha esquecido completamente, especialmente quando amigos contam uma história, e foi algo semelhante que aconteceu comigo. De repente eu passei a lembrar desse homem, em vários momentos da minha vida ele estava lá. Eu lembro de na infância, acordar sonolento durante a noite, e ele estar sentado ao lado da minha cama, me observado. Lembro de festas de aniversário em que ele ficava ao fundo, olhando diretamente pra mim, e até mesmo de solitários almoços com o meu pai, onde o homem ficava na beirada da porta da cozinha, olhando enquanto eu comia.

É claro que o desespero ficou ainda mais forte, eu pensei em perguntar para membros da família, mas o medo de ser considerado louco foi maior. E exatamente quando eu comecei a me perguntar sobre onde estava aquele homem, é que o pior começou a acontecer. De repente eu comecei a vê-lo na multidão, ou dentro de carros. Eu nunca conseguia alcançá-lo, mas sempre o via. Ele nunca demonstrava emoções em sua expressão, sempre era séria e olhando diretamente em meus olhos antes de se distanciar o suficiente para eu não alcançá-lo.

E aqui estou eu... Mais uma vez dirigindo pela madrugada, meu carro é silencioso, e as gotas estão presentes, caindo e caindo... Eu não sei o que está acontecendo, acho que estou sendo possuído aos poucos. Ou talvez tenha enlouquecido, não sei o que seria pior, e nem quanto tempo posso aguentar mais. Essas gotas me fazem ter vontade de gritar, gritar muito algo, quebrar coisas. Eu só quero que pare.

De repente sinto o meu corpo gelar, e percebo que no banco do passageiro tem alguém sentado, eu olho lentamente, e percebo as vestes negras. Os meus olhos vão subindo, até enxergá-lo bem ao meu lado, com seus penetrantes olhos. Meu coração dispara, eu não tenho reação, não sei o que fazer. De repente ouço sua voz dizer:

-Chegou a hora.

Sinto um forte impacto em meu corpo, e uma imensa dor, minha carne parece estar sendo dilacerada, meus ossos despedaçados. Eu não entendo de imediato o que está acontecendo, até ouvir um som alto de metal contorcendo, e um alarme disparando, o meu carro gira, e por um segundo posso ver outro carro completamente amassado. O carro gira mais algumas vezes até finalmente parar, e eu ser arremessado em um dos vidros, estraçalhando-o, porém eu não sou lançado para fora, a metade das minhas costas para baixo fica dentro do carro, preso. Não tenho forças, todo o meu corpo dói, posso apenas observar o asfalto a baixo de mim, metade do meu corpo está suspenso para fora do carro, e estou quase de cabeça para baixo. Sinto o sangue descendo pelo meu corpo, até a cabeça, e então na minha testa uma gota se forma e cai... E outra... E outra... E então uma poça de sangue começa a se formar no chão. Sons de gotas, uma atrás da outra, é exatamente esse o ritmo de queda que eu tenho ouvido por todo esse tempo.

De repente eu vejo pelo reflexo da poça, ele... O homem vestido de preto, ele me observa por um instante, e então percebo que ele carrega algo em sua mão. É uma foice... Junto todas as minhas forças e digo minhas últimas palavras:

-Então... Todas essas lembranças na verdade eram...

[Fim]

Um comentário:

Rian disse...

ERAM DA MORTE !!