Call of Cthulhu: Dark Corners of the Earth | Te fazendo mergulhar na loucura

A obra de H.P. Lovecraft gerou uma influência cabulosa na Cultura Pop, no entanto jogos com uma maior liberdade dentro do universo demoraram a aparecer, se mantendo mais popular nos belíssimos lançamentos literários, porém em 2006 chegou Dark Corners of the Earth, um jogo pronto para finalmente levar os fãs à loucura.

Você assume o papel de Jack Walters, um detetive que em 1915 foi chamado para ajudar a polícia a investigar o bizarro caso de um culto que começava a causar problemas em uma cidade, no entanto ao entrar no casarão do lugar, começou a ter visões estranhas e então surtou, indo parar no Asilo Arkham, onde ficou por seis meses até aparentemente se curar. No entanto logo descobriu que ao sair do lugar, haviam se passado seis anos e ele viveu sua vida durante todo esse tempo, mas não lembra de nada, e assim começa a investigar o que fez durante esse tempo. Não demora muito a ver uma ligação com a cidade de Innsmouth, para onde ele parte em busca de respostas.

Antes de tudo eu acho importante se localizar sobre o que exatamente é esse jogo, afinal de contas é fácil imaginar que se trata de uma adaptação do Chamado de Cthulhu, afinal esse é o nome do jogo né? Bom... Tem lógica, mas a verdade é que não é, o negócio é que graças ao termo Mitos de Cthulhu, o nome dessa entidade acabou popularizando a coisa, e infelizmente ao invés de empresas usarem esse termo, acabam usando o nome do conto.

E assim nos anos 80 surgiu um RPG de Mesa baseado na coisa, é O Chamado de Cthulhu RPG, lançado pela Chaosium, que reúne  todo o universo de Lovecraft em um só lugar, permitindo aos jogadores entrarem nos mais variados tipos de aventura, sejam ou não adaptações de algum conto lançado. A coisa se popularizou e acabou ganhando adaptações para outros tipos de mídia.

Em 1993 veio Call of Cthulhu: Shadow of the Comet, que é a primeira adaptação desse RPG de Mesa, não sendo exatamente uma adaptação ampla da coisa, na verdade é mais usando o sucesso já que daria pra perfeitamente só usar a obra de Lovecraft sem pagar nada pra Chaosium, até porque está em domínio público, e além disso ele é uma adaptação do livro A Sombra de Innsmouth.

Já em 1995 veio Call of Cthulhu: Prisoner of Ice, que empolgou muita gente por se tratar de uma sequencia não oficial do épico Nas Montanhas da Loucura. No entanto ambos os jogos tinham a limitação de serem de nicho, pois mesmo tendo sido lançados na época de ouro dos point and click, era um público ainda mais fechado, pois jogadores de PC eram completamente diferentes de jogadores de consoles naquele tempo.

Em 1999 veio um anúncio que levou os fãs à loucura, mais uma adaptação de Call of Cthulhu, dessa vez com o subtítulo Dark Corners of the Earth, mas que diferente dos anteriores, ao invés de se popularizar pelo subtítulo, se popularizou apenas como Call of Cthulhu ou "Aquele jogo do nome estranho", como muita gente preferia chamar kkkkk.

É necessário ficar atento que esses três jogos estão ligados e são da mesma franquia, fazendo parte do mesmo universo, no entanto existem outros jogos com o mesmo nome mas que são separados, tipo Call of Cthulhu: The Wasted Land. E Dark Corners of the Earth prometia finalmente levar a interação com o universo dos Mitos a outro nível.

Porém com uma penca de atrasos, tá aí um jogo que demorou pra cacete, sendo lançado só sete anos depois em 2006. Nesse meio tempo, certamente rolaram muitas mudanças e talvez nunca saibamos o que era pra ter sido de verdade, porém o jogo saiu com uma baita de uma cara de Half Life 1, com direito até ao pé de cabra como arma inicial  e uma arma idêntica à Gravity Gun de Half Life 2.

O jogo inicialmente é também uma adaptação de A Sombra de  Innsmouth, dessa vez de um jeito mais atmosférico e lembrando bem certas adaptações como o filme Dagon, e que também fará os fãs de Resident Evil 4 terem uma baita de uma sensação de Déjà vu com um monte de caipiras extremamente rabugentos.

No entanto logo o jogo toma um caminho próprio usando elementos do universo de Lovecraft e algumas improvisações no roteiro, apresentando a história de Jack como centro da coisa e os contos de Lovecraft ficando como planos de fundo. Meio que pescam um pouquinho de cada lugar pra agradar os fãs.

