Esse é um conto interativo, antes de ler essa parte, leia os capítulos anteriores
A mãe de Samuel olha para o garoto e diz:
-Responda garoto, meu filho está traumatizado e a história que ele contou realmente é muito estranha, quero ouvir de você o que aconteceu exatamente, ele não está conseguindo dormir e hoje, ao tentar trazê-lo à escola, ele entrou em desespero, pensei que ontem seria o suficiente para faltar aula, mas hoje ele teve a mesma reação.
Otávio pensa um pouco antes de responder e percebe que está sem saída, não pode contar a verdade de forma alguma, assim como não pode simplesmente fingir que nada aconteceu pois aparentemente Samuel surtou com uma situação tão bizarra, decide então que a única coisa que pode fazer é assumir a culpa contando uma mentira.
-Senhora, eu gostaria de me desculpar com o Samuel, eu não pensava que ele ia ficar abalado, eu tinha colocado uma boneca velha na mochila pra assustar ele mas eu não achei que ele ia se assustar tanto.
-Uma boneca? Olha garoto isso que você fez foi uma brincadeira totalmente de mal gosto, o meu filho está desesperado lá em casa e ele achou ter visto outra coisa. O Samuel é um garoto bom e ele não tem que passar por essas coisas, estou realmente assustada com o jeito que ele está agindo, sua mãe não te deu educação não?
-Desculpa, eu não pensei que ele ia ficar assim.
-Mas ficou e eu quero ter uma conversa com seus pais.
O coração de Otávio acelera e ele lembra o quanto o último castigo foi difícil, entrar em outro não seria bom. Por um segundo ele lembra do encontro de quinta feira e que não poderá ir se estiver de castigo, porém logo depois lembra que o encontro é meia noite e terá que ir escondido estando ou não de castigo. Mesmo assim o garoto não se sente confortável em incomodar os pais mais uma vez. O diretor olha para o garoto e diz:
-Otávio, por que você fez isso?
-Não era pra ele ficar tão assustado, se eu soubesse que isso ia acontecer, eu não ia fazer isso.
-Mas fez e agora não tem volta. - Diz a mãe - Então eu vou ter que falar com a sua mãe pra ela saber o que você fez.
-Tudo bem, eu entendo.
A mulher faz uma leve expressão de desaprovação, provavelmente incomodada com a reação do garoto. Talvez ela quisesse que ele ficasse desesperado como normalmente crianças da idade ficariam ao serem colocadas nessa situação. Provavelmente dessa forma compensaria um pouco o que o filho estava passando.
Ao ver a expressão da mulher, Otávio decide que é melhor fingir maior descontentamento, talvez isso melhore as coisas e ele fala:
-Eu acabei de sair de um castigo, por favor não fale que eu o assustei tanto.
-Não o assustou tanto? Isso é o que eu vou fazer questão de falar! O meu filho ta traumatizado por sua culpa garoto!
Otávio abre levemente a boca fingindo que iria falar algo e logo depois baixa a cabeça, se a situação não fosse tão tensa talvez ele achasse engraçado a forma fácil de se manipular adultos quando se é criança. Afinal como crianças não são tão inteligentes, acabam por serem manipuladas porém eles nunca imaginariam que ele não tem uma mente infantil e que toda aquela expressão corporal é falsa apenas para fazê-los acreditarem que está abalado, embora de certa maneira esteja, mas não como uma criança que receberá uma bronca e sim como alguém que quer normalizar sua vida mas parece que as coisas sempre dão errado. O diretor então diz:
-Otávio eu vou te dar uma suspensão pelo resto da semana, sorte sua que sexta feira é feriado e por isso a suspensão será menor.
-Não diretor, ela não vai conversar com minha mãe já?
-Sim, vai e isso não é o suficiente, o que você fez foi grave. Agora pode ir.
Pelo resto da manhã o garoto fica pensativo sobre o que acontecerá na quinta e mesmo sabendo que terá que sair escondido de qualquer forma, ainda sente-se incomodado e acha que a situação irá acabar atrapalhando de alguma forma.
Ao chegar em casa a mãe começa a brigar com o garoto:
-Otávio eu não sei o que está acontecendo, sinceramente não sei! Primeiro você tira zero por sair no meio da aula, eu deixo você de castigo e então você faz a policia vir aqui em casa.
-Mas tinha um bandido...
-Não me responda Otávio! Eu estou falando agora, você diz que tinha um ladrão aqui sim, mas vai saber né? Eu não vi nada, não roubaram nada, seu pai não viu nada, não teve arrombamento, então é realmente difícil de acreditar! Mas o pior foi isso agora, suspensão? Suspensão Otávio?! O que está acontecendo com você? Você ta andando com má influências? A mãe desse menino me ligou e disse que ele ta traumatizado.
