Control | Um metroidvania que eu esperava pouco e me surpreendeu muito!

Esse é um jogo que fui jogar com uma expectativa realmente muito baixa. Normalmente em jogos da Remedy, eu fico louco, no entanto em Quantum Break dei uma esfriada porque inicialmente era exclusivo de Xbox, então nem acompanhei, já em Control, eu não dei a mínima atenção por parecer extremamente genérico. Muito provavelmente essa falta de interesse foi o que me fez ficar tão surpreso, e se você é fã de histórias envolvendo conspirações e sociedades secretas, certamente vai adorar.

A trama tem um ponto de partida bastante misterioso, você controla Jesse Faden, uma mulher que passou a vida inteira procurando pelo paradeiro do irmão, que foi sequestrado na infância. Isso a leva a uma unidade secreta chamada de "Casa Antiga", localizada no meio de Nova Iorque, e por algum motivo só vista por aqueles que procuram por ela. Porém o lugar está em caos.


Na verdade a Casa Antiga é a base de uma corporação secreta do governo que estuda coisas sobrenaturais, localizando objetos e eventos pelo mundo. Também serve de lugar de contenção para objetos perigosos que podem gerar o caos, manipulação também é algo frequente para que ninguém descubra, assim como estudos relacionados a outras dimensões.

Bom, eu sou muito fã da Remedy, isso começou com Max Payne 1, que se tornou meu jogo favorito e continuou sendo por sua jogabilidade, narrativa e gráficos incríveis pra sua época. Coisa que acho difícil jogos conseguirem fazer. Além de que, ao meu ver, é um símbolo forte de jogos de PC, com suporte a mods vindo direto no launcher e gerando obras primas como Katana.

Infelizmente o mundo é cruel, e pra uma pequena desenvolvedora, é preciso fazer sacrifícios para se crescer, e ainda mais nos anos 90 e não sendo americana. A Remedy é finlandesa e conseguiu sucesso mundial graças ao fato de que o jogo foi publicado pela 3D Realms, conhecida por Duke Nukem. E esse apoio deu a visibilidade necessária em 2001.

Então a Rockstar decidiu comprar os direitos de Max Payne, e a Remedy aceitou vender, sendo que nos termos tinha a exigência de que eles fizessem mais um jogo da franquia. E assim fizeram, mas não teve nem de perto o mesmo sucesso comercial que o primeiro. Porém deu muito dinheiro pra desenvolvedora, permitindo que ela se estabelecesse melhor mundialmente.

Daí veio a era da Microsoft, que decidiu bancar o estúdio, mas também a exigência era de fazer exclusivos. Isso matou os mods, pois inicialmente Alan Wake era exclusivo de Xbox. Ainda assim fiquei louco pelo jogo, e inclusive fiz a burrada de comprar um console só pra jogar (Pra verem como eu gostava de Max Payne). Me ferrei com isso, pois logo que comprei, anunciaram a versão de PC.

Infelizmente, mesmo no PC, os mods foram deixados de fora, e isso meio que tirou aquela imagem que eu tinha de que a Remedy era a irmã da Valve, com um jogo icônico e super divertido, e um verdadeiro mundo novo criado pelos próprios fãs. Mas ainda assim, Alan Wake é um jogo que mostrou o potencial narrativo da empresa, provando que aquele clima meio trash de Max Payne era proposital e que podiam fazer algo altamente estiloso.

Depois disso veio o American Nightmare, que gostei demais, e por fim Quantum Break, que dessa vez eu vi que era de Xbox One, e simplesmente deixei pra lá. Parecia legal, mas não era atraente como Alan Wake, e eu não iria jogar tão cedo, então não esperei muito. Quando saiu pra PC, joguei e adorei, o investimento foi absurdo, tanto em atores famosos, como nas cutscenes que na verdade são episódios de uma série. Aquilo foi pesadão e muito divertido, talvez fosse mais se eu não esperasse uma obra da Remedy.

E quando a empresa saiu das asas da Microsoft para a 505 Games, adorei! Isso porque ela é muito mais ligada à comunidade de PC, e deixa a possibilidade de liberdade maior. Por outro lado, não gostei nem um pouco quando anunciaram Control, isso porque me pareceu genérico demais. Na real, pareceu ser Quantum Break com uma mulher.

A mesma paleta de cores, a mesma roupa da personagem. Outro jogo estiloso com uma história de organização secreta e com poderes. Eu não empolguei de maneira alguma, na real foi decepcionante ver a Remedy apresentando algo assim, deu a impressão de que ela tava sem criatividade, e se era pra fazer outra coisa desse jeito, que fizesse outro Alan Wake (Ela comprou os direitos da Microsoft), já que Max Payne não poderia mais.