Algo que gostei é o fato de terem adicionado elementos da jogabilidade na hora certa, contendo stealth, tiroteio, investigação e resolução de puzzle, tudo com um toque de horror. Isso gera a dose certa para um jogo lovecraftiano, mas apesar das boas ideias, infelizmente não dá pra dizer que tudo funciona perfeitamente.

No começo do jogo você não tem armas, eu inclusive pensei por boa parte do tempo que a coisa seria meio semelhante a Outlast ou algo assim, o que me fez jogar de forma errada e perder um bom tempo em vão. A verdade é que mais ou menos, eu estava jogando do jeito certo, mas o jogo é simplesmente mal programado demais em certos quesitos e é desnecessário usar certos elementos.

Indo direto ao ponto, estou falando do stealth presente. Existe a opção de se abaixar, andar pelas sombras e até prender a respiração. No entanto tem tanta bala e kit de cura no jogo, que você realmente pode jogar no estilo half life. Sair correndo loucamente sentando bala nos monstrengos. São poucos os momentos que você está realmente desarmado e precisa usar o stealth.

E quando você é obrigado a usar, pode aproveitar do que talvez seja a falha mais grave do jogo, que é a inteligência artificial burra feito uma porta. Basicamente os inimigos chegam, apontam a arma pra você agachado na frente deles atrás de uma caixa, erram loucamente até que falam "Ué? Cadê o forasteiro?" e vão embora. '-'

Outro problema é que o jogo envelheceu com o tempo e os efeitos usados puxavam tecnologias usadas em placas de vídeo da época. No entanto as placas evoluíram e abandonaram certos elementos para adotar outros melhores, porém o jogo não recebeu um patch. O resultado é que os próprios fãs tiveram que lançar correções. Isso gera uma verdadeira paranoia, pois você não sabe se não está passando porque é burro ou porque deu pau no jogo.

Pra quem costuma ter cinetose, se prepara! O personagem tem enjoos, e você certamente vai ter junto. Eu joguei esse jogo na live do nerd maldito, e as primeiras eram de meia hora porque eu não conseguia ir além. Às vezes o personagem tinha uns delírios, me dava vontade de vomitar e o povo que tava assistindo também comentava que tava dando enjoo. No fim eu tava mais resistente, mas inicialmente foi complicado.

O jogo tem elementos de investigações bem maravilhosos, apesar de não ser em português, fãs traduziram e se você não sabe inglês, é obrigatório, pois ele tem puzzles que vão te obrigar a ler. Ficou realmente legal, tem puzzles inteligentes e difíceis, alguns fizeram em me morder tentando entender, mas é bem satisfatório.

São coisas como analisar arquivos pra descobrir uma combinação de um cofre, ou observar hieróglifos para tentar entender um padrão e usar a sequencia. A coisa ficou realmente muito legal e nisso capricharam pra valer mesmo. Para aqueles que gostam de doses certas de ação com momentos mais calmos pra dar uma variada, certamente vão gostar.

O jogo também se mostrou grandioso na atmosfera e narrativa, é legal ver que personagens morrem de verdade, não é aquela coisa de você saber quem vai morrer e quem vai viver. Além disso não economizaram nas ideias grandiosas, por exemplo tem um momento que você está em um navio e tem que enfrentar uma sequencia de tsunamis. Eu acho que nunca vi isso em um jogo antes, mesmo com a limitação gráfica deu um arrepio.

O jogo tem alguns outros elementos menores, mas que chamam a atenção, por exemplo o sistema de cura, que você pode machucar múltiplas partes e isso afeta o personagem de forma diferente, por exemplo um olho roxo deixa a visão distorcida, uma perna quebrada te faz andar lento, e assim você tem que localizar a ferida, marcar ela e mandar ele se curar (Se tiver suprimentos pra isso), há ainda outras coisinhas como a sanidade do personagem, ele pode ver certas coisas se estiver olhando pro lado certo, ou começar a ter enjoos se olhar pra algo que não deveria.

Enfim, é um ótimo jogo, porém tem que ser jogado levando em conta a época do lançamento. A única coisa realmente imperdoável é a inteligência artificial, porém no geral é um jogo que vale bastante a pena, especialmente para os fãs de Half Life 1 que procuram por algo parecido. Recomendo sempre dar uma olhadinha no preço dele na Greenman Gaming antes de comprar na steam, algumas vezes os preços deles estão bem abaixo do normal, e sempre lembre de olhar os cupons de desconto que eles espalham pelo site, que deixa a coisa mais barata ainda, dê uma conferida aqui.

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