-Desculpa mãe.
-Pra mim não! Você tem que pedir desculpas é pra esse garoto! E começar a estudar mais Otávio, você fica andando com esses seus amigos que não querem nada com a vida e acaba assim. E me dá aqui essa mochila que eu quero ver que boneco é esse.
Otávio sente um frio no estômago, a sua mochila está cheia de sangue, ele não teve nenhum tempo sozinho que fosse o suficiente para poder lavar sua mochila sem sua mãe ver. Imediatamente ele fala:
-Eu joguei fora mãe.
-Jogou fora? Pra começar onde você conseguiu essa coisa que eu quero saber?
-Eu achei.
-Achou? Pois vamos ver se é verdade, me dá essa mochila aqui.
-Não mãe, eu joguei fora.
O garoto segura forte sua mochila, mas sua mãe consegue tirar dele, ele tinha esquecido como sua mãe era mais forte que ele na infância. Ela abre a mochila e faz uma expressão de susto ao ver o sangue seco, logo depois dizendo:
-Mas o que é isso? Por que sua mochila está assim?
O garoto não responde e apenas olha a expressão de raiva e surpresa da mãe. Ele se sente intimidado com a situação e não sabe o que dizer. Ela repete:
-Responde Otávio, que porcaria é essa aqui na sua mochila?
-Tinta...
-Tinta? Que cheiro horrível é esse Otávio?
-Uma caneta vermelha estourou dentro mãe, a culpa não é minha. O cheiro é da boneca velha que eu tinha achado no chão, desculpa.
-Eu não vou limpar isso aqui não, se vire, eu já faço muita coisa pra você, eu me esforço, eu tento ser uma boa mãe e é assim que você me agradece. - Ela joga a mochila do garoto no chão perto dele - Eu não te reconheço mais Otávio, não sei o que está acontecendo com você.
A mãe fala isso e sai andando em meio às lágrimas para seu quarto, fecha a porta e não diz mais nada, o garoto pensa em ir atrás dela mas decide que é melhor deixar pra lá. Ele percebe que o almoço está pronto e se serve alguns minutos mais tarde.
Após o almoço o garoto decide lavar a mochila, parece ser a única coisa boa em meio a tudo isso, ele não aguentava mais aquele cheiro horrível e na área de serviço começou a passar uma escova nela, em alguns pontos é mais difícil tirar as manchas. Ele fica impressionado com a quantidade de líquido vermelho que cai na pia e escorre pelo ralo. O garoto fica observando desconcentrado aquele sangue até que ele ouve um som estranho no ralo e desliga a torneira imediatamente. Observa por alguns segundos e então liga novamente a torneira e nesse momento ouve um forte suspiro atrás dele seguido por uma voz dizendo "Há demônios atrás de você" ele se vira bruscamente derrubando a escova no chão e olha para vários pontos da área. Se lembra que ouviu a mesma coisa na escola quando Samuel viu o bebê bizarro.
Otávio procura por toda a área mas não vê nada e após parar por alguns minutos para tentar colocar os seus pensamentos em ordem, pega a escova e termina rápido de limpar a mochila para sair o mais rápido possível dali.
Durante toda a tarde o garoto se aprofunda na leitura do livro ocultista ao invés dos outros dois acadêmicos. Ele não leva muito a sério esse livro, parece algo forçado demais para ele, porém é o que mais fala sobre Pirocinese e talvez fale algo sobre demônios, o garoto sente um medo enorme e fica imaginando se ao anoitecer algo vai aparecer em seu quarto novamente. Começa a ter uma sensação semelhante a que diversos filmes de terror lhe causaram após assisti-los, a sensação de achar que tem um monstro escondido pronto para agarrá-lo, com a diferença de que não é apenas um medo irracional causado por uma obra cinematográfica, mas sim algo muito mais próximo do real. Será aquele bebê um demônio?
Após algumas horas de leitura ele chega a páginas que apresentam exercícios, só então ele percebe que desde o ocorrido com o mendigo, ele nem ao menos tinha tentado usar a habilidade novamente, talvez por medo... Mas então ele percebe que talvez possa usar em seu benefício, se uma criatura o pegar ele pode tentar atear fogo nela. O garoto pega algumas folhas de papel, uma vela e o livro e vai em direção à porta, quando se lembra da briga que teve com a mãe, ela não o proibiu de sair mas pelo jeito ficou óbvio. Decide então voltar para o quarto, não é bom fazer os exercícios ali, algum acidente pode acontecer, porém não é bom incomodar a mãe. Ele senta-se e fica pensando se deve arriscar e logo vê que não aguentará simplesmente não fazer nada.