Não é que exista problema em se fazer algo parecido, mas logo depois? E convenhamos que esse estilo de narrativa é idêntico ao de Quantum Break, algo estiloso, semelhante a coisas como Fringe e Flash Forward. Aquela sensação de que o governo está escondendo algo grande das pessoas comuns e tem acesso a tecnologias muito além da que temos em mãos. Eu adoro histórias assim, e a Remedy até poderia fazer algo do tipo, mas outros elementos poderiam ter mudado.

O que quero dizer é, Max Payne tem um estilo Noir, aquele lance de noite, escuridão, clima pesado. Alan Wake é algo sombrio, mas tem uma paleta de cores meio marrom e bege, e a ambientação interiorana dá um toque muito próprio. Agora vá olhar imagens de Quantum Break e de Control, o mesmo tom acinzentado em um prédio estiloso, e a roupa? Eles tinham mesmo que por exatamente a mesma roupa na nova personagem? É brincadeira né? E não preciso nem falar do lance dos poderes.

Ou seja, eu nem quis saber do jogo durante o desenvolvimento, sabia sim que seria legal, mas quando se trata da Remedy, eu não espero algo legal, eu espero uma obra prima. Mas beleza, quando saiu, fui jogar. Esperava ter muita diversão e tal, fazer uma análise bacana depois, e só. Nada muito marcante, além de que tinha aquela preocupação do investimento ser mais curto e a qualidade cair né?

A primeira coisa que notei, mas que já esperava, foi o fato de não ter dublagem em português. Deu uma certa tristeza, já que com a Microsoft, esse investimento era garantido. Mas a 505 não faz investimentos tão pesados né? Então beleza, especialmente porque tem legendas em português, sendo assim esse detalhe é o de menos.

Não demorou muito pra eu me tocar que estava jogando um Metroidvania, e isso definitivamente foi uma bela de uma surpresa, afinal de contas apresentava uma nova visão de jogos da Remedy, deixando a jogabilidade linear de lado, e apresentando em um enorme cenário. Inclusive a ideia de grande ambiente de trabalho e ir e voltar, me lembrou por muito tempo a sensação de jogar The Surge.

Tem inclusive muitos aspectos de RPG, itens equipáveis, upgrades de equipamento, upgrade de poderes, missões alternativas. Juntando isso a pessoas "corrompidas" que usam os equipamentos das instalações para te atacar, realmente bateu demais aquela sensação de The Surge durante boa parte da jogatina, mas sem os elementos de Souls Like.

Mas a verdade é que logo começou a me lembrar de vários outros jogos, e inclusive veio mais uma vez o pensamento de ser a irmã da Valve. A real é que a Remedy sempre teve vontade de fazer algo mais aberto, é só ver como era a ideia inicial de Alan Wake. Então Control parece ter finalmente colocado essa vontade reprimida de criar um mundo maior.

E, como disse, sempre vi uma certa relação entre Max Payne e Half Life, e tenho certeza que não sou o único, já que em ambos os jogos tiveram mods crossover, como o frenético Half-Payne. E se a Remedy sempre quis ter o Half Life dela, talvez Control seja esse jogo. Aliás, acho que se a própria valve tivesse inventado Half Life 1 anos depois, ela iria usar o gênero Metroidvania.

E claro, rolaram vários outros jogos que me lembraram, e de forma super positiva. O maior exemplo é Second Sight, um dos jogos mais gostosos que já joguei na vida, e que você começa em um laboratório e tem poderes psíquicos que vão evoluindo. A sensação de liberdade é maravilhosa, e talvez Control tenha pego alguma inspiração nele. Foram poucos jogos que me fizeram sentir tão livre, posso citar também Advent Rising e Star Wars Jedi Outcast.

Mas aqui o foco são habilidades baseadas nos "Objetos de Poder", que são itens que tem conexão com o outro lado e podem se conectar ao usuário, permitindo usar sua habilidade. No jogo tem os objetos alterados, que são fora do controle e precisam ser contidos, e os objetos de poder, que você precisa conseguir para ganhar novas habilidades.

Aliás, é impossível não lembrar de SCP Foundation, que também é uma instalação que prende coisas sobrenaturais. E aqui tem inclusive fichas dos objetos explicando o que fazem, detalhando acontecimentos, e também mostrando como suas celas são e o que é necessário para conter esses objetos. São coisas comuns como semáforos, televisores, árvores de natal. Esses objetos são localizados e levados para a Casa Antiga, onde são estudados e contidos.

