Castle Rock | Série cheia de referências ao universo de Stephen King

Tá aí uma série fenomenal voltada para o público adulto e que pode acabar decepcionando muitos fãs mais jovens da obra de Stephen King exatamente porque o autor tem uma cara bem diferente nas suas histórias e adaptações. Dependendo da produção pode ser algo que começa maravilhoso graças à proposta mas vira uma coisa sem pé nem cabeça como Under the Dome, algo completamente digerível como Firestarter ou uma obra mais pesada como Saco de Ossos. Apesar de tudo, estamos falando do "Mestre do Terror", então vejo que as pessoas normalmente esperam algo assustador que todos possam aproveitar, mas aqui a coisa é meio densa demais.



A série apresenta um formato semelhante a obras como American Horror Story, Dead of Summer (Que deus a tenha) e Fargo, ou seja, é uma série antológica onde cada temporada tem foco em uma história. O que as liga é o fato de que todas se passam na cidade de Castle Rock. A primeira temporada tem foco em um rapaz que é encontrado em uma área fechada de um presídio e aparentemente vivia há anos ali. Ninguém sabe quem ele é ou como foi parar ali, mas sabem que é um prisioneiro e que será um escândalo se descobrirem a existência de alguém preso ali. Não demora pra coisas estranhas começaram a acontecer.

Quando foi anunciada, essa série usou um marketing meio sombrio. Sabia-se que tinha a ver com as criações de Stephen King e que ia ser em uma série. Logo começou a se perguntar sobre se seria uma adaptação por temporada ou um crossover entre todos os personagens ou algo diferente... E realmente acabou sendo algo diferente. Mas o negócio é, isso empolgou o povo.

Obviamente para o grande público, logo se pensou em algo semelhante a It: Uma Obra  Prima do Medo, Tempestade do Século ou A Maldição do Cigano. Quando se fala no King, se espera por obras de terror com uma certa elegância que acaba fazendo se diferenciar de filmes bagaceira como Olhos Famintos 3 e Os Escolhidos que parecem ter sido com uma má vontade absurda.

Mas não existe apenas um lado do autor né? Às vezes vemos algo agitado e destrutivo como A Dança da Morte e A Hora do Lobisomem, mas às vezes vemos algo nada sobrenatural e bem elegante, como Dolan's Cadilac. Se você pegar o filme Christine, pode pensar facilmente "Meu, que desgraça, é a história de um carro assassino! Isso é muito ridículo! Isso é terror bagaceira pra público mais do que trash!", por outro lado se você ler Buick 8, que também envolve um carro misterioso, pode ver fãs de H.P. Lovecraft se surpreendendo com a profundidade da narrativa. 

Não bastando a própria variação do autor, temos a variação de quem adapta suas obras e pode dar um toque próprio que faz toda a diferença. Podemos ver como exemplo o filme O Nevoeiro, que era algo voltado para um público adulto, um terror misterioso e tenso, enquanto na série O Nevoeiro, a coisa virou só a bagaceira, com uma gritaria louca, expressões exageradas dos atores, uma chacina. Simplesmente um "Seja bem vindo ao mundo trash!". Ou mesmo no remake de Carie, que dá pra ver que tem uma atmosfera mais colegial que a primeira filmagem.

Mas quem leu os livros do autor, sabe que ele fala que é uma beleza. As histórias dele são carregadas de pensamentos dos personagens e mesmo algumas ideias que vista por alto podem parecer estúpidas, são tão bem narradas por seus personagens, que acabam gerando uma atmosfera absurdamente intensa e isso pode ser bem cansativo.

Castle Rock é o tipo de obra que parece pegar a verdadeira essência dos livros e as colocar em uma versão filmada, porém talvez algo que a faz ser tão precisa, é o fato de ter sido feito para ser uma série, e assim já estava no formato correto. Não é a primeira vez que King faz isso, já vimos acontecer em Rose Red e em N, sendo que essa última aí é tão tensa quanto Castle Rock, carregando bem uma atmosfera pesada.

Então cada episódio é bem tenso mesmo, algo que você tem que prestar atenção. É uma série de fotografia maravilhosa e pesada. Tem cores muito escuras e aquela constante sensação de que algo macabro está rolando. É necessário prestar muita atenção nos diálogos, pois eles estão cheios de conteúdos que dão explicações para várias coisas.

Quanto a relação com as criações de Stephen King, elas não são aparições diretas, ao invés disso são diversas referências discretas que exigem um certo conhecimento da pessoa pra ela conseguir encaixar. A referência mais escrachada é quando uma garota tá falando que os anos 80, e em meio à conversa acaba citando sobre um tio dela que em um inverno ficou preso com a família cuidando de um lugar e acabou pirando e tentou matar a mulher e o filho com um machado.

Sendo assim, você não vê personagens do King pulando pra cá e pra lá loucamente. São coisas que é preciso prestar atenção. Aquele tipo de série que você termina e vai para os fóruns de discussão para descobrir mais coisas. Ver  fotos mostrando detalhes que acontecem rapidamente, teorias e explicações sobre um monte de coisa. Ou seja, é uma série que não é pra você ver quando estiver cansado, é preciso atenção.

A coisa é mais concentrada no que é uma atmosfera Stephen King adulta do que em mostrar referências. Então tem aquele velho papo da cidadezinha onde algo acontece, a diferença é que dessa vez é a mesma cidadezinha pra cada temporada. Obras que acho parecidas são Bright Falls e Channel Zero, mais especificamente a temporada Candle Cove.

Tem um episódio inclusive, que considero uma bela de uma obra prima, pois parece que o diretor estava absurdamente inspirado em colocar algo intenso. E aqui temos personagens bem trabalhados que às vezes só tem uma ponta, e às vezes boa parte do episódio é dedicada a ele. Aliás, só por curiosidade, apesar de não ter ligação, o rapaz que é encontrado no presídio é o mesmo ator que interpreta o Pennywise na versão de 2017 de It: A Coisa.

Apesar de eu só ter falado de Stephen King aqui, outro nome que foi falado bastante durante o anuncio é o JJ Abrams, produtor da série e alguém que já foi um dos meus diretores favoritos, mas que infelizmente começou a colocar o dedo em tanta coisa tosca, que simplesmente desabou no meu conceito. Mas vemos algumas referências discretas que ele colocou também, como um ator que participou de LOST dizendo "Hoje desenharam uma imagem na minha vaga, de um homem com cadeira de rodas", e em LOST ele interpreta um cadeirante.

Aliás, não é a primeira vez que King faz essa parceria e lança algo em conjunto que é tipo um combo de duas pessoas famosas. Já vimos nos anos 80 o autor lançar o clássico Creepshow, com George A. Romero, o diretor que mais popularizou zumbis no cinema. Graças a isso, uma das coisas que se falava é que Castle Rock seria um tipo de sequencia espiritual de Creepshow, com uma história por episódio, bem nos moldes de Masters of Horror.

Enfim, é uma série que adorei, achei muito elegante, mas que tem o momento certo para se assistir e também o público certo. Se você estiver procurando por algo do tipo O Cemitério Maldito ou Colheita Maldita, esqueça! Mas também não é exatamente como Um Sonho de Liberdade e 11/22/63, é um meio termo, algo que tem foco em humanos, mas vai pro lado pesadão da coisa, mas sem ficar trash, sem apelar pros monstrões. Algo semelhante a 1922 e O Apanhador de Sonhos, mas sem a parte dos bichões.

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