O garoto senta-se no chão e começa a fazer os exercícios, ele tenta primeiro apagar uma vela com a mente, o livro diz que a pessoa deve ter paciência pois o processo demora muito, embora Otávio acredite que seja mais rápido com ele, afinal ele fez uma pessoa entrar em chamas. Para a decepção do garoto, após horas de exercício, ele não conseguiu fazer absolutamente nada, a única coisa que ele fazia era repetir para si mesmo que era algo difícil e que tinha que ter paciência. Por diversos momentos o rápido pensamento de que o ocorrido com o mendigo foi só imaginação, passava por sua cabeça, mas imediatamente percebia que seria impossível, afinal passou no jornal, alguém tinha ligado para ele e comentado, algo realmente estava acontecendo. Isso sem contar com o fato de ele estar nos anos 90 sem ter a mínima idéia de como.
A noite chega e Otávio não consegue fazer nada com a vela, o pai vai conversar com ele e é uma conversa mais calma do que a que ele teve com a mãe mais cedo, o pai diz que o entende e que era normal fazer brincadeiras, mas que ele tem que pensar mais antes de fazer certas coisas. Também diz que ele está de castigo até a próxima segunda feira. Otávio aceita o castigo sem reclamar, também sente-se mal em saber que sairá escondido na quinta, é como se estivesse traindo o pai que está sendo tão compreensivo.
Até a quinta feira a noite, Otávio continua com os exercícios e chega a pensar em desistir, porém na quinta pela manhã ele fica feliz ao ver que finalmente algo passa a ocorrer, ele consegue ver claramente o fogo da vela tremer quando ele se concentra, embora não seja o seu objetivo, ele sente-se bem por perceber que ao menos não está sendo em vão, que ele realmente está causando influência sobre a chama. Pratica durante a tarde inteira, a mãe não vai ver o que ele está fazendo, ele sente-se bem e mal ao mesmo tempo. Não gosta que ela fique tão fria com ele, mas ao mesmo tempo sabe que assim não será atrapalhado.
Durante a noite o garoto espera ansioso pela hora marcada, ele fica com medo do que está por vir, mas ao mesmo tempo quer muito descobrir. Quando seus pais vão dormir, ele apaga também as luzes e espera no escuro, deitado, olhando para cima e consultando o relógio a todo tempo, até que quando faltam vinte minutos para meia noite, ele se levanta e sai com muito cuidado, sabe que se os seus pais acordarem ele terá um problema enorme. Leva um bom tempo para abrir a porta e fechar e desse as escadas lentamente para que não ouçam, mesmo sendo difícil isso incomodá-los. Ao sair do prédio o garoto corre até a parada de ônibus e ao chegar não tem ninguém, ele olha para todos os lados e percebe que está só, até que alguns minutos depois ele vê a figura de dois homens surgindo. Otávio sente os pelos de sua nuca arrepiarem, se pergunta se são eles ou se está prestes a ser assaltado. Ele fica parado em pé, os observando, não tem nenhuma reação e prefere não perguntar quem são, mesmo porque o que ele perguntaria? Se fossem pessoas que nada tem a ver com isso poderiam achar que ele é louco.
Os dois homens continuam se aproximando até ficar aproximadamente três metros de distancia do garoto, eles o observam e um pergunta ao outro:
-É ele?
-Eu acho que é sim.
-Acha? Não pode ter erros, você sabe disso, iria complicar muito... - Ele vira o rosto para o garoto e pergunta - Você é o Otávio?
-Sou sim... - Responde ele tímidamente.
Ele vira a cabeça para o outro homem e diz:
-Você tem certeza disso não é? Porque depois não haverá volta.
-Sim, além do mais já viemos até aqui, fomos cuidadosos.
-Você está nervoso?
-É claro que estou... Você pode fazer?
O homem respira fundo olhando pra baixo e diz:
-Sim...
-Muito bem então, é agora.
-Garoto, não se mova...
O homem diz isso apontando uma arma para Otávio.
O garoto:
1 - Grita por socorro e tenta correr.
2 - Tenta correr sem gritar.
3 - Tenta atear fogo nos dois, como fez com o mendigo, mas ele sabe que a possibilidade é muito baixa pois treinou muito e só conseguiu movimentar o fogo da vela.
4 - Implora para não fazerem isso e pergunta o que ele fez.
Tem uma galera perguntando se o
Roteiro original de "Eu sou Deus" Tomo 01 faz parte mesmo da história, bom não faz galera, eu coloquei apenas pra zuar, mas podem ignorar por completo.
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