Em uma entrevista, a Remedy assumiu que se inspirou na SCP (Tinha como não assumir? kkkk), e que inclusive consultou várias páginas para fazer alguns dos objetos, ou elementos contidos no jogo. Também buscou inspiração em um livro chamado House of Leaves e assim tem aquele toquezinho de Creepypasta né?. Então a coisa é maravilhosa e decepcionante ao mesmo tempo. Maravilhosa pela atmosfera criada no lugar, decepcionante por parecer meio malandro pegar e fazer um jogo né? Meio que "Hum... Ideia legal a sua... Farei um jogo com ela".

Acho que teria sido muito mais bacana se tivessem comprado os direitos e feito usando o nome oficial. Por outro lado, talvez seja impossível, já que os elementos adicionados são feitos por usuários que fazem, e assim teria que pagar muita gente. Bom... Ao menos temos jogos grátis como SCP-087, SCP-087b e claro o clássico SCP Containment Breach, que se aproxima muito mais do que temos em Control.

Uma coisa curiosa na Casa Antiga, é que ela não aceita que coisas muito modernas entre nela, a própria casa é um "lugar de poder", e por isso tem ligação com o sobrenatural, mas parece não conseguir se "sintonizar" com a evolução do nosso tempo. E assim se a pessoa entra com um smartphone, ele explode. E essa "regra" que colocaram no lugar só me deixou mais frustrado com o design.

Por que diabos não fizeram um jogo nos anos 60 a 80? Afinal a tecnologia presente é toda de coisa velha mesmo, deviam ter ambientado já em uma época diferente, isso iria dar um jeito no visual estiloso demais e apresentar um design mais clássico, o que daria uma cara muito mais própria ao jogo do que parecer o "Quantum Break com uma mulher".

Mas por falar nisso, algo engraçado que aconteceu é que foi exatamente o contrário. Como Control é tão mais grandioso que seu antecessor e ainda é aberto, isso acabou gerando um efeito bem horrível, que é fazer Quantum Break parecer só um joguinho. Só uma missão de Control. Afinal de contas nesse você tem a mesma atmosfera, tem missões que tão uma bela variada e ainda é aberto. Isso é uma tristeza porque Max Payne e Alan Wake sempre vão ter sua atmosfera peculiar muito própria, agora Quantum Break foi ofuscado pelo o que Control apresenta.

Porém os poderes são diferentes, em Quantum Break temos algo focado completamente em manipulação temporal. Parar o tempo, deixar ele mais lento, criar bolhas temporais, essas coisas. Em control é algo mais voltado para uma pessoa paranormal mesmo, levitar objetos, controlar mentes, voar, essas coisas.

E nossa, que poderes viu? É uma delícia a liberdade colocada, bate aquela vontade de brincar com os poderes. Quem assistiu Akira, vai ver que provavelmente rolou alguma inspiração, pois é muito fantástico estar levitando com os inimigos atirando e você levita um monte de pedaços pedras para usar como escudo, então arranca uma antena com a mente, lança em algum infeliz, e quando ele ficar fraco, domina a mente dele pra lutar por você.

Os efeitos inclusive são maravilhosos, tem alguns cenários que eles simplesmente desaparecem com a explosão. Teve uma vez que peguei uma arma que lança três balas explosivas em um monte de boxes de um banheiro, fez aquela bola explosiva que lançou pedaço pra todo lado e veio aquela poeira. Quando baixou, vi que o lugar tinha desaparecido e as placas do teto estavam penduradas balançando enquanto uma luz piscava.

O nível de destruição é lindo, e você brinca muito com as coisas, às vezes sua personagem some no meio da treta. Especialmente quando se toma decisões rápidas, bate aquele orgulho. Exemplo, uma vez dois inimigos tacaram foguetes em mim, um deles eu parei com a mente e lancei de volta, já o outro não dava tempo e só levitei um monte de pedras, que bloquearam o foguete, mas fez aquele estrago monstro ao redor.

As habilidades da personagem também vão aumentando na medida em que você faz missões, podendo ser as principais ou missões alternativas para descobrir coisas novas e também dar aquela tunada. Por exemplo, tinha um chefe que eu não estava conseguindo vencer, e assim fui fazer outras missões, ganhei pontos o suficiente para investir mais em vida e voltei para finalmente poder vencer o infeliz.

Não sou muito de armas, mas quem gosta vai se divertir, pois também tem alguns modelos, indo desde coisas normais até coisas de ficção científica e cada uma delas pode ser personalizada com itens que você consegue explorando, fazendo missões, ou fabricando. Os efeitos são variados, desde algo que aumenta o dano enquanto você estiver mirando, até aumento de velocidade de recarga em uma certa porcentagem. A raridade varia os bônus, e por isso pode valer a pena dar uma olhada mais a fundo.

A história do jogo é muito caprichada, porém pode cansar e encher o saco. Eu queria ver a história, então cada vez que achava um documento, lia ele. Foi muito bom terminar o jogo sabendo bem as coisas, porém assumo que tiveram vários momentos que eu cansei. Achar cinco documentos enorme em um só lugar é chato pra caramba.

Mas esses documentos variam bastante e explicam muita coisa, são cartas entre o povo da agência que acabam esclarecendo o dia a dia, cartas de pessoas de fora relatando algo sobrenatural, que variam entre coisas bizarras e coisas engraçadas pra caramba, fichas de objetos capturados e como devem ser contidos, fichas de tipos de inimigos, e assim vai.

Algumas das cartas não têm nada demais, porém tem umas intrigantes e outras hilárias, como a dos lunáticos dignos da galera citada nos Illuminatus. Exemplos, em uma um caipira reclama de um peixe de parede que canta, mas de noite levita e começa a falar palavrão e cantas música do Diabo, já outra um cara fala que o governo quer proibir o cigarro porque fumaça faz mal para os alienígenas e o governo não vai ganhar os milhões de dólares dos ET's se tiver cigarro na terra. Já uma terceira, um cara cita sobre não existirem aviões, que aquilo que vemos no céu são monstros gigantes e pra evitar o pânico, o governo fez trens subterrâneos no formato dos monstros para evitar pânico.

Também há várias coisas bacanas, como as gravações científicas do Dr Darling, explicando diversas coisas, a Turma do Limiar, que é uma série bizarríssima com fantoches feios e que introduzem elementos das instalações para crianças e que é digno de bizarrices da Deep Web, ou uma rádio noturna que parece ter sido inspirada na Frequência Kirlian e mostra entrevista com pessoas falando sobre acontecimentos inexplicáveis.

Mas assumo que acho que faltou um pouco de estranheza no jogo. Por mais que seja lotado dessas informações e tenha uns lugares secretos. Acho que faltou umas esquisitices que poderiam ter deixado tudo muito mais robusto. Por exemplo, em Half Life, vemos de vez em quando o GMAN em algum lugar nos observando e quando vamos ver, ele não está mais lá. E aqui, em um laboratório lotado de coisas sobrenaturais, as esquisitices são meio limitadas.

Não digo que não tem nada, porque por exemplo tem o zelador finlandês que diz que você é a ajudante dele e é digno de algo saído de Twin Peaks e Deadly Premonition, além dos relatos escritos hilários como o do pato de borracha que perseguiu um cara falando "Kuá Kuá" até ele ter um ataque cardíaco, mas seria ótimo ter aquela sensação a mais nos cenários em si, de esquisitices indo desde hilários até as bizarras, porém na maioria do tempo você vê as coisas acontecerem quando chega no objetivo, os cenários não são vazios, são tunados de coisas, mas seria ótimo ter coisas intrigantes.

A música do jogo varia entre genérica e fantástica. Por um lado, a música padrão de fundo é decepcionante, especialmente porque já em Max Payne os caras mostraram que conseguiam apresentar algo instrumental marcante, mas aqui é bem genérico mesmo o fundo. Cai bem, porém não marca. Por outro lado as músicas cantadas são colocadas de forma muito fantástica, tanto o Tango Finlandês quanto a banda fictícia Gods of Asghard (Poets of the Fall) ficaram bem legais e em momentos super adequados.

Enfim, jogo fantástico, gostoso demais de jogar, a Remedy fez bonito, acho que com alguns retoques viraria uma obra prima. Quando zerei bateu uma sensação de perda, coisa que nem lembro a última vez que aconteceu em um jogo, talvez o mais próximo tenha sido A Plague Tale, mas acho que nele a sensação foi mais de "Poxa, gostei tanto de jogar, queria mais!", enquanto aqui foi aquela sensação de perder algo. Recomendo sempre dar uma olhadinha no preço dele na Greenman Gaming antes de comprar, às vezes os preços deles estão bem abaixo do normal, e sempre lembre de olhar os cupons de desconto que eles espalham pelo site, que deixa a coisa mais barata ainda, dê uma conferida aqui.

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